UOL Notícias Cotidiano
 

30/05/2009 - 07h02

Rizicultores de Gaspar (SC) ainda limpam suas terras arrasadas pela enchente

Gabriela Sylos
Enviada especial do UOL Notícias
Em Gaspar (SC)
Os campos de plantação de arroz, que antes das chuvas de novembro de 2008 tornavam a paisagem rural de Gaspar (120 km de Florianópolis) plana e verde, hoje se resumem a uma mistura de terra seca, mato e restos de troncos de árvores. Após seis meses dos primeiros deslizamentos, muitas terras ainda estão sendo limpas para que seja possível começar um novo plantio.

O cultivo de arroz representa 30% da economia da cidade. Segundo a Secretaria Municipal de Agricultura, todos os cerca de 320 produtores da região tiveram problemas com as enchentes. Nos bairros rurais de Arraial Baixo e Belchior Alto, o prejuízo foi de 100%.

A época do plantio acontece em agosto; em fevereiro é a vez da colheita. Além de perder a colheita deste ano, arrasada após a enxurrada, os rizicultores vão perder também o próximo plantio. "A recuperação é a longo prazo. Precisa de dois anos, no mínimo", avalia Newton Carlos Almeida, 51, coordenador de patrulha da secretaria municipal.
  • Flávio Florido/UOL

    As terras do agricultor Eumar Simon ainda estão cobertas por uma camada de cerca de 80 centímetros de entulho


Considerando apenas a colheita perdida, o agricultor Daniel Zabo teve prejuízo de R$ 30 mil. Seus equipamentos, tomados pela água, ficaram enferrujados. "Não recebi nada do governo", lamenta. O produtor lamenta que o auxílio-reação do Estado - seis parcelas de R$ 415 - só possa ser recibo por quem perdeu a casa. Enquanto tenta limpar seus três hectares para receber as próximas sementes, Daniel se sustenta com a "mixaria da aposentadoria", segundo suas palavras.

As terras de Eumar Simon ainda estão cobertas por uma camada de cerca de 80 centímetros de entulho, entre areia e pedra. Até agora, o rizicultor gastou R$ 96 mil na limpeza de parte de seus 25 hectares. A dragagem do rio que fica perto de sua propriedade foi feita duas vezes, já que a chuva voltou no começo deste ano. "O ribeirão ainda está assoreado, se chover de novo vai alagar", constata. Eumar já pediu empréstimo para o banco, mas o dinheiro ainda não veio. Enquanto isso, ele depende da aposentadoria e das economias pessoais.

O agricultor vive no mesmo local há 70 anos e nunca presenciou tantos deslizamentos. Ele afirma que, nas enchentes da década de 1980, "nem enxurrada deu". "Choveu muito e o solo ficou saturado. Não havia o que segurasse tamanha quantidade de água", afirma a geógrafa e pesquisadora do grupo de estudos de Desastres Ambientais da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Maria Lúcia de Paula Hermman. Foi o novembro mais chuvoso desde 1961, quando o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) começou a fazer medições em Florianópolis. Em 24 dias, o Estado registrou 535,8 milímetros (cada milímetro equivale a um litro de água por um metro quadrado), quando a média histórica do mês é 140 milímetros.





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