Durante os próximos meses, o mapa de Alagoas será revisado para pôr fim às dezenas de conflitos territoriais que existem nos municípios alagoanos. Após anos de brigas políticas e jurídicas, um convênio firmado na semana passada entre o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o Iteral (Instituto de Terras de Alagoas) vai dar início a um estudo detalhado para definir os limites geográficos de cada um dos municípios.
Briga por povoado gera confusão entre PE e AL
A disputa por povoados em Alagoas extrapolou a fronteira territorial e se tornou um problema interestadual. Pelo menos três pontos da divisa com Pernambuco serão analisados pelo IBGE nos próximos meses. Serão definidos os limites entre Santana do Mundaú (AL) e Correntes (PE), e entre Estrela de Alagoas (AL) e Bom Conselho (PE). O terceiro caso é o mais complexo e envolve os municípios de Santana do Ipanema (AL) e Águas Belas (PE)
Segundo o Iteral, cerca de 40 processos, envolvendo mais da metade dos municípios do Estado, serão analisados visando também o Censo 2010 do IBGE. A meta é definir os limites municipais até o final do próximo ano.
Entre as indefinições estão áreas importantes de Alagoas, como o novo aeroporto Zumbi dos Palmares e um bairro localizado na região metropolitana da capital. Além deles, dezenas de povoados são disputados por prefeituras distintas, e em três casos a briga extrapola os limites estaduais e chega na divisa com Pernambuco.
Desde 1988, os limites dos municípios passaram a ser definidos pelos institutos de terras dos Estados. Porém, diante da complexidade dos casos e por envolver também outra unidade da federação, o IBGE foi convocado para ajudar. "As leis que criaram os municípios são antigas, algumas com mais de 100 anos. Alguns dos pontos usados como limites, como rios, estradas e montanhas são imprecisos. Temos casos onde a população de um município está ocupando as terras de outro", afirmou ao
UOL Notícias o presidente do Iteral, Geraldo Majella.
Segundo José Henrique da Silva, da Diretoria de Geociências do IBGE, a definição dos problemas territoriais vai ajudar o instituto na produção do Censo 2010. "Implementamos algumas ações desde 2008 visando o Censo. Mas é importante frisar conflitos não se verificam apenas em Alagoas, mas no país inteiro", disse.
Sem definição, bairro fica sem escolaAlém das dezenas de casos em pequenos povoados, dois casos envolvem a capital Maceió. Em um dos processos que será analisado, três municípios querem saber quem é o dono de um bairro na parte alta da capital, o Santos Dumont, com cerca de 15 mil habitantes. "Ninguém sabe se a região é de Satuba, Rio Largo ou Maceió. Pode ser que as construções tenham invadido os três municípios", explicou o presidente do Iteral.
Por conta de indefinição, Majella conta que a população da região deixa de contar com investimentos públicos. "O município de Satuba já está com recursos para construir uma escola, mas não sabe se o local é de propriedade do município. Hoje, parte do serviço é prestado pela prefeitura de Maceió, outra parte por Rio Largo, outra por Satuba", disse.
Outro caso envolve o novo aeroporto Zumbi dos Palmares, construído ao lado do antigo prédio e inaugurado em 2005. Até então, o único aeroporto do Estado estava em território de Rio Largo. Com a mudança, passou a ser de Maceió - e o caso acabou sendo questionado pelo município vizinho. "Nosso entendimento é que o novo aeroporto está em território de Maceió, mas Rio Largo questionou e vamos fazer uma reanálise", disse Majella. No dia da inauguração, o prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PP), fugiu da polêmica e disse que "o aeroporto era de Alagoas".
Disputas no interiorSe na capital a briga dos municípios é mais velada, no interior de Alagoas os casos chegam inclusive à Justiça. A disputa mais conhecida é a dos municípios de Quebrangulo e Paulo Jacinto que lutam pela Vila de São Francisco.
Há dois anos, o Iteral entendeu que a vila estava nos territórios dos dois municípios e, por possuir maior parte, Paulo Jacinto ficou com a administração da localidade. O município de Quebrangulo recorreu à Justiça e, baseado em um laudo de um engenheiro cartográfico, o juiz Cláudio Jose Gomes, da 18ª Vara Fazendária, determinou que a administração deveria ser dividida entre os dois municípios.
Para o prefeito de Quebrangulo, Marcelo Lima (PMDB), o Iteral não apresentou documentos comprobatórios da posse da prefeitura vizinha. "A mudança tinha acontecido por conta de uma avaliação técnica feita sem consistência documental. Foi o prefeito vizinho que quis criar confusão conosco e quis 'abocanhar' o que historicamente nos pertence", disse à época o prefeito da terra do escritor Graciliano Ramos.
Disputa envolve recursos, diz economistaPara o economista Cícero Péricles, a disputa possui não só interesses políticos, mas também econômicos. "Isso está na importância do tamanho da população para a confecção dos cálculos do FPM [Fundo de Participação de Municípios], transferências para políticas sociais [Fundeb, SUS] e na quota das transferências estaduais. Esses recursos são importantes pela incapacidade desses municípios de fazerem suas próprias receitas", avaliou, lembrando que a incorporação dos povoados também pode alterar o número de vereadores nas câmaras municipais das localidades.
Embora os prefeitos lutem pela posse, o economista avalia que pouco ou nada muda na vida da população com a redefinição do município. "Os habitantes desses distritos continuarão com serviços ruins nas áreas de educação e saúde; os serviços urbanos seguirão sem qualidade; seus agricultores não terão mais assistência técnica ou crédito para financiamento da produção, etc.. A Vila de São Francisco, por exemplo, continuará como seu padroeiro: 'pobre entre os pobres'", afirmou o economista.