UOL Notícias Cotidiano
 

03/11/2009 - 07h00

Armas da polícia superam arsenal do tráfico no RJ

Rosanne D'Agostino
Enviada especial do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

O arsenal da polícia

  •  Reprodução

    O Fuzil Automático Leve - FAL é um fuzil de assalto visto em operações do Bope. A polícia do Rio possui outros tipos, como o AR-15, o M16 e o G3, além de metralhadoras e submetralhadoras, espingardas e rifles. Sem falar na frota, com carros, os blindados "caveirões" e os helicópteros

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    Usada pelo Bope, a HK21 é uma metralhadora ligeira alimentada por cinta de munições

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    Menos letais que os fuzis, os tiros das carabinas ponto 30 não atravessam paredes; o Rio recebeu 1.500 armas deste tipo este ano, informou a Secretaria de Segurança Pública em março

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    Com carregamento semi-automático, a pistola ponto 40 tem 12 munições e um carregador de reserva, totalizando 24 munições


Em meio a confrontos que resultam na morte de inocentes, moradores do Rio de Janeiro começam a se questionar se não é hora de investir em armamento no combate ao tráfico. Para especialistas em segurança, no entanto, além de não ser a solução, a medida apenas ocasiona o aumento da violência e, na guerra entre traficantes e policiais, o Estado ainda leva vantagem quando a questão é poderio armado.

Difícil é saber oficialmente de que armas dispõem na prática os adversários na "guerra". A Secretaria de Segurança Pública não informa exatamente quais são os armamentos utilizados hoje pela polícia, por estratégia. Oficialmente, os policiais no Rio estão armados com fuzis 7,62, pistolas ponto 40 e carabinas ponto 30.

Tropas especiais como o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e o Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) contam com armamento mais pesado, exatamente por atuarem em zonas de conflito mais perigosas.

Entre as armas estão diversos tipos de fuzis, as submetralhadoras, explosivos de uso militar e rifles, facilmente vistas em operações como as que culminaram na morte de mais de 40 pessoas em outubro, conflito que teve início no morro dos Macacos, zona norte do Rio.

Já o tráfico, segundo as estatísticas mais recentes do ISP (Instituto de Segurança Pública) do Estado, possui armamento parecido, com um dado que causa espanto: a arma que ainda representa a maior quantidade das apreensões é o revólver, de menor potencial ofensivo.

Fuzil na mão
Houve um aumento, porém, do poder destrutivo do armamento encontrado em posse de traficantes, que é demonstrado por um maior número de armas de grande periculosidade apreendidas entre 2007 e 2008.

Nesse período, ganharam espaço os fuzis, metralhadoras, submetralhadoras e pistolas. Antes, eram 23,7% do total. Agora, são 26,5%. Além disso, é crescente o número de artefatos explosivos, como granadas.

Segundo a titular da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), Márcia Becker, é tudo o que se pode dizer sobre o armamento do tráfico. "Se não estiver na estatística, não adianta. O que sabemos é que, hoje, a maior parte do que é apreendido ainda é o revólver. Como os números de 2009 ainda não foram divulgados, é preciso esperar a compilação desses dados pelo ISP para saber se esse crescimento se manteve", afirma.

O arsenal do tráfico

  • Reprodução

    O AK 47 (Avtomat Kalashnikova) é um fuzil de assalto, uma das armas mais comuns no tráfico; é capaz de disparar até 600 tiros por minuto. Também fazem parte do arsenal metralhadoras ponto 30, submetralhadoras, espingardas e rifles

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    A pistola PT 92,9mm; esse tipo de arma, mais potente, substitui aos poucos o revólver

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    O revólver, de mais fácil manuseio, ainda é o tipo de arma mais comum e representa a maior quantidade do armamento apreendido no país

  • Marco Antonio Rezende/Folha Imagem - 2003

    Além de granadas (f), os traficantes utilizam com frequência armas de fabricação caseira



As armas e o crime
O relatório final da CPI do Tráfico de Armas da Câmara dos Deputados, aprovado em dezembro de 2006, mostra que não é de dois anos para cá que o perfil do armamento do tráfico segue essa linha. Os dados têm como base as armas guardadas pelo DFAE (Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos) do Rio.

O revólver representava 73% do total até 1992. Até 2003, houve redução, e ele passou para 63% do todo apreendido, substituído principalmente por pistolas, de maior periculosidade.

Nesse período, pôde se constatar também o aumento de espingardas (4% para 10%). Enquanto isso, metralhadoras e submetralhadoras, que não passavam de 1%, chegaram a 4,3% em 2003 e, depois, à atual marca.

Outro levantamento mais recente aponta na mesma direção. "Siga a rota das armas ilegais e se terá a rota de outras atividades ilícitas no país", é uma das conclusões da pesquisa divulgada no dia 15 de outubro em Brasília pela Subcomissão de Armas e Munições da Câmara dos Deputados, a ONG Viva Rio e a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça.

Segundo o estudo, que traçou o desempenho das 27 unidades da federação no controle de armamentos e munição e no combate ao tráfico ilegal, o Rio de Janeiro faz jus ao grande número de armas existentes.

O Estado possui hoje a maior mortalidade por arma de fogo do país. São, em média, 46 mortes a cada 100 mil habitantes por esse tipo de instrumento, enquanto a média nacional chega a 19,9.

A mais recente aquisição de armas no Estado citada no relatório data de 2002, quando a polícia adquiriu 400 fuzis M-16 A2 e 3.200 pistolas Taurus PT 940 calibre ponto 40. O mesmo Estado, porém, contabiliza o extravio de 22 armas por ano, além de 29 furtos e 79 roubos de armamento anuais. Entre 1998 e 2004, 553 armas apreendidas com criminosos foram identificadas como pertencentes à polícia.

Especial sobre os confrontos no Rio

  • Antonio Scorza/AFP

    Policiais confrontam traficantes durante operação na favela Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, no Rio de Janeiro; mais de 40 pessoas morreram nos últimos confrontos em favelas da zona norte, que tiveram início no dia 17 de outubro



O número, segundo informou o Estado do Rio no levantamento, é fruto de um maior controle do destino das armas apreendidas nos últimos anos, com a digitalização do processo e o treinamento de pessoal.

No Brasil, são 17,6 milhões de armas conforme o estudo, das quais 2 milhões estão em posse do Estado (segurança pública e Forças Armadas). Do restante, 5,4 milhões estão registradas e 10,1 em situação ilegal. Das não registradas, 6 milhões estariam sendo utilizadas por criminosos. O Rio apreendeu, em média, 13,6 mil armas por ano entre 2001 e 2004.

As armas e a violência
Para Jorge da Silva, professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio), os números não significam que o tráfico já superou o poderio armado da polícia. "Não que o tráfico não esteja bem armado. Indiscutivelmente, eles têm armamento pesado. Mas a polícia tem bem mais. O governo investe", diz.

"Isso é até uma justificativa para se armarem mais [a polícia], mas não é o que ocorre", complementa Julita Lemgruber, socióloga e ex-ouvidora da Polícia Civil do Rio. "Dizer que os traficantes têm cada vez mais armas poderosas pode ser visto como mais uma forma de justificar a continuidade dessa truculência."

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