Clínica odontológica no Rio de Janeiro aposta no público gay
Fabíola Ortiz
Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro
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Divulgação
Detalhe da sala de atendimento aos pacientes de uma clínica voltada ao público gay, em Ipanema
Uma clínica odontológica no Rio de Janeiro decidiu se especializar no atendimento ao público gay. Hoje são mais de 50 pacientes, no bairro de Ipanema, ponto de grande movimento não só de turistas mas também de moradores LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais). A proposta, define o empreendimento, é evitar o preconceito em meio à discussão sobre o combate à intolerância e à violência contra homossexuais.
“Devemos nos adaptar às demandas dos clientes e suas especificidades”, avalia uma das sócias da clínica, Sandra Pacheco, de 49 anos. "O preconceito se manifesta até mesmo na sala de espera do consultório. A odontologia que praticamos é focada no público GLS, mas atendemos todas as pessoas da mesma forma", disse ao UOL Notícias a fluminense Sandra, que abriu o consultório em 2006.
Clínica de odonto aposta no público gay
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Sandra Pacheco, uma das sócias da clínica no Rio
A partir daí, diz ela, percebeu que havia um “grande mundo de casais gays” e que havia um nicho de mercado a explorar: oferecer um atendimento mais personalizado e acolhedor para este segmento que, afirma, carece de serviços especializados --o acompanhante do paciente, por exemplo, pode acompanhar o atendimento. Sandra contou que, durante as consultas, os casais tem a oportunidade de contar a sua vida e, assim, “a gente vai conhecendo melhor a história da pessoa”.
A outra sócia, a terapeuta holística Thaís Lobo, 47, diz que cerca de 70% dos pacientes são homossexuais e que a cada dez clientes que vão lá para conhecer o serviço, nove permanecem. “Toda semana chegam novos, nunca perdemos paciente. A gente viu que no Rio o público LGBT é grande, mas que existe uma insatisfação do atendimento em clínicas odontológicas e em consultórios médicos. Fiz juma pesquisa nos bairros de Copacabana e Ipanema (ambos na zona sul), e as pessoas diziam que estavam sendo discriminadas na sala de consultório quando iam ao médico”, contou.
O público LGBT é “super exigente, aprecia a qualidade do serviço e não se limita a gastar”, salientou a terapeuta. “A gente respeita também quem não gosta de assumir. Temos travestis e drag queens que vão ao consultório e levam amigos e parentes”, relatou.
Thaís nega que dessa forma, se especializando em um atendimento para o segmento, esteja aumentando a segregação. Ela própria diz ter sofrido com discriminação em consultórios após revelar ser homossexual.
Hoje, além de sócias, Sandra e Thaís são companheiras. E no consultório, sexo não é tabu. Além da preocupação com a saúde bucal do paciente, a dentista e a terapeuta também ficam atentas à saúde sexual do companheiro do paciente. Para evitar que ferimentos ou infecções na boca passem para o parceiro através do sexo oral, Sandra e Thaís abordam temas de sexualidade e orientam como não transmitir doenças.
“Temos pacientes que vão com o namorado ao consultório. Dentista nenhum fala de sexo oral, nós falamos”, afirma Thaís.
O comerciante José Américo, de 34, já é um cliente fiel que frequenta o consultório há dois anos. “Pela placa do anúncio vi que era um arco-íris estilizado. Fui conhecer, fiz um orçamento e gostei”, disse Américo, que contou já ter feito a indicação a amigos.
Ele é homossexual e o fato de as sócias também serem aproxima o público, salientou. E quando o assunto é sexo, não há problema: “Elas explicam as questões sobre pequenos sangramentos e higienização, além de doenças que transmitem pela boca. É um trabalho de prevenção para a saúde”.
Américo defende ainda a necessidade de haver mais serviços especializados para gays. “Muitos, por não terem filhos, podem pagar mais pela qualidade do serviço. Vejo com bons olhos ter atendimentos especializados, acho que a tendência é só crescer este tipo de serviço. Em algumas áreas é necessário”, argumentou.
O sonho das duas é ampliar o negócio e criar um espaço aberto ao público que inclua desde salão de beleza, massagem, especialidades médicas, lojas e outros serviços como advocacia e contabilidade. “Eu quero aumentar o negócio, quero fazer um shopping gay, um que seja espaço aberto ao público e a todas as classes”, enfatiza a terapeuta.
O primeiro passo será dado no próximo dia 30, quando de consultório as duas vão passar a atender numa clínica que será inaugurada em Ipanema. E a ideia parece estar pegando, afirma a terapeuta. “Um empresário heterossexual de São Paulo nos conheceu e disse que tem interesse em abrir uma franquia nossa”, disse.
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