Referência desde 2007, contador de homicídios de PE é desativado por falta de recursos

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Alagoas

  • Divulgação

    Integrantes do site desenham corpo com tinta vermelha para marcar local de crime

    Integrantes do site desenham corpo com tinta vermelha para marcar local de crime

Depois de três anos e quatro meses contando os homicídios Estado de Pernambuco, o site PE Bodycount fez no domingo (5) a última atualização das mortes violentas no Estado. Durante esse período, foram contabilizadas em um banco de dados 14 mil mortes, todas com a "ficha completa": nome, idade, naturalidade e descrição do crime, além de publicadas reportagens sobre violência.

Idealizado por quatro jornalistas de Recife, o projeto chegou ao fim por falta de apoio financeiro. Em nota assinada pelos editores Carlos Eduardo Santos, Eduardo Machado, João Valadares e Rodrigo Carvalho nesta quarta-feira (8), eles informaram a desativação do "contador de homicídios" por conta do fim do repasse do último patrocinador que restara, a Associação do Ministério Público de Pernambuco.

No último sábado (4), os responsáveis pelo projeto receberam o comunicado do fim da ajuda financeira e tomaram uma decisão dolorosa na curta --mas consagrada-- história do projeto. “Naquele dia fizemos uma reunião e decidimos que não tínhamos como seguir adiante. Bancar do bolso era impossível”, ressaltou o jornalista João Valadares.

Segundo ele, o projeto custava, por mês, em torno de R$ 3.000. Apesar do pouco valor, a rotina de trabalho era árdua e incluía uma pesquisa abrangente, com ligações diárias para dezenas de delegacias e hospitais do Estado. “Só chegamos a esse número real de mortos com a apuração jornalística. Mas conseguimos com esse projeto que houvesse uma maior transparência na questão da divulgação das mortes no Estado. Depois do nosso contador, o governo passou a divulgar na Internet os homicídios”, afirmou.

Para o jornalista, um dos maiores orgulho dos integrantes do projeto é ter dado um ponto de partida a uma discussão ampla sobre o tema segurança pública em Pernambuco. “Éramos o Estado mais violento do Brasil, mas em 2007 discutir o assunto era um tabu. Então, provocamos debates e trouxemos especialistas. E isso teve um efeito. O projeto não era restrito a contar mortes. Nós pintamos os locais dos homicídios, com tinta vermelha, para marcar que uma pessoa foi morta e não podia ser esquecida”, ressaltou.

Coincidência ou não, nesses pouco mais de três anos de existência do site, o Estado de Pernambuco conseguiu reduzir o índice de criminalidade. Segundo dados do governo, foram registrados 1.865 assassinatos no primeiro semestre de 2010, uma redução de 13% em relação ao mesmo período de 2009. “Os índices ainda são alarmantes, mas são 19 meses seguidos de redução de homicídios, e nós nos sentimos um pouco responsáveis por isso também. Criamos um ambiente de discussão que contribuiu, mas precisamos avançar", disse Valadares.

Durante a duração do projeto, um contador real chegou a ser montado em uma das principais avenidas do Recife, e permaneceu por um ano. “Tivemos que desativar por falta de recursos também. Ele era bancado por uma universidade, que retirou o patrocínio e não tivemos com continuar”, disse, informando que o custo da máquina era de R$ 14.000 ao ano.

Repercussão pelo mundo
O contador de homicídios se tornou um sucesso na Internet. Desde seu lançamento até esta quarta-feira, o projeto contou com vários parceiros, que apoiaram financeiramente e voluntariamente, mas aos poucos foram abandonando a ideia. “Quando começamos, tivemos muitos parceiros. O projeto cresceu mais do que imaginávamos, tivemos repercussão em pelo menos 40 jornais internacionais, como The New York Times, Le Monde. Hoje, temos o maior banco de dados de homicídios do mundo de uma organização não governamental”, explicou Valadares.

Ao contrário do que muita gente imagina, o site não era restrito à contagem de homicídios e trouxe, em um blog, várias reportagens e artigos sobre o tema violência. A iniciativa rendeu dois prêmios jornalísticos nacionais relevantes: o Vladmir Herzog 2007 (na categoria Internet) e o Tim Lopes de investigação 2008.

Sobre o futuro do projeto, Valadares não descarta uma volta, embora não possa dar certeza do retorno. “Demos um tempo, precisamos ver o que acontece. Nesses três anos e quatro meses não deixamos de atualizar o número de mortos um dia sequer. E já estamos três dias sem atualização”, finalizou.

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