Gene pode explicar mistério da "cidade dos gêmeos" no Rio Grande do Sul, mostra estudo

Lucas Azevedo
Especial para o UOL Notícias
Em Porto Alegre

  • Ricardo Duarte / Zero Hora / Agência RBS

    Pesquisadores falam a moradores de Cândido Godói sobre a alta incidência de gêmeos no local

    Pesquisadores falam a moradores de Cândido Godói sobre a alta incidência de gêmeos no local

Na manhã desta sexta-feira (25), um grupo de cientistas divulgou o resultado de uma pesquisa que tenta explicar o mistério da alta incidência de gêmeos no município gaúcho de Cândido Godói (413 km de Porto Alegre). A cidade, de colonização alemã e polonesa, foi fundada em 10 de outubro de 1963.

  • Arte/UOL

    A cidade de Cândido Godói, no noroeste do Rio Grande do Sul


O município, de aproximadamente 6,6 mil habitantes, tem o surpreendente índice de 10% de nascimento de gêmeos, contra o 1% registrado no resto do Brasil. O estudo, iniciado há 15 anos e retomado há dois, foi coordenado por Lavínia Schüler-Faccini e Alice Ribeiro, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Úrsula Matte e Patrícia Prolla, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Foram estudadas 42 mães de gêmeos e 101 progenitoras de um único filho por gestação. Ao comparar seus DNAs, os cientistas identificaram o gene p53, relacionado à fertilidade, em formas diferenciadas, o que daria uma maior resistência aos embriões. Este gene está no DNA de 33% das mães de gêmeos e em 15% no das mulheres que não tiveram gêmeos.

O gene p53 pode se apresentar em duas formas: C e G. As progenitoras de gêmeos na cidade possuem o dobro na forma C, o que daria mais sobrevida aos óvulos de gêmeos no útero, mas de uma maneira ainda não descoberta. Porém, a forma como o gene atua ainda é um mistério.

Conforme as estudiosas, a explicação pode estar no que chamaram de “Efeito do Fundador”. No final do século 19, os primeiros colonizadores da região, particularmente na Linha São Pedro (localidade que fica a 4 km do centro de Cândido Godói), já possuíam esse gene modificado. De lá para cá, como foram casando entre si, perpetuaram a característica concentrada em uma pequena região. Esse gene é comum, no entanto, é duas vezes mais frequente na região.

De acordo com o estudo, a modificação do gene pode ainda evitar a interrupção da gestação, diminuindo drasticamente a incidência de abortos naturais.

No entanto, explica Lavínia Schüler-Faccini, nem todas as mães estudadas apresentam esse gene modificado. “Por isso pensamos que também podem haver outros genes ou determinantes na alimentação e na água, o que ainda não conseguimos determinar.”

Teoria desmentida

O estudo, divulgado para a comunidade de Cândido Godói nesta manhã em um salão do município, desmente a teoria, reforçada pelo jornalista argentino Jorge Camarasa no livro “Mengele: O Anjo da Morte na América do Sul”, de que os gêmeos de Cândido Godói seriam frutos de experiência genéticas do médico nazista Joseph Mengele. Fugitivo da Segunda Guerra Mundial, ele andou pela cidade entre os anos 1960, até morrer em São Paulo, em 1979.

Já sobre a água do município –que era apontada com uma das possíveis causas do nascimento de tantos gêmeos– teve sua responsabilidade explicada. Apesar de o estudo apontar que as 42 mães estudadas utilizavam poços artesianos, foi confirmado que a água é pura, sem contaminação de qualquer elemento químico.

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