"Isso não me compete", diz arquiteta que projetou obras em edifício que desabou no Rio

Hanrrikson de Andrade
Do UOL, no Rio

A arquiteta e designer Regina Valmoré, contratada pela TO - Tecnologia Organizacional para projetar a identidade visual que deu origem às obras no terceiro e no nono andares do edifício Liberdade --o mais alto dos três que desmoronaram no centro do Rio de Janeiro-- afirmou ao UOL que ela "nada tem a ver" com o desabamento, ocorrido na quarta-feira passada (25).

"Isso já foi mais do que esclarecido pelo Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro). Eu não tenho nada a comentar porque isso não me compete", disse a arquiteta. A Polícia Civil do Rio investiga se as reformas podem ter relação com o acidente, que deixou ao menos 17 mortos e cinco desaparecidos.

Segundo a assessoria da TO, Valmoré "trabalhou em outras três obras anteriores" realizadas pela empresa no edifício Liberdade. O delegado da 5ª Delegacia de Polícia (Gomes Freire), Alcides Alves Pereira, não confirma se a arquiteta será chamada ou não para depor. A profissional tem sua situação regularizada junto ao Crea-RJ e trabalha em Niterói, na região metropolitana do Rio.

Questionada pela reportagem do UOL sobre a informação de que uma gerente administrativa da TO, identificada como Cristiane do Carmo Azevedo (ela acabou se ferindo durante a tragédia e está hospitalizada), teria realizado alterações no projeto desenvolvido pela arquiteta, Valmoré novamente se limitou a dizer que "isso será esclarecido pelo Crea".

Na última sexta-feira (10), o proprietário da TO, Sérgio Alves, afirmou em entrevista coletiva que a planta do piso foi elaborada por Cristiane. Segundo a assessoria da empresa, porém, o empresário teria "se expressado mal". A gerente administrativa teria feito apenas "pequenas intervenções decorativas" em relação ao projeto original. Cristiane seria uma espécie de interlocutora entre a firma e os operários, isto é, ela era a responsável por coordenar a logística do projeto.

Alves admitiu ainda que iniciou os trabalhos no edifício Liberdade sem um laudo técnico assinado por engenheiro. Segundo ele, o síndico exigiu o documento, porém teria aceitado recebê-lo durante a reforma em razão de um problema particular do engenheiro contratado pela empresa, Paulo Sérgio Cunha Brasil.


"Foi acordado que o laudo seria entregue depois que a obra fosse iniciada", argumentou Sérgio Alves. O dono da TO negou que tenham sido feitas quaisquer modificações na estrutura dos andares.

Segundo o pedreiro Alexandro Ferreira da Silva --resgatado com vida após se esconder no elevador do prédio--, a obra do terceiro andar já estava praticamente concluída. Quanto à reforma do nono andar, que havia começado oito dias antes da tragédia, o operário afirmou em depoimento na 5ª DP que "um bloco de gesso foi retirado do teto", que "tacos foram removidos do chão para instalação de um carpete" e que um banheiro foi "mudado de lugar".

A testemunha afirmou ainda que nenhuma parede foi quebrada, "exceto a do banheiro". Na versão de Alves, três paredes de tijolo foram retiradas do nono andar, das quais "nenhuma seria capaz de interferir na base de sustentação do edifício".

Estrondo

O empresário Vitor Nogueira, dono da empresa de traduções Primacy Solutions, disse em depoimento à polícia na tarde de segunda-feira (30) que, na noite anterior à do desabamento, funcionários seus que participavam de uma reunião no edifício Liberdade ouviram um barulho muito forte vindo do nono andar.

A informação é do advogado do empresário, Edil Murilo. “O Vitor relatou durante o depoimento que uma noite antes do desabamento, por volta de 19h40, oito funcionários da Primacy [no oitavo andar] que participavam de uma reunião ouviram um estrondo vindo do andar de cima e interromperam tudo”, disse o advogado.

De acordo com Murilo, durante o depoimento o empresário entregou ao delegado fotos de como era o oitavo andar, mostrando que todas as lajes eram escoradas por vigas de tipo mão francesa.

Todos os 35 funcionários da empresa de Vitor Nogueira --que funcionava no prédio há sete anos-- já tinham encerrado o expediente e não estavam mais no local.

Investigação

De acordo com o delegado Alcides Alves Pereira, já foram ouvidos o síndico do edifício Liberdade, Paulo Renha, o operário que foi resgatado após buscar proteção no elevador do prédio, Alexandro Ferreira da Silva, e outras 19 testemunhas. Representantes da empresa TO - Tecnologia Organizacional devem prestar depoimento durante a semana, mas ainda não foram intimados.

No domingo (29), Pereira visitou o local do desastre e analisou o trabalho dos bombeiros durante 20 minutos. Após conversar com peritos que o acompanhavam e profissionais envolvidos no processo de resgate, o delegado deixou o local sem falar com a imprensa.

Desde a última semana, a Polícia Civil evita apontar potenciais causas e possíveis culpados pelo desastre, mas admite que o trabalho de perícia técnica será altamente prejudicado em razão das dimensões do acidente. Segundo o secretário estadual de Defesa Civil, coronel Sérgio Simões, "não sobraram partes inteiras, apenas escombros".

Além disso, muitos documentos e outras pistas que poderiam auxiliar na investigação se perderam com a tragédia. Com isso, a ideia dos investigadores é reconstruir o contexto do desabamento a partir de relatos de pessoas que trabalhavam no local e comparar os dados com as versões do síndico e da empresa TO, além de resultados periciais.

Veja o local onde desabaram os prédios no centro do Rio

Últimas de Notícias

Ver mais notícias
 

Shopping UOL