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Mesmo preso, Fernandinho Beira-Mar movimentou cerca de R$ 62 milhões, diz polícia

Hanrrikson de Andrade

Do UOL Notícias, no Rio de Janeiro

01/12/2011 15h03

O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, apontado pela polícia como chefe da facção criminosa Comando Vermelho (CV), movimentou nos últimos anos aproximadamente R$ 62 milhões obtidos com a venda de drogas nas favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

As investigações fazem parte da Operação Scriptus, deflagrada nesta quinta-feira (1º) pela Polícia Civil fluminense e de outros três Estados (São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul).

Agentes do Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (NUCC-LD) descobriram a partir de 14 retalhos de papel com manuscritos enviados por Fernandinho Beira-Mar que cinco empresas foram utilizadas no processo de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Beira-Mar, preso há mais de dez anos, está atualmente na penitenciária federal de segurança máxima em Mossoró, no Rio Grande do Norte.

As empresas mesclavam os seus lucros com o dinheiro oriundo do crime organizado no sentido de mascarar as movimentações ilegais, segundo as investigações. Eram elas que lavavam dinheiro para a principal facção criminosa do Rio estão distribuídas em várias partes do país, tais como Foz do Iguaçu e Belo Horizonte. A Justiça já autorizou o bloqueio das contas dessas organizações.

Segundo a Polícia Civil, os lucros obtidos com o tráfico de drogas garantiam a compra de mais drogas no mercado negro internacional, principalmente no Paraguai.

O delegado do NUCC-LD, Flávio Porto, explicou que as investigações da Operação Scriptus começaram há cerca de dez meses, e que, desde então, 112 pessoas físicas e 70 pessoas jurídicas foram identificadas no esquema.

Até o momento, dos 20 mandados de prisão expedidos pela Justiça, 16 foram cumpridos (a metade já estava presa). Oito pessoas foram detidas nesta quinta-feira (1º), sendo uma no Rio de Janeiro.

Os códigos em retalhos de papel escritos por Beira-Mar foram apreendidos durante o cerco policial ao Complexo do Alemão, no fim do ano passado. Atuaram como mensageiros indivíduos que visitaram Beira-Mar na cadeia, segundo a chefe de Polícia Civil do Rio, Martha Rocha.

Para comprovar que os manuscritos foram realmente enviados pelo traficante, a polícia realizou exames grafotécnicos a partir de documentos assinados anteriormente pelo criminoso.

"Constatamos que a letra era dele mesmo. A comparação desses documentos é 100% confiável", disse a delegada.

Participam da Operação Scriptus o Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (NUCC–LD), a Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e a Coordenadoria de Inteligência e Informação Policial (CINPOL), além da Polícia Civil dos demais Estados envolvidos.

Cerca de 200 agentes foram mobilizados. Além dos 20 mandados de prisão expedidos pela Justiça, há 24 ordens de busca e apreensão.

O esquema

A partir dos manuscritos enviados por Fernandinho Beira-Mar, a polícia descobriu como funcionava o esquema de obtenção de armas e drogas na região do Complexo do Alemão e como era realizada a lavagem de dinheiro.

Segundo as investigações, cerca de dez toneladas de maconha, das 40 apreendidas durante a ocupação, chegaram ao conjunto de favelas por meio do esquema montado pelo traficante.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), então, em parceria com a Polícia Civil, pediu bloqueio e o sequestro dos saldos das contas bancárias envolvidas no esquema, por onde circulavam mais de R$ 20 milhões.

As pessoas envolvidas no esquema responderão por tráfico de drogas, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

Os investigadores descobriram ainda a existência de uma espécie de "terceiro setor", integrado por pessoas físicas e jurídicas, sediadas em Foz do Iguaçu, Mato Grosso do Sul e Belo Horizonte, que tinham como função dar aparência de legalidade ao dinheiro obtido com o tráfico de drogas.

O dinheiro era depositado em contas por pessoas que se associaram ao grupo criminoso, em sua maioria, moradores da localidade que levavam quantias expressivas às agências bancárias.