Legista mostra fotos do corpo de Isabella e choca familiares no júri do casal Nardoni

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 21h48

O encerramento do depoimento do legista Paulo Sergio Tieppo Alves no júri popular que decide se Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá mataram a menina Isabella Nardoni, 5, causou comoção entre os presentes na tarde desta terça-feira (23). Alves assina o laudo que concluiu qual foi a causa da morte de Isabella, que morreu em março de 2008 após a queda do 6º andar do edifício London, na zona norte de São Paulo.

Como é de praxe, o profissional comprovou suas alegações mostrando fotos do corpo que examinou. Nesse caso, no entanto, as cenas foram consideradas muito fortes por exibirem uma criança dilacerada e até com o tórax aberto durante os exames legais.

O rosto da menina podia ser observado com nitidez, no telão dentro da sala. A avó da garota chorou ao ver as imagens, enquanto o avô mostrava sinais claros de desconforto.

Terminadas suas explicações, o legista deu lugar ao perito baiano Luiz Eduardo Dórea, tido até então como um elemento surpresa da acusação. Sua participação foi rápida: começou a falar às 18h20 e parou às 18h55.

Autor de livros como o “Manchas de Sangue como Indício em Local de Crime”, ele foi chamado para afirmar perante o tribunal que, pelas evidências, as marcas de sangue no apartamento do casal indicam que as gotas chegaram ao chão enquanto a vítima estaria em movimento, a mais ou menos 1,25 metros de altura.

Com essa análise, além de tentar provar que Isabella estava no colo de Alexandre sangrando, a acusação pretendia desqualificar um laudo extra feito pela defesa com a perita Delma Gama. Em seu documento, a perita não faz tal tipo de observação, omissão considerada como “distorção” por Dórea.

A defesa, no entanto, pediu a palavra e anunciou que laudo que estava sendo colocado em dúvida não foi usado e está totalmente descartado. Nessa hora, o elemento surpresa perdeu sua força – e por isso mesmo seu depoimento foi tão curto, encerrando o dia de trabalhos nesta terça-feira. Os trabalhos serão retomados amanhã.

A testemunha que seria ouvida ainda hoje só deve depor nesta quarta-feira: Rosangela Monteiro, perita do Instituto de Criminalística.

Além da polêmica exibição das fotos de Isabella, a fala do médico-legista Paulo Sergio Tieppo Alves indica que a morte da menina ocorreu pela associação de um conjunto de traumas. “Há sinais específicos da esganadura. Outros que atestam a queda do sexto andar. E ainda outros traumas”, afirmou.

O legista especifica que determinadas lesões mostram que Isabella sofreu uma queda momentos antes de desabar do edifício London. “Dentro do conjunto da perícia, os laudos mostram que alguém a jogou contra o chão.”

O promotor do caso, Francisco Cembranelli, defende que Isabella foi jogada pela janela do 6º andar do edifício London pelo pai. Antes, teria sido esganada pela madrasta e agredida por ambos - teria sido atirada inconsciente. Já a defesa do casal insiste na tese de que havia uma terceira pessoa no prédio. Os dois negam as acusações e se dizem inocentes.


Mais depoimentos
Antes do legista, apenas uma pessoa foi ouvida nesta terça-feira: a delegada Renata Pontes, que era do 9ª DP (Carandiru) à época do crime e comandou as investigações. Ela afirmou aos jurados que não há hipótese de que uma terceira pessoa tenha atuado no homicídio de Isabella Nardoni.

A delegada, que afirmou ter "100% de certeza" de que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá cometeram o crime sozinhos, disse que mais de 30 policiais vasculharam o local e não encontraram vestígios de outra pessoa. Segundo a delegada, com base em depoimentos de vizinhos, eles ouviram gritos de uma criança chamando pelo pai. "Para, pai!". Em seguida, alguns deles relataram ter ouvido um som abafado, que poderia ser de uma criança caindo.

O advogado de defesa, que tentou desqualificar o depoimento da delegada, a questionou sobre laudos e sobre o sangue encontrado no apartamento. Para Podval, não há provas concretas que liguem o casal aos ferimentos de Isabella. O advogado também perguntou à testemunha, também arrolada pelo promotor do caso, Francisco Cembranelli, se ela tinha conhecimento de histórico de violência do casal, sem ser por depoimentos de terceiros. "O que sei é que há relatos de que Jatobá já arremessou um dos filhos por ciúme, e que Alexandre repreendeu o próprio filho jogando-o no chão", afirmou Pontes, com base no que disseram a mãe de Alexandre e a mãe de Ana Carolina Oliveira, avó de Isabella.

Durante questionamento do promotor do caso, Francisco Cembranelli, a delegada também defendeu que nunca houve qualquer abuso por parte de policiais envolvidos na investigação e disse que nunca pré-julgou o casal, em resposta a Podval sobre porque passaram um dia inteiro na delegacia naquele dia. "Fizemos exames porque é o procedimento, até para não haver acusação infundada. O crime é muito complexo. Eles foram ouvidos informalmente muitas vezes", afirmou.

Cembranelli usou uma maquete especialmente feita para júri, que reproduz o apartamento no edifício London, onde o crime aconteceu. A maquete reproduz marcas de sangue encontradas no apartamento, que a delegada confirmou ter encontrado: na entrada do apartamento e no quarto dos filhos do casal. Posteriormente, por meio do luminol, mais sangue foi encontrado, segundo ela.


Entenda o julgamento
Hoje é o segundo dia do julgamento. Ontem, o casal Nardoni se viu pela primeira vez desde maio de 2008, quando foram interrogados. No único depoimento de testemunha realizado ontem, a mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus, relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com a ex-mulher.

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são julgados por quatro mulheres e três homens, que foram escolhidos ontem para compor o Conselho de Sentença. Desses sete jurados, cinco nunca participaram de um júri e, por isso, receberam esclarecimentos sobre como funciona um júri popular por parte do juiz Maurício Fossen.

Antes do sorteio dos jurados, a defesa do casal fez requerimentos para adiar o júri e realizar diligências. Todos foram negados pelo juiz.

A estimativa do tribunal é de que o julgamento dure até cinco dias. Ao final dos depoimentos de todas as testemunhas, dos debates, das apresentações da defesa e a acusação, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, Maurício Fossen irá dosar a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres.

titulo-box Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos