UOL Notícias Cotidiano
 

27/05/2009 - 07h30

Após seis meses, milhares de atingidos pelas enchentes vivem sem casa e sem perspectiva

Gabriela Sylos
Enviada especial do UOL Notícias
Em Blumenau (SC)

As marcas da enchente

  • Flávio Florido/UOL

    Um coelho de pelúcia, coberto de lama, permanece largado em uma casa atingida pelos deslizamentos na cidade de Ilhota

Passados seis meses das cheias que deixaram 135 mortos e mais de 80 mil desabrigados em Santa Catarina, as chuvas continuam a devastar o país - desta vez, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste. Em 11 Estados, ao menos 49 pessoas já morreram e mais de 400 mil estão fora de casa. Muitas cidades estão isoladas, sem remédios e sem alimentos. Enquanto surgem mais vítimas pelo país, nas cidades catarinenses atingidas pelo drama das enchentes em 2008 milhares de pessoas seguem sem casa. E sem perspectiva.

"Eles falaram, no começo, que ia demorar de oito meses a um ano, mas agora estão sem previsão", diz Pedro Paulo da Silva, 45, talhador, que mora em um abrigo de Blumenau (139 km de Florianópolis). "Falaram que eu ia ganhar uma casa, que era pra eu aguardar. Eu estou aguardando, né?", afirma Elizeana de Sousa, 22, vendedora ambulante e moradora de abrigo público em Gaspar (120 km de Florianópolis).

Durante uma semana, a reportagem do UOL Notícias visitou os municípios de Blumenau, Ilhota, Gaspar, Itajaí e Jaraguá do Sul - alguns dos que mais sofreram com as enxurradas. Nestas cidades, cerca de 1.530 pessoas continuam vivendo em abrigos públicos improvisados e outras 5.200 estão desalojadas, ou seja, em casa de familiares ou pagando aluguel, segundo cálculos das prefeituras. Em todo o Estado, ainda restam 12 mil desabrigados e desalojados. Cada município trabalha com um prazo diferente para a entrega de novas casas, mas alguns deles, como a cidade de Gaspar, ainda não têm datas definidas.







Os abrigos públicos são alvo de descontentamento geral. Para abrigar às vezes mais de 100 famílias em um mesmo lugar, os governos municipais criaram espaços privados precários - alguns não chegam a ter 20 m². Para fazer atividades rotineiras, como tomar banho, cozinhar e lavar roupa, os desabrigados têm que usar áreas coletivas. "Ninguém respeita ninguém", desabafa Ivan Pires, 23, talhador, morador de um dos seis abrigos de Blumenau. Sujeira, barulho excessivo, hábitos e personalidades diferentes são fatores que impulsionam os moradores a querer deixar a moradia provisória. Ninguém, no entanto, sabe ao certo quando isso vai acontecer.

Entre os que não ficaram sem a casa, muitos estão enfrentando problemas financeiros. Os estivadores do porto de Itajaí (90 km de Florianópolis) - que perdeu dois de quatro berços e teve a profundidade do rio modificada por lama e entulho - trabalham apenas duas vezes por mês, em média. Antes das chuvas eles chegavam a ser requisitados até duas vezes por dia. Com isso, o salário no final do mês não chega nem a 10% do valor que recebiam há seis meses. "A maioria tem duas profissões. Eles trabalham como pedreiros, biscates", afirma Francisco Norberto Souza, estivador e aeromodelista.

Casas-fantasma
As principais causas das mortes no Estado foram os deslizamentos. Com a chuva incessante, e forte, os morros vieram abaixo, trazendo consigo pedras e árvores de todos os tamanhos. Tudo o que estava no caminho foi levado junto. Santa Catarina não registrava tantas vítimas fatais desde as enchentes de 1974, quando quase 200 pessoas morreram. Desta vez, ao menos 63 municípios decretaram situação de emergência e outros 14, estado de calamidade pública.

Após seis meses, a maioria das estradas e ruas catarinenses já estão desobstruídas. Mas, ao olhar para os morros que circundam a cidade de Ilhota (112 km de Florianópolis), por exemplo, é fácil contar as clareiras abertas pelos deslizamentos. Do alto do morro do Baú, o morador Leoni Reinert, 41, que está desempregado, faz as contas: "Aqui eram quatro casas; ali uma família inteira morreu; ali segue desaparecida uma menina de 11 meses". A cidade teve o maior número de mortos no Estado: 47, segundo a Defesa Civil estadual. A casa de Leoni segue de pé, mas está interditada porque uma fenda na montanha da frente ameaça se desprender a qualquer momento.

E você?

Seis meses após ter sido atingido pelas cheias em Santa Catarina, o que mudou na sua vida?


Em Blumenau, parte da região do bairro de Coripós lembra um bairro fantasma. Restos de casas destruídas pelas águas dividem espaço com entulhos e galhos de árvores retorcidos. "Com o histórico das cheias em Blumenau, a tendência do pessoal foi subir os morros. E isso foi feito de maneira descontrolada. Achava-se que estava seguro no morro, tanto o pessoal de posse como as camadas mais pobres", afirma Jairo César, secretário da Defesa Civil de Blumenau, cidade que registrou 24 mortes e decretou situação de calamidade pública.

Newton Carlos Almeida, 51, funcionário público, subiu um morro de Gaspar para morar junto com os familiares. Cada família tinha uma casa e, juntos, eles montaram uma área comum com churrasqueira e quadra de esporte. Quando a terra desceu, nenhuma das seis moradias ficou de pé. Ao andar pelos entulhos, Newton identifica uma porta do armário da cozinha, uma poltrona que ele ainda não tinha terminado de pagar e a janela comprada na última reforma. Na casa de seu cunhado, um cheiro forte vem da geladeira, que se encontra entreaberta, atrás de entulhos da parede que desabou. "Nós limpamos, mas ela continua cheirando mal".

Compartilhe:

    Acompanhe a reportagem

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host