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"Está faltando chão", diz Ana Lúcia Niemeyer após morte do avô

Oscar Niemeyer (à esq.) com o então presidente da República, Juscelino Kubitschek, em 1959 - Folha Imagem
Oscar Niemeyer (à esq.) com o então presidente da República, Juscelino Kubitschek, em 1959 Imagem: Folha Imagem

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

06/12/2012 09h20Atualizada em 06/12/2012 14h37

A neta do arquiteto Oscar Niemeyer, Ana Lúcia Niemeyer, disse nesta quinta-feira (6) que, para a família do carioca, "tá faltando chão". Niemeyer teve uma infecção respiratória e morreu na noite de ontem (5), aos 104 anos, no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul da capital. Ele estava internado desde o dia 2 de novembro, vítima de complicações renais e desidratação.

"Eu moro em Brasilia, fiquei indo e vindo [entre Rio e Brasília]. Até a semana passada, tínhamos esperança. Ele estava lúcido. Havia uma previsão, inclusive, de ele ir para o quarto esta semana", comentou ela.

"É claro que ele é um ícone. Mais do que arquitetura, tem o trabalho que ele fez em favor da democracia e da justiça social. Acho isso tão importante quanto a obra arquitetônica."

"A vida dele era trabalho, ele só pensava nisso. A arquitetura é a representação física, mas tem a ideológica também. A Fundação Oscar Niemeyer vai lutar para manter isso vivo", falou Ana Lúcia, referindo-se à ideologia comunista do avô.

O corpo do arquiteto foi embalsamado durante a madrugada de hoje no laboratório da Santa Casa de Misericórdia, no bairro de Inhaúma, na zona norte do Rio. No início da manhã, foi levado em cortejo de volta ao hospital.

No local, foi realizada uma breve missa apenas para familiares, com duração de cerca de 20 minutos. "Sempre que alguém faleceu na família, ele mesmo convocou o padre para fazer missas. A mulher dele é muito católica", afirmou Ana Lúcia.

De acordo com informações do hospital, por volta das 11h o corpo será levado, também em cortejo, para o Aeroporto Santos Dumont, de onde seguirá para Brasília em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), que deve sair ao meio-dia. O velório será no Palácio do Planalto.

A família também fará um velório aberto ao público no Rio de Janeiro, a partir das 8h de sexta-feira (7), no Palácio da Cidade. Haverá uma missa ecumênica às 16h, e o enterro deve ocorrer depois disso, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

O Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), fez hoje um minuto de silêncio em memória do arquiteto. A homenagem, a pedido do governo brasileiro, serviu para lembrar o prêmio Unesco que ele recebeu em 2001, na categoria Cultura. Niemeyer participou da concepção da sede das Nações Unidas em Nova York, matriz da Unesco e projeto de seu mestre, Le Corbusier.

Infecção respiratória

O médico intensivista e clínico Fernando Gjorup, que nos últimos anos foi o médico do arquiteto, disse que Niemeyer morreu às 21h55 ao lado membros da família, entre eles netos e sobrinhos.

"De ontem para hoje, o paciente apresentou uma piora. Os exames de sangue já vinham mostrando isso. Hoje pela manhã, o estado de saúde piorou ainda mais e ele precisou da ajuda de aparelhos para respirar", disse Gjorup.

Muito abalado, o médico declarou que o arquiteto morreu vítima de infecção respiratória.

Gjorup declarou ainda que Niemeyer, neste último mês, onde ficou internado por 33 dias no Hospital Samaritano, nunca falou em morte, sempre falou da vida. "Ele teve que ser entubado e ventilado por aparelho e à noite ele não tolerou e veio a falecer".

Niemeyer foi um dos principais expoentes da arquitetura moderna e projetou o Brasil internacionalmente. O carioca ganhou reconhecimento a partir da exploração das possibilidades plásticas e construtivas do concreto armado, produzindo obras grandiosas e inventivas, marcadas pelo abuso de curvas em detrimento das linhas e ângulos retos.

Suas obras --prédios públicos e privados, monumentos, esculturas e igrejas-- marcam a paisagem das principais cidades brasileiras e espalham-se por vários países do mundo, como Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Argélia, Israel e Cuba, entre outros.

Niemeyer projetou grande parte das obras de Brasília, entre elas a praça dos Três Poderes, os prédios do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto.

Considerado um revolucionário e um dos pais do modernismo na arquitetura, Niemeyer, um comunista ferrenho, seguiu trabalhando até praticamente o fim de seus dias.

Em São Paulo, projetou o Memorial da América Latina, o edifício Copan e as construções do Parque do Ibirapuera; no Rio, concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Marquês de Sapucaí; em Belo Horizonte, projetou todo o Conjunto Arquitetônico da Pampulha.

O arquiteto desenhou também esculturas e mobílias, escreveu livros e, depois do centenário, lançou até um disco de samba. Marxista convicto, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante várias décadas, mudou-se para a França durante a ditadura militar e manteve amizade com Luís Carlos Prestes e Fidel Castro.

Últimos anos

A mulher do arquiteto, Annita, morreu em 2004; dois anos depois, Niemeyer casou-se com Vera Lúcia, que era sua secretária.

Em 2007, ao completar cem anos, Niemeyer recebeu diversas homenagens e foi tema de muitas exposições e eventos. No ano seguinte, fundou no Rio a revista "Nosso Caminho". Dois anos depois, aventurou-se no mundo da música, com o disco de samba de raiz "Tranquilo com a Vida", gravado em parceria com seu enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.

Também em 2008 foi inaugurada uma escultura do brasileiro em homenagem ao povo cubano na Universidade de Ciências Informáticas de Havana, um presente de Niemeyer ao líder Fidel Castro.

Em 25 de março de 2011, foi inaugurado em Avilés, na Espanha, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, mas o espaço foi fechado nove meses depois, por determinação do governador da província. O fechamento irritou Niemeyer e provocou protestos na cidade.

No dia 8 de fevereiro de 2012, em sua última grande aparição em público, o arquiteto acompanhou a inauguração do sambódromo do Rio, que havia passado por reformas de ampliação e adequação da obra ao projeto original. Na ocasião, foi aplaudido por operários da obra e agradeceu: "Estou muito feliz. Essa obra não é só minha, é do grupo que trabalha comigo. Estou muito contente e entusiasmado em ver um trabalho como esse, que foi feito para alegrar o povo."

Niemeyer deixa uma filha netos, bisnetos e trinetos. Sua filha, Anna Maria, morreu em junho, aos 82 anos, por complicações decorrentes de um enfisema pulmonar.