Após ser atingida por spray de pimenta no Rio, jovem foi presa por formação de quadrilha

Gustavo Maia
Do UOL, no Rio

  • Victor R. Caivano/AP

    PM espirra spray de pimenta sobre manifestante durante protesto no Rio de Janeiro contra aumento das tarifas de ônibus

    PM espirra spray de pimenta sobre manifestante durante protesto no Rio de Janeiro contra aumento das tarifas de ônibus

A mulher cuja foto ficou famosa por ter spray de pimenta espirrado no rosto por um policial militar na noite da última segunda-feira (17), após a manifestação que reuniu cerca de 100 mil pessoas no centro do Rio de Janeiro, foi autuada em flagrante por formação de quadrilha. De acordo com a Polícia Civil, Liv Nicolsky Lagerblad de Oliveira, de idade não informada, pagou fiança de R$ 2.000 e vai responder ao crime em liberdade. Na 5ª DP, acompanhada de um advogado, ela optou por só falar em juízo.

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No entanto, segundo relato do fotógrafo Victor Caivano, da agência Associated Press, que registrou a imagem, a jovem estava sozinha em uma esquina, por volta das 23h20, quando os confrontos já haviam sido controlados, e dois policiais se aproximaram pedindo que ela fosse embora. Como ela questionou a ordem, recebeu o spray de pimenta no rosto. "O policial não pensou duas vezes", contou o fotógrafo. A jovem foi detida pelos próprios PMs.

Nesta quarta-feira (19), ela publicou um texto no seu perfil do Facebook, no qual acusou a polícia de agressão e disse ter sido presa injustamente. "A polícia me agrediu como agride a todos os manifestantes nesse tipo passeata, como sempre foi feito. Hoje fui ao IML (Instituto Médico Legal) fazer um exame de corpo delito para que eu possa me defender e para que meu processo seja arquivado. Na delegacia, uma espécie de tortura psicológica foi o que me aconteceu. Para sair de lá, assinei papéis que não sei em exato o que foram e agora espero para ver no que vai dar", escreveu. "Espero que isso se torne maior do que qualquer indivíduo, que seja a micropolítica invadindo a macro, agora que, por bem, devo dizer o que penso."

Liv, que segundo seu perfil na rede social é estudante da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), definiu-se como apartidária e independente e disse que é poeta e artista plástica. No texto, ela explicou os motivos que a levaram a participar do protesto.

Policial à paisana usa arma de fogo em protesto no Rio

"Aqui no Rio, o que tem sido feito é uma elitização progressiva da cidade, os moradores das favelas estão deixando de ser pobres e a elite está tomando o lugar, a cidade está mudando o caráter miscigenado que sempre teve e que garantia certa horizontalidade nos espaços comuns. O custo de vida está aumentando e o aumento da passagem é só a gota d'água de tudo isso, o que faltava para coroar um quadro mais que absurdo", analisou.

No texto, Liv ainda falou sobre a própria prisão e convocou mais pessoas a participarem dos próximos protestos. "Protestei pacificamente, mas não passivamente. Sim, como uma performance reativa, injustamente fui presa, e agora meu advogado me aconselha a não estar com os meus, na passeata, onde o efetivo de polícia aumentou muito. Meu rosto estampado nos jornais impede que eu saia ilesa, devido ao histórico psiquiátrico que tenho, possivelmente pararia em um manicômio judicial", escreveu. "Peço a todos que puderem ir, que vão, e combato daqui, com as armas que tiver ao alcance, o que for possível."

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Nesta quarta, o coronel Frederico Caldas, porta-voz da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirmou que houve "excesso" na ação dos policiais que lançaram spray de pimenta no rosto de Liv. "A gente percebe que há um excesso, principalmente por se tratar de uma mulher sozinha e dois policiais. Não justifica absolutamente dois policiais terem esse tipo de comportamento. Agora, a gente tem que analisar o contexto também", disse Caldas, em entrevista ao "RJTV".

"Estado de exceção"

O formando em direito Francisco Motta, 27, que é amigo de Liv, estava na 5ª DP com uma comissão da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil) na noite da segunda. "Os advogados estavam conseguindo liberar as pessoas tranquilamente no início. Tudo estava correndo bem até que a chefe da Polícia Civil, delegada Martha Rocha, chegou e a situação ficou mais tensa. E as pessoas pararam de ser liberadas", descreveu.

Uma delas foi Liv, segundo Motta. "Ela e outras pessoas que estavam em locais diferentes e que não se conheciam, foram indiciadas por formação de quadrilha. A gente ficou muito assustado com a situação. Inspetores de polícia riam, eu chorava, os advogados não sabiam o que fazer", lembrou. "Para indiciar por formação de quadrilha tem que ser um grupo que se reúne para praticar crimes com continuidade. E mesmo que eles tivessem se encontrado para cometer atos juntos na rua não configuraria esse crime."

"O que vi lá foi a perpetuação de um estado de exceção, só prenderam inocentes, só prenderam pessoas que nada fizeram. Após se sentirem acuados pelos manifestantes, a policia resolveu revidar em quem voltava para casa", afirmou o estudante.

OS PROTESTOS EM IMAGENS (Clique na foto para ampliar)

  • Manifestante tenta invadir a sede da Prefeitura de São Paulo, na região central da cidade

  • Carro de TV Record é incendiado em frente à Prefeitura de São Paulo durante protestos

  • Manifestante corre ao lado de estabelecimento comercial em chamas no centro de São Paulo

  • Em Brasília, manifestantes conseguiram invadir a área externa do Congresso Nacional

  • Milhares de manifestantes tomam a avenida Faria Lima, em SP

  • Após protesto calmo em SP, grupo tenta invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo

  • Manifestantes tentam invadir o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio

  • Um carro que estava estacionado em uma rua do centro do Rio foi virado e incendiado

  • Cláudia Romualdo, comandante do policiamento de Belo Horizonte, posa com manifestantes

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