Área rural de Itaipava, em Petrópolis (RJ), passa de grande vizinhança a "semideserto"
Janaina Garcia
Do UOL, em Petrópolis (RJ)
“Não dá mais para dar tchauzinho aos vizinhos: fica é um sentimento de tristeza muito grande. Só Deus para ajudar. E trabalhar me distrai”.
O desabafo é de Maria Margarida Vieira, a dona Guida, 65, que mora e trabalha no vale do Cuiabá, área rural localizada no distrito de Itaipava, em Petrópolis (RJ). Foi lá onde 74 pessoas --segundo as estatísticas oficiais-- morreram em decorrência das fortes chuvas de janeiro de 2011. Desse total, oito eram parentes de dona Guida, que hoje cuida de uma idosa e de outros cinco sobreviventes em uma mesma casa.
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Assim como ela, os poucos moradores que sobraram hoje no vale se deparam com marcas da tragédia que tornam praticamente impossível tirar da lembrança as cenas de horror vividas no dia 12 de janeiro do ano passado.
O bairro em que todos pareciam se conhecer, em seu curso de nove a dez quilômetros de extensão, virou um vale cheio de esqueletos de construções à espera de demolição, terrenos vazios nos quais havia até dezenas de casas que acabaram totalmente levadas pelo mar de barro, pontes destruídas e até hoje não refeitas e pedras gigantes que rolaram e seguem à margem da estradinha de terra.
Aos poucos, os haras e as pousadas de luxo que resistiram à tragédia e que eram o carro-chefe da economia local dão sinais de que a vocação do lugar, em algum momento, será retomada.
"Quando chove, ninguém aqui dorme"
Segundo o presidente da associação de moradores do local, o comerciante José Quintella, 47, a maioria dos moradores que sobreviveram vive de aluguel social pago pelo Estado ou pela prefeitura. “O problema é que muitas casas alugadas estão em área de risco e as pessoas não entendem os critérios do Inea (Instituto Estadual do Ambiente) para definir o que é ou não área de risco”, diz, mostrando casas em margens diferentes, mas ambas à beira do rio Cuiabá, classificadas como área de demolição e de não demolição.
Quintella mora em um ponto conhecido como Boca do Sapo, baixada dentro do vale do Cuiabá onde a casa dele é uma das únicas habitadas --não à toa, é o único sobrado. Ao lado e em frente, terrenos vazios guardam, cada um, a história de casas e de vizinhos que se foram.
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“Ao lado da minha casa ainda salvei um casal e o filho por uma corda feita de lençóis, mas até aqui perto tem árvore onde gente se salvou porque ficou presa aos galhos depois de descer 5 km morro abaixo, na lama”, lembra. “O problema é que as autoridades da cidade são omissas, e o Estado é distante para a gente reclamar: se eu quiser ligar para criticar ou pedir informação, tenho que gastar com interurbano, não temos nenhum sistema de alerta para a região e, quando chove, ninguém aqui dorme”, conta.
Quintella e outros moradores ouvidos pela reportagem do UOL foram enfáticos ao afirmar que terra e pedras ainda descem de encostas devastadas e de morros. As poucas obras de contenção em alguns barrancos --algumas desfeitas já com a chuva do Réveillon deste ano-- e a areia tirada do rio e colocada às margens das águas em boa parte assoreadas ajudam a compreender a expressão “enxuga-gelo” que os sobreviventes usam para aquilo que está sendo feito.
"Vi gente gritando na correnteza", diz vigia
“No dia de ano (1º de janeiro de 2012) começou a chover forte, pensei que o rio fosse encher de novo --está todo assoreado. Eu me sinto um sobrevivente, mas tenho muito medo e não sou mais a calma em pessoa que eu era até a tragédia”, conta o vigia Luiz Otávio Vieira Afonso, 57, da guarita localizada sobre o que sobrou de uma ponte --só a cabeceira. A construção, antiga, desabou inteira.
Afonso lembra em detalhes a noite da chuva. “Comecei a ver que enchia o rio, estava sentado, mas não achei que fosse aumentar tanto o volume da água. Até que vi gente que começou a passar na correnteza de lama gritando, e geladeira, e carro... liguei pra minha mulher e disse: ‘o mundo tá acabando’”.
O colchão que virou "Arca de Noé"
Perto dali, em um mercadinho do vale, o casal de comerciantes Deni Maria Teixeira de Carvalho e Lair Carreiro de Carvalho Filho, ambos de 67 anos, tentam reconstruir o que perderam com a chuva. Não tiveram perdas na família --o filho do casal, por sinal, é o jovem que foi salvo pelos galhos de uma árvore perto da casa de Quintella--, mas o mercado em outro ponto foi destruído.
“Você me pergunta a idade, mas eu tenho mesmo é um ano de vida. Fomos salvos por um milagre”, conta Carvalho Filho. A mulher explica: “Em segundos a água que batia na canela veio à altura do peito, e só escapamos porque ficamos de mãos dadas em cima do colchão que flutuou e parou no teto. Ficamos ali das três às seis da manhã, pelo menos. O resultado: hoje moramos todos na mesma casa, porque meu filho perdeu a dele, e minha nora levanta toda noite para ver a altura do rio”. “Nosso colchão foi a Arca de Noé”, compara o marido.
Entre os moradores do vale que recebem o aluguel social, não é difícil achar quem esteja ainda em área onde o risco é no mínimo controverso. Na casa da família Oliveira, por exemplo, a poucos metros do rio, o barro que inundou o local e estragou móveis em janeiro do ano passado deixou rachaduras na estrutura, mas não foi suficiente para que o governo classificasse a área como de exclusão --ou seja, sujeita a interdição.
“Eu tentei alugar fora daqui uma casinha, mas, com esse dinheiro, só achava porão”, diz a aposentada Alice Nascentes de Oliveira, 80. O marido, Antonio de Oliveira, 81, fica alerta quando chove --acorda à noite para monitorar o rio e não dorme mais. Depois da tragédia, a casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro dos idosos virou o refúgio de toda a família: agora, são cinco ocupantes.
Empresário de cerveja desativa fábrica
Já o mestre cervejeiro Rafael Farinha Neto, 72, corintiano da Mooca (zona leste de São Paulo), falou com o UOL instantes antes de retirar os últimos equipamentos da fábrica de cerveja premium pela qual trabalhava no vale do Cuiabá. Com a chuva, conta, o prejuízo estimado em R$ 2 milhões levou garrafas, maquinário e produto pronto para venda.
No ramo de cerveja desde 1957 e em Itaipava desde 2006, ele mostra as marcas da enchente de 2011 e da enchente de 2008, menos devastadora. “Agora chega”, diz. A fábrica, que pertence ao príncipe Francisco de Orleans e Bragança, trineto do imperador Pedro II, foi transferida para as proximidades do centro histórico, no bairro da Mosela.
Que nota Farinha Neto dá às obras de recuperação na região, de um a dez? “Um é muito. Até um mês atrás, nem escavadeira aqui tinha. Não tem mesmo muita diferença do começo para agora, infelizmente”.
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