Policiais trocam tiros com bandidos em São Cristóvão; quase 100 veículos foram queimados desde domingo

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Policiais trocaram tiros com criminosos hoje pela manhã numa perseguição que começou no bairro de São Cristóvão (zona norte do Rio de Janeiro) e terminou na zona portuária, no Santo Cristo. De três suspeitos, um foi preso, um foi baleado e morreu, e outro fugiu. No carro usado pelos criminosos, a polícia encontrou garrafas pet com combustível. Segundo a Polícia Militar, eles tentaram incendiar um ônibus em São Cristóvão.

Balanço apresentado pela PM nesta manhã aponta que, desde domingo, dia do início dos ataques em série dos criminosos, 96 veículos foram incendiados, entre eles, vários ônibus. Nos seis dias de conflito entre policiais e traficantes até hoje, a PM diz que foram apreendidas 44 armas, 8 granadas, 192 pessoas foram presas ou detidas, 3 policiais foram feridos e 25 pessoas foram mortas. O número de mortos, porém, pode ser maior, pois os números divulgados entre os diferentes órgãos do governo divergem (já se falou em mais de 30 mortos).

O Rio de Janeiro vive uma guerra contra o tráfico. Hoje, policiais e integrantes das Forças Armadas continuam a ocupação da favelas dominadas pelo tráfico. Policiais civis, militares e federais foram alvos de disparos de traficantes na tentativa de entrar no Complexo do Alemão. As operações em morros e favelas visam acabar com a série de ataques, arrastões e incêndios em veículos. 

Falar em cena de guerra não é exagero: veículos blindados da Marinha estão sendo usados nas operações. Ontem à noite, o Ministério da Defesa liberou 800 homens para reforçar os trabalhos de combate ao tráfico no Rio. Mesmo assim, os bandidos desafiam as autoridades e continuam impondo tentativas de ataques.

A quinta-feira foi um dia repleto de cenas desse combate. À noite, os criminosos não deram trégua. Três veículos foram queimados na noite de quinta (25) entre 20h e 21h: um ônibus na avenida Presidente Vargas (centro), um carro no bairro Cosme Velho (zona sul) e uma van na zona sul (o bairro não foi confirmado). Também havia informações de veículos incendiados em São Cristóvão (zona norte), na autoestrada Grajaú-Jacarepaguá (zona norte), em Copacabana (zona sul), além de incêndios em Duque de Caxias (Baixada Fluminense) e Cabo Frio (região dos Lagos). Só ontem, 31 veículos foram incendiados.

Durante a semana, motoristas foram vítimas de arrastões, foram roubados e tiveram seus veículos incendiados. Virou rotina a interceptação de ônibus por grupos armados que obrigavam os passageiros a descer e ateavam fogo aos veículos.

O cenário de guerra tomou conta da cidade no início da manhã de quinta, numa operação em que soldados do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) puseram em prática uma operação para a ocupação da Vila Cruzeiro, que integra o complexo de favelas da Penha. Seria o local onde, de acordo com a polícia, estaria o comando da onda de ataques organizados pelos criminosos.

Na manhã de quinta, um longo comboio da polícia com sete veículos blindados e carros de assalto da Marinha se deslocava para a Vila Cruzeiro. Ao lado da igreja da Penha, as tropas do Bope se concentraram e recebiam as últimas instruções antes de iniciar a ocupação da Vila Cruzeiro. Simultaneamente, veículos eram incendiados em pontos diferentes da cidade. Um grupo de 200 policiais civis participou de uma ação no Jacarezinho que terminou com nove homens mortos (traficantes, segundo a polícia).

Os traficantes da Vila Cruzeiro, local que, segundo a polícia, servia de refúgio para vários "refugiados" de regiões antes dominadas pelo tráfico e hoje ocupadas por UPPs (Unidades da Polícia Pacificadora, hoje presentes em 13 comunidades do Rio), reagiram à chegada do "inimigo", como encaram a polícia. Fizeram barricadas com pneus queimando e incendiaram carros para tentar bloquear a passagem do comboio do Bope.

A tropa de elite do Bope ocupou a Vila Cruzeiro, provocando uma fuga em massa de dezenas de criminosos, muitos deles fortemente armados, por uma estrada de terra. Câmeras de TVs captaram a "debandada" em imagens aéreas. Uma caminhonete passou lotada e deu carona a outros traficantes que corriam pelo caminho. Houve tiroteio. Alguns foram atingidos. Os que conseguiram escapar da Vila Cruzeiro foram para o Complexo do Alemão, área vizinha, onde a polícia promete fazer buscas nesta sexta. No arsenal da segurança pública, voltará a operar o helicóptero blindado da polícia, que estava em manutenção.

Enquanto ocorriam a ocupação e a fuga em massa dos criminosos, moradores da favela acenavam com lenços brancos pelas janelas, em sinal de pedido de paz.

A polícia estima que aproximadamente 200 criminosos armados fugiram para o Complexo do Alemão, vizinho à comunidade. A fuga foi feita por uma estrada de terra que corta o Morro do Caricó, que é desabitado e separa as duas comunidades. 

O apoio logístico da Marinha foi cedido pelo governo federal na ação do governo do Rio para tentar acabar com o "poder paralelo" do tráfico, que domina há anos várias áreas do Rio de Janeiro.

A polícia suspeita que presos ligados ao crime organizado também ajudam a comandar as ações dos bandidos. Onze presos foram transferidos nesta quinta do Rio para um presídio de segurança máxima em Rondônia.

Após os confrontos, o subchefe operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, afirmou ao jornalistas que a favela estava tomada. “Posso dizer com 100% de certeza que a Vila Cruzeiro é do Estado”, afirmou. Cerca de 250 policiais participaram da ocupação, que não tem data para ser encerrada, segundo as autoridades.

Em entrevista coletiva no final da tarde de ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, afirmou que o objetivo central das ações da polícia no Estado é o de retirar território do tráfico.

"Essas ações estão sendo feitas com o objetivo de garantir a continuidade do que está sendo feito. Foi tirado dessas pessoas o que nunca foi tirado, o território. Seu porto seguro. Eles faziam suas barbaridades e corriam para seu reduto, protegidos por armas de guerra. É importante prender, mas é mais importante tirar o território”, disse Beltrame. “Se não tirar o território, não se avança.”

Veja os locais onde veículos foram incendiados no Rio de Janeiro*

Total de mortos: 25 Locais em que veículos foram incendiados
  • Fonte: Relatório divulgado pela PMERJ 

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