"Acabou. Vai virar bairro fantasma", diz desalojada de Campo Grande, em Teresópolis

Daniel Milazzo
Enviado especial do UOL Notícias
Em Teresópolis (RJ)

“Esse bairro acabou. Não tem como reconstruir nada. Vai virar um bairro fantasma”, lamenta Leonilda das Graças Silva, 51, moradora de Teresópolis. Sua casa está no alto da região de Campo Grande, completamente devastada pela chuva. “Quando o lugar é pequeno, é pior. Todo mundo se conhece, como se fosse uma grande família”, diz ela, enquanto tenta conter o choro.

Seu marido, Aílton Ferreira da Silva, 59, caiu em lágrimas quando lembrou do contato que tinha com as crianças do bairro. “De criancinha a barba branca, todos me chamam de seu Aílton. Elas me perguntavam se podia brincar na rua. Seu Aílton, seu Aílton...”, foi o que ele conseguiu dizer antes de esconder o rosto na camisa e enxugar a dor.

O casal acredita que o número de corpos retirados da região não representa a metade das vítimas. Para eles, a existência de sobreviventes “é um milagre”. No dia de chuva mais pesada, na madrugada de terça para quarta-feira (12), o casal não estava na cidade. Leonilda conta que às 2h da manhã recebeu um telefonema de sua vizinha, perguntando se podia ir para a sua casa. “Foi eles correrem para lá e a casa dela sumiu”, relata.

Aílton está passando as noites no ginásio Pedro Jahara, conhecido como “Pedrão”, transformado em abrigo para desabrigados e desalojados. Sua mulher está dormindo na casa de parentes. Resignados, eles já sabem que não poderão continuar no bairro.

‘Tsunami’, ‘guerra’, ‘Haiti’, ‘ataque nuclear’. Cada um procura expressar de alguma forma o estado em que ficou a região. É impossível distinguir o que era rua do que era córrego, o que é lama do que era verde. São tantas pedras do tamanho de veículos, troncos de árvore, pedaços de móveis, eletrodomésticos e carros destruídos, que se torna difícil imaginar como era a localidade antes da catástrofe.

“Não vale nem mais a pena reconstruir isso daqui”, comenta o estudante Alessandro Aguiar, 22. Ainda há moradores deixando a região com sacolas e malas nas costas. Um grupo de 50 desabrigados da localidade de Arrieiro, incluindo bebês de colo e idosos, teve de caminhar por mais de 3h para alcançar um local onde veículos conseguem chegar.

Homens do Exército e do Corpo de Bombeiros deslocados para Teresópolis ainda estão na região à procura de cadáveres e removendo feridos. “É humanamente impossível encontrar gente viva. É só você olhar o cenário para entender”, afirma o major bombeiro Ribeiro Lopes. 

“Quem tentasse salvar ia junto”

O jardineiro Cláudio Calixto, 51, se diz privilegiado por ninguém de sua família ter falecido devido à enxurrada. No entanto, perdeu casa, carro, moto, pertences e documentos. Ele e sua mulher se salvaram porque no início da tempestade Cláudio observou caules de bananeiras deslocados e o nível da água que subia rapidamente. “Tem gente que morreu porque achou que dava para ficar”, diz.

Antônio da Conceição, 69, foi ao Campo Grande para recuperar alguns bens de seu irmão, morador do bairro e que conseguiu se salvar. Segundo ele, metade da casa foi embora com a chuva e a outra metade está cheia de lama. “A gente não esquece”, afirma Antônio, crente de que a chuva da madrugada de quarta (12) é um sinal do final dos tempos. “A Bíblia é muito clara”, diz.

Um dos únicos moradores que permanece na região é Marcelo Martins Soares, 38. Sua casa continua de pé porque não estava na rota do maior fluxo de água vinda do alto do morro. “Escutei só um tiro, que foi o barulho de um muro caindo. Depois, eram várias pessoas gritando socorro, mas quem fosse tentar salvar também ia ser levado junto”, afirmou.

Pontos de controle contra saques

Marcelo, cujo ofício é cortar árvores, ressalta ainda outro problema: os saques. Ele conta que na tarde desta sexta (14) encontrou três pessoas desconhecidas dentro de sua residência. “Eles disseram que eram policiais, mas não tinham uniforme nem distintivo. Achei muito estranho. Depois foram embora e não apareceram mais”, relata.

O capitão Otemar Bianchini, da Força Nacional de Segurança, diz ter recebido denúncias de roubos a residências vazias. Ele explica que para coibir a ação criminosa será feito um levantamento junto aos moradores sobre quem circula na área e haverá postos de controle na região, em regime de 24 horas. “O mais importante é que a comunidade forneça informação”, disse ele, que tem 30 homens para o policiamento. 

Visitante inesperado

Ilhada em sua casa, no bairro da Posse, Marília Ebert Martins, 53, convive com um visitante inesperado desde a forte chuva. Um cavalo foi arrastado pela força da água e ficou preso no portão de sua casa. Segundo Marília, o animal está muito debilitado: tem a pata quebrada, grandes feridas abertas e costelas à mostra. “Está pingando pus”, diz ela.

Como sofre de um edema linfático e não pode se cortar, Marília está impedida de sair de casa. Sem telefone, ela não consegue chamar um veterinário que atenda o animal ou o sacrifique. Seu marido tenta chegar a pé ou de carona até o centro da cidade para conseguir mantimentos.

Dando entrevista aos berros, já que a reportagem não conseguiu estar a menos de 60 metros da casa, Marília se mostra anestesiada com a situação caótica. “Não consigo nem chorar. Não tenho emoção”.

 

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