UOL Notícias Cotidiano
 

05/11/2009 - 18h12

Moradores de SP relatam como enfrentam o calor em semana de altas temperaturas

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo
No canteiro central da avenida Paulista, o marronzinho segura o apito em uma mão, mas não solta a garrafa de água da outra. Mesmo com o protetor fator 30 que passa duas vezes ao dia, ele aproveita cada brecha no tráfego para curtir a sombrinha que faz atrás do totem do semáforo. "Estou com as costas encharcadas de suor", diz ele.
  • Roger Soares/UOL

    No ranking dos que mais sofrem com o calor, ganha o motoboy Fernando F.M. dos Santos, 28, com 37ºC em sua jaqueta: "É um forno."



Na faixa de pedestres, quem passa também encontra formas inusitadas de escapar do calor. A assistente de enfermagem Roberta Guimarães, de 34 anos, desfila balançando um leque freneticamente. Enquanto espera para atravessar a rua, coloca o acessório no topo da cabeça. "Esse sol acaba com minha tintura. Desbota tudo", assume.

Assim como eles, muitos outros paulistanos estão sofrendo com o calor dos últimos dias. Nesta quinta-feira (5), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) constatou uma máxima de 31,7º C na capital. Não foi mais do que na última terça-feira (3), quando a marca chegou a 33,6º C, quase batendo o recorde geral de 2009, registrado em 1º de março: 34,1º C, segundo dados da Somar Meteorologia.

Todas essas medições oficiais, no entanto, são sempre feitas com base em levantamentos coletados em pontos fixos da cidade - o que exclui do cálculo as situações cotidianas que fazem muita gente "ferver", como as viagens de ônibus, por exemplo. Foi por isso que, para saber onde São Paulo é de fato mais quente, a reportagem saiu pelas ruas com um termômetro de ambiente portátil. Com muito suor, literalmente, o resultado desta quinta-feira acaba de ser tabulado. E surpreende.
  • Roger Soares/UOL

    Na av. Paulista, o marronzinho não larga a garrafa d'água

  • Roger Soares/UOL

    Na 25 de março, camelô fatura com venda de sombrinhas

  • Roger Soares/UOL

    Roberta Guimarães, 34, tenta se refrescar com um leque



O ranking do calor
De todos os que sofrem com o calor na cidade, ninguém pena mais do que os motoboys. De casaco preto de nylon, Fernando F.M. dos Santos, 28 anos, voava baixo quando foi avistado. Abordado, as gotas que escorriam de sua testa já davam uma mostra do sofrimento do profissional das entregas. Ele faz várias corridas pela cidade. Mais de 50 viagens por dia. "Meu corpo inteiro está molhado. Até meu pé está suando", diz ele. "É uma mistura do sol com nervosismo. A gente corre muito, sempre atrasado. Isso é complicado", resume. O teste feito em seu colete foi decisivo para a medalha de ouro: eram 37ºC em sua jaqueta. "É um forno", ironiza.

A vida dos camelôs também é intensamente quente. Na rua 25 de Março, então, a situação está "pelando". Com a proximidade do Natal, a época de compras já começou. Os vendedores de sombrinhas estão em festa. "Hoje já compraram quase 100 unidades", disse o responsável pela barraca de guarda-chuvas, Joaquim Moraes, 37 anos. Ao seu lado, o rapaz que vende coco verde também comemora. "Em dias assim, dá pra vender uns 500", explica ele, que compra o fruto a R$ 0,40 e vende a R$ 1,00. Foi na frente deles que o termômetro foi colocado. Resultado: 36,7º C. Ficaram em segundo lugar.

Próximo dali, no terminal de ônibus D.Pedro, o peso do calor também é sentido. Nas ruas de acesso, a população se esbanja comendo lascas de abacaxi vendidas a R$ 0,50. Nas plataformas de embarque, as filas que se formavam por volta das 15h reuniam muita gente - e quase todas com suas garrafas de água. Dentro do veículo, a temperatura subiu ainda mais. "Está um inferno isso daqui", insistia a passageira Margarida Barbosa, 43 anos. "A gente sofre", desabafou antes de segurar o termômetro da reportagem. Ela mesma antecipou a medição, com sucesso: 36ºC. "Que horror, né? Deveriam colocar ar-condicionado aqui", sugere.

Na praça da Sé, a situação não era diferente. Em frente à catedral, não havia pastores, imitadores, humoristas nem malabaristas procurando atenção. Nesta quinta-feira, estavam todos recolhidos, na parte mais arborizada da praça, onde as copas criavam uma defesa contra o sol. O gari Hélio Manuel, 28 anos, limpava o chão. "Fico pensando só no banho que vou tomar assim que chegar no alojamento da prefeitura. Não dá para voltar para casa assim", dizia.

Nas fontes que embelezam a paisagem, moradores de rua e carroceiros antecipavam o sonho de Hélio. Mergulhavam sem medo e brincavam na água. "Aproveito até para lavar a roupa aqui", assume Cosmo dos Santos, 36 anos, que dorme na região. Avisado do desafio da reportagem, ele ainda com a mão molhada segura o termômetro para ver o resultado da medição 35,7ºC.

Questionado se acha a temperatura quente demais, ele parece não entender a pergunta. Bebe mais um gole de pinga em uma garrafa plástica e volta a mergulhar. "Se está quente ou não, o importante é se refrescar", filosofou ele, ignorando o repórter para curtir sua tarde de sol.

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