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Conflitos no Alemão, no Rio, mostram que pacificação ainda não chegou ao fim, dizem especialistas

Houve reforço no policiamento nas entradas que desembocam na região da favela - Guilherme Pinto/Agência O Globo
Houve reforço no policiamento nas entradas que desembocam na região da favela Imagem: Guilherme Pinto/Agência O Globo

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

24/05/2013 06h00

O toque de recolher imposto pelo tráfico de drogas que levou comerciantes do Complexo do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, e escolas da região a fecharem suas portas na quinta-feira (23) é sinal de que o processo de pacificação em curso no conjunto de favelas ainda não está completo e que a política de enfrentamento adotada pelo Estado está prestes a atingir o seu limite, segundo especialistas ouvidos pelo UOL

“A pacificação do Alemão ainda está na metade do caminho”, explica o professor Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ele diz que a população da comunidade ainda não confia na polícia e acata as ordens do tráfico por medo de represálias. “O tráfico continua operando no Alemão, como continua operando em outras regiões da cidade. A comunidade está numa situação intermediária”, disse.

Cano acredita que um dos problemas da polícia para manter o controle no Alemão é o tamanho da área, que concentra 15 favelas, e o grande domínio que era exercido pelo tráfico antes da ocupação da polícia.

Além de um aumento de efetivo, ele considera fundamental a mudança da relação entre a polícia e os moradores. “Tenho relatos de situações frequentes de abuso policial, de comerciantes proibidos [por traficantes] de venderem para PMs. Assim, o morador não cria confiança com a polícia, é preciso mudar isso”, diz, ao citar o caso ocorrido no começo de maio, quando comerciantes do Complexo do Alemão receberam ordens do tráfico para não comercializar suas mercadorias com policiais das Unidades de Polícia Pacificadora. 

Para o antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense, Edilson Silva, nunca houve uma proposta de acabar com o tráfico de drogas, mas de retomada de território e diminuição do poder dos traficantes. “O que me parece é que estão tentando fazer uma política de pacificação em locais maiores, em que os conflitos ganham mais visibilidade”, afirmou. 

Silva acredita que apenas a política de enfrentamento não é suficiente. Para ele, as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) precisam ser tratadas como o princípio de uma intervenção maior do Estado, que inclua todas as esferas da comunidade.

“O princípio da pacificação é um princípio interessante, trouxe efeitos positivos. O que não podemos é imaginar que é uma fórmula mágica”, explica. “É um processo mais complexo, estamos vendo os limites da política de pacificação.”

Segundo a CPP (Coordenadoria das Unidades de Polícia Pacificadora),  “a pacificação é um processo contínuo, que leva tempo”. “Infelizmente, o medo dos traficantes ainda existe e eles se utilizam disso para demonstrar uma força que vem sendo perdida desde a chegada da polícia neste território. Os criminosos fazem guerra psicológica, espalhando boatos que se alastram rapidamente, prejudicando o funcionamento do comércio e escolas na região”, informou a coordenadoria em nota.

  • Divulgação/Disque-Denúncia

    Disque-Denúncia do Rio de Janeiro oferece R$ 5.000 por prisão do traficante Luciano Martiniano da Silva, conhecido como Pezão

A CPP suspeita que a ordem de fechamento tenha relação com um boato sobre a morte no Paraguai, ainda não confirmada, de Luciano Martiniano da Silva, o “Pezão”, um dos líderes da facção criminosa Comando Vermelho e chefe do tráfico, durante uma operação conjunta da Polícia Federal com o governo do país na terça-feira (21).

No começo de abril, comerciantes da Mangueira, na zona norte do Rio, e da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, zona oeste, também fecharam as portas devido a uma ordem do tráfico por causa da morte de dois suspeitos em um confronto com a polícia.

Comércio fechado

O comércio no Complexo do Alemão e em algumas localidades do Complexo da Penha amanheceu fechado nesta quinta-feira. A princípio, o fato foi atribuído a ordens do tráfico devido a morte de Anderson Simplício de Mendonça, o "Orelha", 29,  resultado de um confronto entre policiais da UPP que patrulhavam o alto do morro e traficantes na quarta-feira (22) à noite.

Como medida de segurança, as diretoras das escolas estaduais Jornalista Tim Lopes, em Ramos, Gomes Freire de Andrade, na Penha, e Caic Theophilo de Souza Pinto, em Bonsucesso, resolveram, segundo a Secretaria de Educação, suspender as aulas nos três turnos. Uma escola municipal e outras seis creches também tiveram as aulas suspensas, deixando 5.406  alunos sem aula. A UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) funcionou normalmente.

No começo da tarde, dois homens foram detidos e encaminhados à delegacia acusados de ordenar o fechamento do comércio na favela da Nova Brasília. O policiamento no Complexo do Alemão e da Penha foi reforçado por tempo indeterminado.

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  • Arte/UOL

Conflitos pós-UPP

O Complexo do Alemão foi ocupado pela polícia em novembro de 2010 e recebeu a primeira UPP em abril de 2012, tendo passado um longo período ocupado pelo Exército, que deixou o conjunto de favelas gradualmente até julho de 2012. Apesar das quatro UPPs instauradas no local, o Complexo segue sendo uma das comunidades mais conturbadas da cidade.

O primeiro caso foi no dia 23 de julho de 2012, quando a policial Fabiana Aparecida de Souza, 30, foi morta após um ataque de 12 homens armados à sede da UPP na favela de Nova Brasília, uma das comunidades que compõem o Complexo do Alemão.

No dia 20 de outubro, um tiroteio entre criminosos e policiais militares da mesma comunidade deixou uma menina de 12 anos ferida ao ser atingida por estilhaços de tiros. No dia 28 de novembro, mais uma vez o policiamento foi reforçado após intensa troca de tiros entre policiais militares e criminosos, que resultou na morte de um suspeito foi morto.

No dia 3 de maio deste ano, o policiamento foi reforçado na região depois que um tiroteio entre facções rivais assustou os moradores. No dia 25 de abril, outro tiroteio chegou a interromper o transporte no teleférico que atende à comunidade, atingido pelas balas.