Cemitério de Nova Friburgo (RJ) tem congestionamento de caixões; "Eu me salvei da morte, mas não da amargura", diz familiar

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Nova Friburgo (RJ)

As centenas de mortos nos deslizamentos de Nova Friburgo (RJ) estão sendo enterradas no único cemitério que não ficou ilhado na cidade serrana do Rio de Janeiro.

Os sobreviventes carregam os caixões e formam um congestionamento nas ladeiras do cemitério São João Batista.

Os feridos enterram os mortos. O açougueiro Alcides Correia da Silva, com cortes na cabeça e nas costas, chora. “Já enterrei irmã, irmão e um sobrinho. E ainda tem duas crianças da família que não foram encontradas. Eu mesmo me salvei por um fio. Fiquei soterrado até o peito. Eu me salvei da morte, mas não dá amargura”, desabafa ao lado da mulher, com olho roxo e a perna cortada.

Nova Friburgo enterra seus mortos em comboios de caixões

Marco Oliveira chora a morte da mãe em meio à balbúrdia dos operários. “Vai, vai. O 61, o 62, o 63 estão subindo”, grita um funcionário. “Pode arrumar o caixão aí mesmo”, aconselha um voluntário. Marco abraça forte a namorada e grita.

Comovido, Ernestino da Silva, o Tininho, larga os tijolos que levava e consola o vizinho. “Tem que ser firme, meu irmão.” Depois da pausa, Tininho continua seu trabalho. “Está faltando cimento aqui”, instrui um colega. “Deixa um gole de água para molhar a boca”, dispara para o outro.

Ernestino é funcionário da prefeitura e cuida diariamente do calçamento. Nestes dias, foi deslocado para o cemitério. Com seis tijolos baianos, ele empareda os caixões dentro das gavetas sepulcrais. A decoração é o marrom do tijolo e o cinza do cimento –-nada de mármore, cruz, data de nascimento, nem foto. Só o número para identificar.

Cristiano Marinho é o responsável por pintar com tinta preta a sequência de números nos nichos. Ele estava no número 156 no começo da tarde. Outro funcionário, com uma prancheta na mão, vai fazendo cruzes nos números que já foram sepultados e conferindo para não haver troca.

Nas gavetas desocupadas, os coveiros guardam mochilas, garrafas d’água e bolachas. Messias Araújo faz uma boquinha entre um carrinho e outro de cimento. “Isso eu já previa. Sonhei que meu encarregado ia morrer, e ele está agora aqui. É esse: o número 73”, diz apontando uma gaveta cimentada.

Perto dele, Anilson da Silva chora a morte de sua mulher, Lourdes. “Foi embora toda minha vida: minha mulher, meu fusca e minha casa. Só ficou essa roupa do corpo.”

Em meio a tanta dor concentrada, o coveiro Edson Campos da Silva parece animado, fazendo turno para dar conta de tantas vítimas. “Pode vir que a gente enterra. Vumbora, rapaz. Vamos meter bronca”, afirma, acrescentando frases de ordem para animar os colegas.

Cidades com registro de mortes por conta da chuva

 

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