UOL Notícias Cotidiano
 

28/05/2009 - 07h20

Desabrigados em Blumenau (SC) convivem com barulho e falta de segurança em galpões da prefeitura

Gabriela Sylos
Enviada especial do UOL Notícias
Em Blumenau (SC)
Distante do centro de Blumenau, um galpão industrial na rua Bahia se destaca dos demais. Ali vivem juntas cerca de 110 pessoas, ainda desabrigadas seis meses depois das enchentes que mataram 24 pessoas e fizeram Blumenau (139 km de Florianópolis) decretar situação de calamidade pública. Este é um dos seis abrigos que restam na cidade - ao todo são cerca de 1.420 pessoas vivendo em locais improvisados pela prefeitura, chamados de moradias provisórias.

Na rua Bahia, o galpão está dividido em 38 módulos de madeira com área de 25 a 37 m². Dentro de cada um, uma família determina se quer um, dois ou três quartos, e como vai distribuir ali os pertences que foram salvos da enchente. Fora deste espaço, é preciso chegar a um acordo.

Como as divisórias são finas e não há tetos, o vizinho que ouve rádio alto, por exemplo, atrapalha o outro que quer dormir. "É muito barulho de manhã. Eu trabalho das 13h30 às 22h, é cinco da manhã e já tem barulho. Ninguém respeita ninguém, e eu acho que poderia melhorar. Já esteve melhor, mas agora está piorando", conta Ivan Pires, 23, talhador. "Tem gente que dorme mais tarde, tem gente que dorme mais cedo, tem gente que gosta de ouvir música... esse é o maior problema", diz Pedro Paula da Silva, 45, que também é talhador.
  • Flávio Florido/UOL

    Crianças correm pelos corredores do abrigo localizado na rua Bahia

  • Flávio Florido/UOL

    Os moradores têm que dividir as máquinas de lavar que existem na área coletiva do abrigo

  • Flávio Florido/UOL

    Ivan Pires reclama do barulho que começa logo cedo no galpão


Há espaços coletivos, como os corredores, os banheiros, a cozinha e a área de serviço. Para tomar banho, são seis chuveiros para os homens e outros seis para as mulheres. Junto com os vasos sanitários, eles ficam do lado de fora do galpão, em espécies de contêineres que lembram banheiros químicos. A falta de limpeza é constante. "Aqui são precárias a lavação, a cozinha. Até deram uma melhorada, mas estava difícil usar as pias onde a gente lava a louça", afirma Landi Machado, 42, costureira. Seis mulheres são pagas pelos próprios moradores para fazer faxina todo dia, mas isso não impede que o corredor, por exemplo, fique cheio de restos de papel.

"A moradia provisória é um espaço coletivo onde cada um tem seu próprio espaço, mas que todas as famílias são responsáveis por este espaço. A secretaria é o síndico e não o zelador", afirma o secretário municipal de Assistência Social, Mário Hildebrandt. "O grande desafio hoje nas moradias provisórias é a própria falta de consciência de alguns moradores."

Drogas e abusos sexuais
Os desabrigados moram nestes galpões desde o começo de março. Eles já passaram por escolas e outros prédios públicos, mas tiveram de ser removidos principalmente para liberar as salas de aula para o começo do ano letivo.

Quem quer visitar algum desabrigado tem de se identificar na entrada, fazer um cadastro e especificar que módulo vai visitar. "Isso porque já tivemos alguns casos de tráfico de drogas aqui", afirma Rosenea Felício, coordenadora do abrigo. Já a embriaguez de alguns moradores é recorrente. "O ambiente é difícil para deixar as crianças", conta Landi, que tem dois filhos: uma de 14 anos e outro de 9. Uma desabrigada afirma que até estupro já foi registrado em abrigos de Blumenau, sem especificar em qual deles.

"As situações que estão sendo encontradas nas moradias provisórias não são diferentes das que encontramos lá onde as famílias estavam morando. O pedófilo continua pedófilo, o estuprador continua estuprador, o traficante continua traficante, o usuário de drogas continua usuário de drogas, o usuário de álcool continua fazendo uso do álcool", compara Mário Hildebrandt. O secretário afirma que o governo atuou nos casos constatados. "Nós já encaminhamos uma série de pessoas para tratamento de álcool, nós já identificamos a questão da pedofilia, não houve nenhum estupro até agora, mas houve sim um atentado violento ao pudor e esta pessoa foi presa", diz.

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Entretanto, atualmente não há policiamento nos galpões. Quem toma conta do local são apenas educadores e assistentes sociais.

Déficit habitacional
A Prefeitura de Blumenau calcula que exista um déficit de 5.000 moradias no município, já que, além dos desabrigados, ainda existem os desalojados, ou seja, pessoas atingidas pelas chuvas que estão morando na casa de parentes ou amigos, por exemplo.

"Nosso projeto é fazer o atendimento de todas as famílias levando em consideração os critérios sociais (...) e de renda para definir as famílias que terão acesso em primeiro lugar ao programa habitacional", explica Mário Hildebrandt. A perspectiva é de que 1.000 residências sejam entregues este ano, "desde que os problemas burocráticos não venham a atrasar mais o que já atrasaram", afirma o secretário.

Os moradores do abrigo, porém, se dizem desinformados sobre o prazo para deixarem os galpões. "Esse é o problema. Eles não sabem quando nossas casas vão ficar prontas. Eles não falam nada", diz Ivan Pires. Pedro Paulo da Silva também não recebeu nenhuma data definitiva: "eles falaram, no começo, que ia demorar de 8 meses a 1 ano, mas agora estão sem previsão". Já a empregada doméstica Juraci Venceslau, 39, está conformada. "Sou obrigada a esperar, né?"





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