"São Paulo tem verdadeiras relíquias vegetais", diz pesquisador de árvores centenárias
Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo
“Era um mosaico de vegetações: havia cerrado, floresta atlântica, várzeas e matas inundadas. O ecossistema era muito rico”. Assim o ambientalista Ricardo Henrique Cardim, 33, define o cenário paulistano há cerca de cem anos. “Até mata de araucária tinha. Nas ruas, era muito comum a venda de pinhão, assim como hoje vendem cachorro-quente”, acrescenta.
Aficionado por plantas desde criança, Cardim decidiu pesquisar a fundo as árvores da capital paulista há três anos. Via no gesto uma forma de conhecer melhor a história da cidade e superar a angústia de ter crescido dentro de um apartamento apertado no bairro de Moema, na zona sul. “São Paulo tem verdadeiras relíquias vegetais”, diz.
Parte do que encontrou publicou no blog “Árvores de São Paulo”, criado em julho de 2008. O material também estará no almanaque do verde paulistano, que Cardim pretende publicar em breve. Ao mesmo tempo em que compila informações sobre as árvores paulistanas, o ambientalista faz um mestrado em botânica na USP (Universidade de São Paulo).
Desde que iniciou a pesquisa, já encontrou cerca de 20 árvores centenárias, a maioria nativa. “Mas 80% da vegetação da cidade é de origem estrangeira. Ao longo das décadas passamos por um processo cultural de achar que ‘a grama do vizinho é mais verde do que a nossa’: trocamos a nossa vegetação nativa pela estrangeira”, lamenta.
Plátanos e figueira das lágrimas
O pesquisador cita como exemplo o republicano Antonio Prado, prefeito de São Paulo entre 1899 e 1911, que espalhou plátanos, árvores muito comuns em Paris, pela cidade. “Na avenida Higienópolis (região central) ainda temos dois plátanos, que estão abandonados”, diz.
VOCÊ MANDA
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Foto da internauta Lina Costa tirada no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro; envie fotos de árvores
Na lista das 20 árvores mais antigas de Cardim há três figueiras: uma está na Casa do Sertanista, no Caxingui (zona oeste), outra no largo da Memória (centro) e a terceira na estrada das Lágrimas, no Sacomã, bem ao lado de Heliópolis, a maior favela da cidade, com mais de 125 mil habitantes.
“Relatos de 1861 de um viajante português contam que os paulistanos iam até a figueira das lágrimas para se despedir de parentes que viajavam para Santos e acabavam chorando. Ali começava a estrada que ia até o porto. Essa árvore nasceu lá por 1790. É, talvez, a mais antiga da cidade. Ela assistiu ao grito da Independência”, afirma o botânico.
Alpargatas de Anchieta
Outra descoberta de Cardim aconteceu quando, por acaso, ele topou com uma “mancha de cerrado” na avenida Escola Politécnica, na zona oeste. “De repente vi ali plantas que tinha visto em uma tese de doutorado. Uma delas é a língua-de-tucano, que o padre José de Anchieta usava para fazer alpargatas. Hoje o lugar virou um parque”, afirma, referindo-se ao Parque Alfred Usteri.
Ao contrário do que se imagina, a Serra da Cantareira, um dos principais redutos verdes da capital, não reúne muitas espécies centenárias. Segundo o pesquisador, a partir de 1850 a serra foi toda desmatada. “Quase tudo virou sítio de café e chá. Essas matas foram saqueadas. A vegetação que cresceu lá não é virgem.”
A destruição da Cantareira repete-se, segundo o ambientalista, no cinturão verde que ocupa os extremos das zonas sul e leste da cidade, áreas atualmente afetadas pelo Rodoanel e pela ocupação irregular.
O pesquisador avalia que falta às “relíquias paulistanas” mais cuidado por parte do poder público, tanto no que se refere à preservação das árvores, quanto no uso delas para fins educativos.“O meio ambiente pode ser uma coisa prazerosa, de descoberta. Não só obrigação do tipo ‘faça isso, preserve aquilo’”, afirma.
“Meio ambiente não é só Amazônia, geleiras, créditos de carbono, essas coisas que estão longe da realidade de quem mora na cidade”, diz Cardim.
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