São Paulo já tem seu reduto haitiano e consulado vira "agência de empregos"
Rodrigo Bertolotto
Do UOL, em São Paulo
Até dezembro último, Gislene Silva era mais uma dessas secretárias da avenida Paulista, cuidando da agenda, atendendo contatos e marcando reuniões para seu chefe. Agora ela é um dos elos para os imigrantes haitianos em São Paulo conseguirem entrar na sociedade e economia brasileiras.
Gislene recebe e organiza todas as empresas e as pessoas atrás da mão de obra que está vindo do Caribe via Peru e Acre. "É muita gente ligando. São postos que muitos brasileiros se negam a ocupar. Peço sempre para os empregadores potenciais mandarem um e-mail com todos os detalhes do trabalhador que estão procurando", conta a secretária na sede consular.
Outro elo é Brunel Cadet, um haitiano com seis meses de Brasil que arrumou função dentro do consulado após varios encontros e reivindicações com George Antoine, o cônsul do país mais pobre do continente na cidade mais rica da América Latina.
Há algum tempo, Brunel estava dividido entre aceitar um emprego como ajudante de cadeirante ou a possibilidade de ter um posto no próprio consulado. A segunda posição foi o que aconteceu. Agora ele é a ponte entre os cerca de 1.600 haitianos na cidade e a economia formal do Brasil.
A maioria deles está concentrada nas ruas da Baixada do Glicério, um região degradada do centro paulistano com forte presença de moradores de rua (muitos vivem da reciclagem de lixo) e dos usuários de drogas expulsos da vizinha cracolândia recentemente. Os haitianos estão alojados na Casa do Migrante e em pensões da rua dos Estudantes, formando por lá uma "Little Haiti", como é conhecido o reduto haitiano de Miami (antes do Brasil, os EUA e o Canadá eram o principal destino dos haitianos). Na igreja Nossa Senhora da Paz, localizada na rua do Glicério, já teve até missa em créole (língua local) para os recém-chegados.
"Meus patrícios preferem vir para São Paulo porque aqui o salário é mais alto que no Acre ou no Amazonas. Lá se consegue uma média de R$ 900 por mês. Aqui dá para ganhar o dobro ou mais", conta o rapaz de 32 anos que deixou mulher e dois filhos em Porto Príncipe, a capital caribenha devastada por um terremoto em janeiro de 2010, fato que serviu de estopim para a nova diáspora haitiana.
Ele analisa as ofertas de emprego que aparecem no consulado. Depois, com seu português apenas funcional, faz uma primeira visita ao empregador, e ao final conversa com seus conterrâneos sobre as condições e lista os interessados.
"O pessoal prefere mais construção civil, porque pode aprender um metier, além da estabilidade das grandes obras e o dinheiro das horas-extras. Quanto mais serviço, melhor, assim mandam mais dinheiro para o Haiti", revela Brunel, que está organizando uma associação dos haitianos na cidade.
Dezenas deles estão trabalhando na reforma do Complexo Esportivo Constâncio Vaz Guimarães, no Ibirapuera. A empresa responsável pela obra, a Recoma, afirma que eles são de empresas terceirizadas que atuam na obra. Por outro lado, a Recoma não quer que TVs e e jornais entrevistem os trabalhadores para evitar qualquer tipo de notícia negativa na obra pública, mesmo estando em situação regular no país.
Já para as mulheres (menos de 20% da leva migratória), há muita vaga de empregada doméstica que durma no serviço. Para os casais, há gente querendo caseiros para sítios, além de auxiliares de garçom ou cozinheiro para restaurantes.
Um grupo de 24 haitianos partiu de ônibus fretado para a cidade paranaense de Ibiporã, cidade vizinha a Londrina, para trabalhar em empresas de logística por lá. "É um trabalho braçal de carga e descarga, mas é para a gente melhorar de vida", resume Sadrac Darcelin, que trabalhava como contador em Porto Príncipe até o terremoto de 2010 arrassar a empresa em que trabalhava e, consequentemente, sua carreira.
"Quero aprender bem o português e ter uma profissão boa aqui no Brasil para depois chamar minha família para cá", diz Darcelin na porta do minibus que o levará por mais uma estrada rumo ao sonhado emprego. Um caminho que começou pelo aeroporto de Santo Domingo (na vizinha República Dominicana), passou por Panamá, Equador, Peru, Acre e, finalmente, São Paulo.
"A orientação do governo haitiano é que ajudemos os compatriotas que chegam para que isso sirva de exemplo para quem busca uma vida melhor em nosso país", conta o consul George Antoine, que está no posto em São Paulo há 30 anos. "Nunca imaginei que o consulado fosse virar uma agência de emprego, mas a força das circunstâncias nos levou a isso. Estamos tentando cadastrar todos. A limitação que o governo brasileiro estabeleceu em janeiro está até nos ajudando a conseguir organizar as coisas", completa o diplomata.
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