Mais da metade dos municípios brasileiros sofre com enchentes, diz IBGE

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

  • Reprodução/IBGE

    Os municípios coloridos em tons de verde tiveram problemas com enchentes e inundações entre 2003 e 2006

    Os municípios coloridos em tons de verde tiveram problemas com enchentes e inundações entre 2003 e 2006

Entre 2003 e 2008, mais da metade dos municípios brasileiros sofreu alagamentos ou inundações por conta da ação das chuvas. É o que revela a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada nesta sexta-feira (20) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Dos 5.265 municípios do país que possuem algum tipo de controle sobre as águas das chuvas --desde sarjetas até galerias subterrâneas--, 2.696, ou 51,3%, declararam ter sofrido alagamentos ou inundações no período analisado.

Para fazer a pesquisa, o IBGE entrevistou prefeituras, companhias estaduais e municipais de saneamento básico, fundações, consórcios intermunicipais, empresas privadas da saneamento e associações comunitárias.

Entre os municípios observados, 27,4% declararam ter um ou mais pontos de "estrangulamento", ou seja, locais em que as tubulações não são suficientes para escoar as águas de chuva, que podem ter causado ou agravado as enchentes.

O principal fator que influenciou os alagamentos foram a obstrução de bueiros (percebida em 45,1% dos municípios), ocupação intensa e desordenada do solo (43,1%), obras e projetos inadequados (31,7% e 30,7%, respectivamente), lançamento inadequado de lixo (30,7%), interferência física no sistema de drenagem (18,6%), lençol freático alto (15,8%), entre outros.

Maioria dos brasileiros ainda não tem acesso à rede de esgoto, diz IBGE

A maior parte dos domicílios brasileiros não tinha, em 2008, acesso à rede geral de esgoto e, nesse quesito, havia uma enorme discrepância entre as regiões brasileiras. Segundo o IBGE, 56% dos domicílios brasileiros não possuíam, em 2008, ligação com a rede de esgoto. Em 2008, o percentual de domicílios sem rede de esgoto era maior na região Norte, onde 96,2% das unidades não eram atendidas. Nas regiões Nordeste e Sul, a proporção também era inferior à média brasileira, com 77,6% e 68,8% de domicílios, respectivamente, sem acesso. Apenas na região Sudeste a minoria das unidades não possuía rede de esgoto (31,2%).

De acordo com a pesquisa, um dos fatores que pode ter influenciado nos alagamentos foi a falta de manutenção: 47,8% dos municípios não realizaram serviços de limpeza e desobstrução de galerias em suas redes de drenagem entre 2003 e 2008, percentual que sobe para 65,8% na região Sudeste e cai para 34,5% na região Norte.

Outro fator que pode ter aumentado e agravado as enchentes foi a combinação da queda no percentual de municípios com sistemas de drenagem subterrâneos --formados galerias, tubulações, bocas de lobo, entre outros --com o aumento na porcentagem de cidades com ruas pavimentadas.

"Enquanto a pavimentação de vias urbanas é um elemento que possibilita melhoria da circulação interna nas cidades, a impermeabilização generalizada dos solos pode representar um catalisador para a ocorrência de eventos de erosão, assoreamentos, alagamentos, inundações e proliferação de vetores de problemas de saúde pública", diz o relatório.

Segundo o IBGE, o número de municípios com alguma via pavimentada aumentou 20,6% no Brasil (82,4% na região Norte) entre 2000 e 2008, ao passo que o percentual de cidades com sistema de drenagem subterrânea caiu de 85,2% para 76,4%. Em contrapartida, entre 2000 e 2008 subiu de 80,4% para 94% o percentual de municípios com drenagem superficial --sistema que utiliza guias, sarjetas, calhas, entre outros, para interceptar as águas provenientes das chuvas.

O levantamento do IBGE indica também que apenas 12,7% dos municípios dispunham de equipamentos para reduzir as enchentes, tais como barragens, piscinões, lagoas, entre outros. Nesse quesito, a região mais desprovida era a Nordeste, onde pouco mais de 5% das cidades possuíam esse tipo de equipamento, e a mais bem estruturada era a Centro-Oeste, com 26% dos municípios equipados.

Nos últimos dois anos, fortes inundações atingiram municípios da região Nordeste. Em junho deste ano, mais de 50 pessoas morreram em Alagoas e Pernambuco por conta das cheias dos rios que cortam o agreste e a zona da mata dos dos Estados. Ao todo, 28 municípios foram atingidos e mais de 80 mil pessoas tiveram que deixar suas casas --entre desalojados e desabrigados.

Em 2009, as cheias atingiram, entre abril e maio, municípios do Maranhão, Piauí e Ceará. Várias cidades, como Trizidela do Vale, Bacabal e Pedreiras (todas no Maranhão), ficaram inundadas por semanas.

Deslizamentos e desmoronamentos
Além das inundações e enchentes, 27,3% dos municípios pesquisados alegaram ter tido algum tipo de erosão por conta da influência das ações da chuva. Por erosão, compreende-se os deslizamentos e desmoronamentos de terra, além dos processos de desintegração dos leitos dos rios por conta da ação humana.

Com "lixões" proibidos, Brasil terá que dar outro destino para metade do lixo do país

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou no último dia 2 a lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que, entre outras medidas, determina que Estados e municípios acabem com os tradicionais "lixões". Agora, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta sexta-feira (20), o poder público terá que encontrar outro destino para metade de todo o lixo produzido no país.

O tipo de erosão mais recorrente, entre 2003 e 2008, foram os deslizamentos de terra (63,1%), seguido da desintegração de leitos (47,3%), desmoronamento de rochas ou de grandes blocos de terra (32,7%) e a voçoroca --buracos e fendas em solos arenosos (22,5%).

As regiões Sudeste e Sul foram as mais atingidas por deslizamentos e desmoronamentos, em razão do relevo, formado por serras e escarpas. O agravante nas duas regiões é a ocupação humana nas áreas de encostas, suscetíveis à ação das chuvas, sobretudo nas áreas urbanas.

Por conta desses fatores, foram nessas regiões que ocorreram os maiores desastres nos últimos anos relacionados à fenômenos naturais, como na tragédia de maio desse ano no Rio de Janeiro, quando mais de 200 pessoas morreram na capital e em Niterói (RJ), onde ocorreu um deslizamento de grandes proporções no Morro do Bumba.

Em janeiro, as chuvas provocaram grandes deslizamentos em Angra dos Reis, que mataram mais de 100 vítimas, e destruíram a cidade de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo. Na tragédia de Santa Catarina, em novembro de 2008, a maioria dos mais de 130 mortos foi vítima de deslizamentos e desmoronamentos de encostas.

Áreas de risco
A pesquisa do IBGE apontou ainda que a maior parte dos municípios brasileiros possui uma ou mais áreas de risco, ou seja, pontos sujeitos a deslizamentos (42% dos municípios), inundações e processos erosivos (19,7%), além de locais sem qualquer infraestrutura de drenagem (62,6%).

Segundo os resultados do estudo, os três Estados que apresentaram as maiores proporções de municípios com áreas de risco que demandam infraestrutura especial de drenagem urbana foram Espírito Santo (81,6% dos municípios), Rio de Janeiro (70,3%) e Acre (59,1%). No outro extremo, com os menores percentuais, estão em Goiás (21,1%), Piauí (19,7%) e Tocantins (10,2%).

Últimas de Notícias

Ver mais notícias
 

Shopping UOL