Mãe de Isabella chora e relata ciúmes da madrasta; júri será retomado nesta terça
Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias*
Em São Paulo
Atualizada às 23h50
No único depoimento de testemunha realizado nesta segunda-feira (22) durante o júri popular do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, a mãe de Isabella Nardoni, Ana Carolina Oliveira, chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus e relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com sua ex-mulher.
Manifestações e vaias ao redor de fórum
Advogado quer acareação entre mãe de Isabella e casal Nardoni; para acusação, pedido é "desumano"
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Envolvidos no caso Isabella estão entre os mais citados por brasileiros no microblog Twitter
O depoimento, que começou por volta das 19h30 e terminou às 21h50, foi tomado pelo juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana, no julgamento que irá decidir nos próximos dias se pai e madrasta de Isabella -- que morreu ao cair do 6º andar do Edifício London, zona norte de São Paulo em 2008-- são culpados ou inocentes pela morte da menina.
O júri foi interrompido após o depoimento de Oliveira e deve ser retomado nesta terça-feira (23), a partir das 9h, com outras testemunhas de acusação. Testemunhas e jurados passam a noite no fórum e os réus são encaminhados a unidades prisionais da capital paulista.
Segundo Ana Oliveira, haveria uma disputa de Jatobá pela atenção de Alexandre em relação à menina Isabella. Ana Oliveira evitou citar o nome da madrasta, se referindo a ela apenas como "Jatobá" na maior parte das vezes.
"A mãe dele contava para a minha mãe que ela tinha ciúme da Isabella, que ela disputava a atenção dele com ela."
Oliveira também disse que chegou a manter contato com a madrasta pela internet e que ela sempre perguntava como havia sido o relacionamento deles. "Parecia que estava querendo investigar alguma coisa", afirmou.
Ainda de acordo com Oliveira, na presença de Jatobá, Alexandre Nardoni tinha um comportamento diferente. "Quando ela não ia com ele [Alexandre] buscar a Isabella, o comportamento era completamente diferente". Ana Carolina disse também que Alexandre ligava para Isabella apenas durante a semana. "Ela [Isabella] não funcionava em horário comercial."
Tudo sobre o julgamento
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta de Isabella, são acusados de homicídio doloso
Durante o relato, Alexandre Nardoni se curvava em atenção ao que Ana Oliveira dizia, acenando com a cabeça quando concordava. Já Anna Jatobá se manteve recostada à cadeira, escondendo-se atrás de uma pilastra. Ela carregava lenços de papéis de colo e dava sinais de um choro contido.
Em seguida, a mãe de Isabella foi questionada sobre o dia do crime. Disse que Alexandre atribuiu a morte da filha a um ladrão que havia invadido o apartamento.
Pouco depois, questionada sobre qual seria o maior sonho de sua filha, afirmou: "Aprender a ler". "Eu soletrava para ela escrever uma cartinha quando ela me pedia. Aí, ela dizia que, quando aprendesse a ler, ela iria escrever uma cartinha para mim", disse Ana Oliveira, que interrompeu essa parte do depoimento para chorar. "A única coisa que ela sabia escrever era o nome dela", completou, aos soluços.
Nesse momento, Alexandre Nardoni também começou a chorar, e Ana Oliveira continuou o depoimento dizendo que o ex-marido sempre aceitou sua gravidez e que nunca recebeu nenhuma reclamação dele por parte de Isabella. O mesmo disse em relação a Anna Jatobá.
Oliveira é considerada a testemunha-chave da acusação no julgamento. Ela chegou de carro e entrou por uma entrada lateral do fórum, acompanhada pelo pai, José Arcanjo de Oliveira, e pela advogada, Cristina Christo Leite, que também é assistente de acusação no caso.
Os jurados
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são julgados pela morte da menina por quatro mulheres e três homens, que foram escolhidos nesta tarde para compor o Conselho de Sentença. Desses sete jurados, cinco nunca participaram de um júri. Por isso, por volta das 18h, os cinco novatos receberam esclarecimentos sobre como funciona um júri popular por parte do juiz Maurício Fossen.
Houve uma recusa de um jurado por parte da defesa e outra por parte da acusação, ambas de mulheres.
Antes do sorteio dos jurados, a defesa do casal fez requerimentos para adiar o júri e realizar diligências. Todos foram negados pelo juiz Maurício Fossen, que preside o julgamento.
Nardoni e Jatobá entraram juntos hoje na sala do tribunal que irá julgá-los. Esta foi a primeira vez que eles se encontram desde que foram interrogados, em maio de 2008.
No julgamento, Jatobá vestia uma blusa rosa e calçava um sapato baixo. Nardoni estva com uma camiseta branca, com uma faixa azul, e calçava um tênis. Ambos vestiam calça jeans. A Justiça não permite a presença de fotógrafos nem de cinegrafistas no local do julgamento.
Os dois negam as acusações e se dizem inocentes. A estimativa do tribunal é de que o julgamento dure até cinco dias.
Plateia reveza senhas para assistir ao júri dos Nardoni
Os curiosos que chegaram ao Fórum de Santana para assistir ao júri estão dividindo suas senhas. Uma das interessadas, estudante de direito, e que não quis se identificar, aguardava sua vez de entrar no plenário. "Estou dividindo essa senha com cinco pessoas", contou ao UOL Notícias.
Entenda o julgamento
O promotor do caso, Francisco Cembranelli, defende que Isabella foi jogada pela janela do 6º andar do Edifício London pelo pai. Antes, teria sido esganada pela madrasta e agredida por ambos. Já a defesa do casal insiste na tese de que havia uma terceira pessoa no prédio.
O advogado Ricardo Martins, que defende o casal junto com o advogado Roberto Podval, disse hoje não ter dúvidas da absolvição de seus clientes. “Eles serão absolvidos com certeza. Não há nenhuma prova que ligue o casal a este crime. Não há nenhuma perícia crucial, como o próprio promotor admitiu há poucos dias do júri. Além disso, há inúmeros falhas nesse processo", afirmou.
Para Martins, a cobertura da imprensa sobre o caso pode influenciar na decisão do júri. “Eu estou certo de que se os jurados estiverem dispostos a ouvir as provas eles vão absolver. Agora, se vierem pensando só no que a imprensa tem dito ao longo desse tempo todo, aí até eu teria um monte de dúvidas”. Questionado se há hipótese de o casal confessar o crime, o advogado disse que é impossível. “O casal não irá confessar algo que não fez."
Veja a seguir o plenário onde ocorrerá o júri e quem é quem no infográfico:
Entenda como funciona o Tribunal do Júri
Ao final dos depoimentos de todas as testemunhas, dos debates, das apresentações da defesa e a acusação, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, Maurício Fossen irá dosar a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres.
Saiba mais sobre os procedimentos adotados para o julgamento
| Júri deve durar até 5ª feira, mas o juiz que preside o julgamento reservou plenário por mais dias |
| Os jurados ficam confinados até o final do julgamento no fórum, onde há dormitórios e refeitórios |
| Estão envolvidos no julgamento 23 funcionários do cartório do júri, 12 agentes de fiscalização, dois médicos, uma enfermeira, três estenotipistas (que transcrevem as falas), 16 oficiais de justiça, três funcionários da administração, quatro da copa e cinco assessores de imprensa |
| Ao final de todos os depoimentos, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. De posse do veredicto, Maurício Fossen irá dosar a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres |
Veja o rol de testemunhas que devem depor no julgamento dos Nardoni
| Ana Carolina Cunha de Oliveira - mãe de Isabella | ![]() |
| Renata Helena Da Silva Pontes - delegada do 9ª DP (Carandiru) à época do crime | ![]() |
| Rosangela Monteiro - perita do Instituto de Criminalística | ![]() |
| Paulo Sergio Tieppo Alves - médico do IML (Instituto Médico Legal) | ![]() |
| Rosa Maria da Cunha de Oliveira - avó materna de Isabella | ![]() |
| Rogerio Neres de Souza - advogado do caso no início | ![]() |
| Gabriel Santos Neto - pedreiro de obra vizinha do prédio dos Nardoni | ![]() |
| Geralda Afonso Fernandes - vizinha do casal | ![]() |
| Carlos Penteado Cuoco - médico do IML | ![]() |
| Laercio de Oliveira Cesar - médico do IML | ![]() |
| Marcia Iracema Boschi Casagrande - perita | ![]() |
| Sergio Vieira Ferreira - perito | ![]() |
| Monica Miranda Catarino - perita | ![]() |
| Calixto Calil Filho - Delegado titular do 9º DP à época do crime | ![]() |
| Luiz Alberto Spinola de Castro - chefe de investigadores do 9º DP à época | ![]() |
| Jair Stirbulov - investigador do 9º DP | ![]() |
| Walmir Teodoro Mendes - investigador do 9º DP à época | ![]() |
| Theklis Caldo Katifedenios - investigador do 9º DP à época | ![]() |
| Claudio Colomino Mercado - agente policial | ![]() |
| Adriana Mendes da Costa Porusselli - escrivã do 9º DP | ![]() |
| Paulo Vasan Gei - escrivão do 9º DP | ![]() |
| Rogério Pagnan - jornalista | ![]() |
| Duas testemunhas sigilosas | X |
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