Delegado fala em violação da cena do crime e diz ter certeza da culpa de PMs em morte de Patrícia Amieiro

Hanrrikson de Andrade
Do UOL, no Rio

O ex-delegado da Divisão Anti-Sequestro da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Marcos Reimão, afirmou à Justiça que a cena do suposto óbito da engenheira Patrícia Amieiro --desaparecida há quatro anos e que teve morte presumida declarada em junho de 2011-- foi "maquiada" pelos policiais militares acusados pelo Ministério Público de homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Todos respondem ao processo em liberdade.

Questionado pela defesa dos réus sobre a investigação, o policial civil afirmou em depoimento na 1ª Vara Criminal na Capital, nesta sexta-feira (13) durante audiência do julgamento, não ter dúvidas quanto à participação dos policiais militares no suposto crime. "Os fragmentos dos projéteis que nós encontramos no carro são compatíveis com as armas dos PMs", argumentou Reimão.

A audiência terminou sem conclusão. A juíza Ludmila Vanessa Lins da Silva ouviu o ex-delegado, os policiais militares Marcos Paulo Nogueira Maranhão, William Luís do Nascimento, Fábio da Silveira Santana e Márcio de Oliveira Santos, todos acusados pela morte da engenheira.

O ex-delegado --que foi responsável pela fase inicial da apuração sobre o desaparecimento de Amieiro, antes que o caso fosse transferido para a Divisão de Homicídios-- classificou como "estranha" a postura dos policiais militares durante a diligência na cena do crime. Segundo ele, cinco carros da PM foram deslocados ao mesmo tempo para o local --fato atípico no contexto da corporação, de acordo com Reimão.

O ex-titular da DAS afirmou que um dos acusados, o sargento William Luís do Nascimento, estava visivelmente nervoso no decorrer dos trabalhos, o que o levou a ser atendido no hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, horas depois que o carro da engenheira caiu no canal de Marapendi.

Interrogado, o policial militar se defendeu ao afirmar que sofre de pressão alta já há algum tempo, e que isso nada teria a ver com o caso.

Reimão citou outros indícios constatados durante a investigação, entre os quais a pedra de cerca de oito quilos atirada pelo cabo Fábio da Silveira Santana para quebrar o vidro da janela do motorista quando o carro ainda estava no canal.

Em sua defesa, o policial militar afirmou à Justiça que a sua intenção era a de "salvar uma vida", já que alguém poderia estar preso ao banco do motorista naquele momento.

"O cinto de segurança estava afivelado, o banco estava reclinado e uma deformação na lataria impedia que o banco pudesse ser recolocado em sua posição original. (...) Pela minha convicção, eu diria que o carro foi empurrado e o corpo foi retirado antes", disse Reimão.

PMs foram promovidos

Os quatro policiais militares acusados pela morte e pela ocultação de cadáver no caso Patrícia Amieiro confirmaram à juíza da 1ª Vara Criminal da Capital, Ludmila Vanessa Lins da Silva, que receberam promoções do comando da Polícia Militar após o desaparecimento de Patrícia Amieiro.

O advogado dos réus, Nélio Andrade, afirmou que as mudanças de patentes não seriam impossibilitadas pela denúncia do Ministério Público, já que, na esfera militar, eles não chegaram a responder a um CD (Conselho Disciplinar), e sim a IPMs (Inquéritos Policiais Militares). Todos foram absolvidos pela corporação.

Wiliam Luís do Nascimento foi promovido a terceiro sargento; Marcos Paulo Nogueira Maranhão, que era cabo na época do suposto crime, hoje é sargento; já Fábio da Silveira Santana, ex-soldado, recebeu a patente de cabo; e Márcio de Oliveira, há 15 anos na corporação, recebeu promoção a sargento.

Justiça dá prazo

O TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) determinou prazo de cinco dias para que a Divisão de Homicídios da Polícia Civil encaminhe a relação de materiais encontrados durante as buscas no sítio Vitória, no Itanhangá, na zona oeste da cidade. O terreno foi apontado após denúncia anônima como suposto local no qual os restos mortais de Patrícia Amieiro teriam sido enterrados.

Os documentos serão avaliados pela juíza Ludmila Vanessa Lins da Silva e anexados ao processo. Em seguida, os autos serão disponibilizados para ciência da defesa dos quatro PMs acusados pelo Ministério Público de homicídio qualificado e ocultação de cadáver: Marcos Paulo Nogueira Maranhão, Fábio da Silveira Santana, Willian Luís do Nascimento e Márcio de Oliveira Santos.

Resguardado o direito à ampla defesa, a magistrada da 1ª Vara Criminal da Capital vai determinar uma data limite para conclusão do trabalho da perícia. O único motivo de esperança da família é um conjunto de algumas peças de roupa encontradas no sítio Vitória. As buscas foram encerradas na manhã desta sexta-feira (13). Segundo as autoridades, toda a área foi vasculhada e, além das roupas, apenas ossadas de animais foram encontradas.

Hoje, antes da nona audiência de instrução e julgamento sobre o caso, o pai da vítima, Celso Franco, afirmou não ter dúvidas sobre o fato de as roupas terem pertencido a Patrícia.

"Sim, a gente tem certeza que as roupas são da Patrícia. Nós não tivemos como tocar nas roupas porque elas estavam engomadas de lama e barro. Mas a cor e a textura são muito parecidas. Observamos a existência de muitas roupas e calçados femininos lá no sítio. Pode ter certeza que há muitos pais chorando sem saber que os filhos estão lá", disse.

Após a divulgação dos laudos periciais, a Promotoria do Ministério Público, o assistente de acusação e o advogado dos policiais militares apresentarão suas alegações finais, e a Justiça enfim definirá se os réus vão ou não a júri popular.

Irmão desabafa

O irmão da vítima cobrou que as buscas continuassem. "A família quer mais investigação no sítio, agora que chegamos tão perto não podemos parar. Faço um  apelo para o governador [do Rio] Sérgio Cabral e para o secretário [de Segurança do Rio] José Mariano Beltrame para que a busca no sítio continue e para que as roupas sejam periciadas o mais rápido possível. O dono do sítio precisa ser preso. Se isso não acontecer, existe a possibilidade de ele voltar lá e eliminar alguma prova. Nós confiamos na Justiça, mas será que eles encerrariam a investigação se fosse o filho do governador ou do prefeito?”, afirmou Adriano Amieiro.

O promotor Felipe Soares Tavares Morais, da 1º Vara Criminal da Capital, afirmou: “Esgotamos tudo o que estava a nosso dispor para tentar encontrar aqui uma prova para o processo da Patrícia Amieiro e nós não logramos êxito. Novas notícias serão apuradas, mas as buscas estão encerradas neste local”.

O dono do sítio foi identificado. Ele se chama Juazieldo Pontes Miguel e está desaparecido desde que a polícia chegou ao local. Ele foi processado por homicídio em 1985, mas foi absolvido.

Segundo a denúncia recebida pelo MP, o sítio seria frequentado por policiais militares que supostamente teriam envolvimento com milícias. A 1ª Vara Criminal da capital expediu mandado de busca e apreensão --a pedido da Promotoria-- para que as buscas pudessem ser realizadas.

Durante os quatro dias de buscas, o sítio foi dividido em três setores. Os bombeiros faziam a primeira varredura com cães farejadores, logo depois trabalhavam as equipes da Secretaria de Conservação. Um aparelho rastreador, chamado de radar de solo, também foi utilizado na operação. Um total de 217 agentes da Polícia Civil, bombeiros e Ministério Público participaram das buscas.

Na manhã desta sexta-feira, os pais de Patrícia voltaram à Divisão de Homicídios (DH) para um novo reconhecimento das roupas encontradas no sítio. O trabalho foi feito com o apoio de psicólogos.

“A roupa é muito parecida com a que a minha filha estava naquele dia. Quando eu vi a blusa e a calça me deu um aperto no coração e na nuca. Quatro anos se passaram, mas parece que foi ontem”, declarou a mãe.

Morte misteriosa

A engenheira foi vista pela última vez no dia 14 de junho de 2008. A jovem, que tinha 24 anos, estava voltando para casa –localizada na Barra da Tijuca– de carro depois de ir a uma festa no morro da Urca, na zona sul da cidade. O automóvel da vítima foi atingido por projéteis de arma de fogo em circunstâncias ainda não esclarecidas, e ela perdeu o controle do veículo. A polícia vasculhou o local atrás do corpo, mas não obteve sucesso nas buscas.

Quatro policiais militares são acusados de homicídio qualificado e ocultação do corpo. Os suspeitos são Marcos Paulo Nogueira Maranhão, Willian Luis do Nascimento, Fábio da Silveira Santana e Márcio de Oliveira Santos, todos lotados no 31º Batalhão de Polícia Militar (Barra da Tijuca). A família tem convicção de que Patrícia foi assassinada.

A 6ª Vara Cível Regional do Rio de Janeiro (Barra da Tijuca) declarou em junho de 2011 a morte presumida da engenheira. 

 

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