Município com maior registro de mortes em SC, Ilhota ainda sofre com perdas
Gabriela Sylos Enviada especial do UOL Notícias Em Ilhota (SC)
A casa de Carmem e Maury Hostin foi uma das moradias que escapou da força das encostas que desabaram no morro do Baú, em Ilhota (112 km de Florianópolis), em novembro do ano passado. Mas isso não foi suficiente para confortar o casal. Eles perderam dois netos nas enchentes - um de 8 meses e outro de 17 anos. O local onde eles estavam abrigados foi soterrado pela lama, e outras três pessoas morreram no mesmo lugar. Uma menina de 11 meses segue desaparecida.
A cidade de Ilhota foi a mais castigada pelas chuvas. Com cerca de 12 mil habitantes, o município contabilizou 34 mortes, segundo cálculos da prefeitura. Já a Defesa Civil estadual afirma que 47 pessoas morreram na região.
"Aquilo era só água, a gente não sabia mais o que fazer. Parecia o fim do mundo", lembra Carmem. "Eu não me esqueço mais do meu neto pedindo ajuda dizendo: 'Pai, me ajuda, me tira daqui'". Quem sobreviveu foi resgatado de helicóptero.
"[Nas enchentes anteriores] não desciam todos os morros. Meu avô morreu, meu bisavô morreu e nunca viram isso", relata a moradora. Após passar três meses em um abrigo público, o casal resolveu voltar para casa - mesmo com toda a vizinhança ainda destruída. "A gente voltou porque ainda tinha a casa aqui", conta Carmem. "Se chover uma semana, a gente já vai embora."
Leoni Reinert, 41, criador de frangos e também morador do Baú, ficou ilhado durante três dias na cheia e abrigou-se com cerca de 60 pessoas em um sítio. Soube somente dias depois de ser resgatado que 13 vizinhos seus haviam morrido. "A gente não sabia o que estava acontecendo perto dali", lembra.
O bombeiro Jornas Rodrigo Maciel, 22, encontrou dez corpos soterrados. "Encontramos corpos embaixo de residência, embaixo da terra. Um deles estava a 15 km de sua residência". Jornas lembra que todas as vítimas estavam sem roupa e com fraturas múltiplas devido à força da água. "Uma senhora foi identificada pelos filhos somente através de suas unhas", recorda.
Jornas e os colegas chegaram de barco para o resgate, mas tiveram que abandoná-lo e seguir adiante com lama até os joelhos. "Parecia um deserto retorcido, era carro no meio de árvore", afirma. "As pessoas estavam em pânico, ninguém acreditava no que tinha acontecido. Uma senhora me perguntou quando aquilo ia acabar", lembra.
Trabalhando como bombeiro desde os 18 anos, Jornas acreditava que nunca passaria por isso. "A gente não estava preparado, não tinha equipamento." Com seu único barco danificado, a corporação - composta, em sua maioria, por trabalhadores voluntários - terá que tomar emprestado um barco civil caso outra enchente volte a atingir Ilhota.