Ainda sem casa, moradores de Ilhota (SC) deixarão de receber auxílio do Estado
Gabriela Sylos Enviada especial do UOL Notícias Em Ilhota (SC)
Incrustado na pequena cidade de Ilhota (112 km de Florianópolis), o complexo do Baú foi uma das áreas mais castigadas pelas enchentes do final de 2008. A cadeia de morros ficou completamente isolada após as chuvas, e parte da população só conseguiu sair de lá com a ajuda de helicópteros.
Seis meses depois, os moradores que tiveram que deixar suas casas - seja porque elas ficaram destruídas ou porque estão em área de risco - estão buscando alternativas para sobreviver. Leoni Reinert, 41, tinha um rancho onde criava frangos. Perdeu 180 aves com as enchentes. Sua casa não foi derrubada, mas uma enorme fenda no morro da frente fez a Defesa Civil considerar aquela uma área de risco. "Eu voltaria, mas minha mulher não quer. Ela tem medo", conta.
Desde que a moradia de Inguilore Fauro desabou com um deslizamento, sua família mora com parentes no salão da igreja da comunidade
Após perder sua criação de frangos, Leoni Reinert aluga uma casa com o dinheiro do auxílio-reação pago pelo Estado
Leoni agora vive de bicos e sua esposa trabalha como faxineira na prefeitura. Após passar três meses abrigados em uma escola pública, ele, a mulher e o filho alugaram uma casa no centro da cidade com o dinheiro do auxílio-reação pago pelo Estado. Segundo a Secretaria Executiva da Justiça e Cidadania, cerca de R$ 18 milhões provenientes de doações estão sendo distribuídos em seis parcelas de R$ 415 aos moradores de oito cidades cadastradas. Mas, como Leoni começou a receber as parcelas em dezembro, esse beneficio vai terminar no final de maio. Segundo a secretaria, o auxílio não será prorrogado. "Não sei como vai ser agora", afirma Leoni.
O secretário de Justiça e Cidadania, Justiniano de Almeida Pedroso, afirma que a "questão é financeira". "Inicialmente seriam 4.000 famílias, mas hoje temos 7.000 cadastradas", afirma. "O intuito era fazer naquele momento, para dar um fôlego, para tocar a vida de novo", argumenta o secretário.
A costureira Inguilore Fauro, 46, entretanto, não conseguiu ainda começar vida nova. Ela, o marido e os dois filhos sobrevivem com o auxílio-reação e com o dinheiro que o marido consegue na roça. Desde que sua moradia desabou com um deslizamento, a família mora com parentes no salão da igreja da comunidade. "Perdi tudo, menos a minha família, graças a Deus", afirma.
Antes das enchentes, Inguilore trabalhava como costureira, mas, com a cooperativa local fechada, ficou sem encomendas. Cesta básica não tem mais chegado até ali. "Não sei o que aconteceu, apenas cortaram", reclama. "Não está fácil, às vezes a gente tem vontade de sumir, se isolar em um canto, se enfiar em um buraco", desabafa.
Inguilore está aguardando a chegada de material de construção para começar a construir uma nova casa, longe da que foi destruída. "Eu não acredito mais em ninguém, é só promessa. O prefeito prometeu que em seis meses a gente estaria na nossa casa, e nada ainda".
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Seis meses após ter sido atingido pelas cheias em Santa Catarina, o que mudou na sua vida?
"O trato com o dinheiro público é difícil, tem a burocracia, o problema existe", afirma Almir César Paul, secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente e responsável pela construção de novas casas. Hoje, a maior parte da região do Baú é considerada área de risco pela Defesa Civil e 130 casas já foram interditadas. A Prefeitura de Ilhota calcula que cerca de 600 pessoas ainda estejam desalojadas no município. O secretário explica que os atingidos pelas chuvas podem optar por receber uma casa de madeira de R$ 15 mil ou receber a mesma quantia em material de construção.
A cidade recebeu R$ 783 mil do Estado para a compra de terrenos - um deles já foi comprado e outro ainda está em negociação. Segundo o secretário, o déficit habitacional é de 220 residências, sendo que 157 foram integralmente doadas e serão construídas em até um ano. Já o material de construção deve ser encaminhado em até 60 dias, de acordo com informações da secretaria.