UOL Notícias Cotidiano
 

27/05/2009 - 07h31

Alocados em cubículos de 16 m², moradores de Gaspar (SC) ainda não sabem quando deixarão abrigo

Gabriela Sylos
Enviada especial do UOL Notícias
Em Gaspar (SC)
As chuvas que arrasaram Santa Catarina aconteceram há seis meses, mas para as 110 pessoas que seguem desabrigadas em Gaspar (120 km de Florianópolis) parece muito mais. "Demora a passar, parece que eu estou aqui [no abrigo] faz dois, três anos", afirma Elizeana de Sousa, 22, vendedora ambulante, que está com a casa interditada e vivendo em abrigos há seis meses. Terezinha Machado Pereira, 48, dona-de-casa, foi a primeira a chegar ao atual abrigo. "Nossa, parece que faz muito tempo. Tenho muita saudade da minha casa, mas isso não volta mais. Eu fiquei com um trauma muito grande daquele dia", afirma ao relembrar da casa que foi soterrada.

Os desabrigados já estiveram em escolas e prédios públicos e, desde a segunda quinzena de fevereiro, foram levados para o abrigo atual - o último que restou na cidade. Eles ainda não sabem quando poderão sair de lá.

"Falaram que eu ia ganhar uma casa, que era pra eu aguardar. Eu estou aguardando, né?", afirma Elizeana. "A minha esperança é conseguir uma casa. Eles não deram um tempo determinado para mim", conta Terezinha. "Eu não tenho ideia [de quanto tempo vou ficar aqui]. Eu gostaria que fosse o mais rápido possível", diz Jocelma Lemos, 28, cozinheira, que chegou ao abrigo com um bebê de 10 dias.
  • Flávio Florido/UOL

    Espalhadas por um galpão de 2.000 m², cada uma das famílias tenta ter privacidade dentro de um módulo de 16 m²

  • Flávio Florido/UOL

    Elizeana de Sousa mora em abrigos há seis meses, desde que sua casa foi interditada


A Secretaria de Desenvolvimento Social afirma que um terreno de 82 mil m² para a construção de moradias já foi comprado com cerca de R$ 2 milhões enviados pelo Estado ao município. O dinheiro é proveniente de doações realizadas através do Fundo Estadual da Defesa Civil. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Ednei de Souza, 170 casas foram doadas por empresas e associações. Para suprir o resto do déficit habitacional, os moradores serão inscritos em programas habitacionais, como a Cohab/SC (Companhia de Habitação do Estado de Santa Catarina) e o Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Não há um prazo para a entrega das casas.

Vivendo em 16 m²
Espalhadas por um galpão de 2.000 m², cada uma das famílias tenta ter privacidade dentro de um módulo de 16 m². Ali eles juntam a família, os pertences que sobraram da enchente e o que conseguiram acumular de doações. O espaço é o mesmo para quem tem um, dois ou mais filhos. Cozinhar, lavar roupa ou tomar banho são atividades feitas em locais coletivos. Uma pia, um fogão, um tanque, uma ducha e uma privada são divididos, geralmente, entre duas famílias. Em cada um destes lugares há plaquinhas com o nome de um representante da família.

Há avisos nas paredes: "não fazer barulho depois das 22h; não jogar lixo; não jogar papel na privada". Mas a convivência é difícil. "Viver aqui é um pouco bom, um pouco ruim. Tem muito barulho, se é 22h eles não respeitam, é difícil para dormir", conta Elizeana. "O ruim aqui é a convivência. Eu nunca convivi com um monte de pessoas. Tu convive com vários tipos de personalidade, é difícil. O pior é a sujeira, uns limpam outros não", relata Terezinha. Jocelma está preocupada com os filhos. "Eu tenho quatro filhos e a gente é acostumado a viver em casa. Aqui tem um monte de criança, cada um tem a sua educação, é difícil".

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Durante a visita que fez ao lado da reportagem do UOL Notícias , Giana Wagner, diretora-geral da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, foi requisitada diversas vezes pelos desabrigados. Eles reclamavam do barulho, da falta de algum material, de problemas relacionados a desabrigados que abusavam da bebida alcoólica. "Eles desenvolveram uma dependência em relação a nós. Há muitos problemas porque é um espaço comum", afirma Giana.

O governo municipal gasta cerca de R$ 11 mil por mês para manter o local, e um funcionário da prefeitura "gerencia" o abrigo. Atualmente uma estagiária em psicologia visita o abrigo duas vezes por semana para conversar com as famílias.
  • Flávio Florido/UOL

    Em meio aos destroços do que sobrou de sua casa, Newton mostra uma poltrona nova cujas prestações ele ainda não tinha terminado de pagar


Desalojados
Quem optou por deixar o abrigo público pôde se cadastrar no auxílio-reação do Estado. Em Gaspar, 412 moradores recebem o beneficio. O dinheiro é distribuído em seis parcelas de R$ 415 e, para quem começou a recebê-lo em dezembro, está previsto para terminar no final de maio. Segundo a Secretaria Executiva Estadual da Justiça e Cidadania, o pagamento do beneficio não será prorrogado. O secretário da pasta, Justiniano de Almeida Pedroso, afirma que a "questão é financeira". "Inicialmente seriam 4.000 famílias, mas hoje temos 7.000", afirma. "O intuito era fazer naquele momento, para dar um fôlego, para tocar a vida de novo."

Newton Carlos Almeida, 51, funcionário público, recebe o auxílio e estava morando de favor na casa do cunhado. "Fechei o contrato de aluguel. O que vou ganhar [do governo] agora não sei", afirma. Newton perdeu a casa que tinha acabado de ser reformada por R$ 28 mil. Só sua residência estava avaliada em R$ 260 mil. Junto com elas, outras cinco casas do local - todas de parentes seus - ficaram destruídas. "O pessoal só se salvou porque o deslizamento aconteceu à tarde", diz. Cada parente se alojou em um lugar diferente e a família, que convivia diariamente, não se encontra mais.

Da casa do cunhado, Newton consegue enxergar o que restou de sua casa. Do alto do entulho é possível identificar algumas peças de roupa, parte dos armários da cozinha, os restos da geladeira e da máquina de lavar e alguns galhos de uma árvore de Natal. "Era um sonho e tudo se acabou. Tenho que ir embora daqui", afirma, desolado.





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