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Vaticano oficializa excomunhão de padre brasileiro que defende união gay

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Wagner Carvalho

Do UOL, em Bauru

15/11/2014 17h14

A Diocese do Divino Espirito Santo de Bauru (338km de São Paulo) emitiu, na manhã deste sábado (15). um comunicado informando que, após um processo que durou mais de um ano, a Santa Sé declarou oficialmente que o padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, está oficialmente excomungado pela Igreja Católica.

A Diocese de Bauru havia recebido o comunicado no dia 14 de outubro.

De acordo com o documento divulgado, para a decisão não cabe recurso. A excomunhão só será revista caso padre Beto peça perdão pelos atos que culminaram com a pena. Ainda no comunicado, a instituição pede que os fiéis não frequentem e nem participem de possíveis “atos de cultos” realizados por ele.

“Todos os matrimônios celebrados (assistidos), após a declaração da pena, pelo mesmo sacerdote, são inválidos pelo próprio Direito”, informa.

Assinado pelo padre doutor Tiago Wenceslau, juiz-instrutor para as “matérias reservadas a Sé Apostólica”, o documento pede ainda que as pessoas rezem por padre Beto.

“Convido todos os cristãos católicos a rezarem para que o Espírito Santo ilumine a todos, sobretudo, ao referido sacerdote para que tenha a coragem da humildade sabendo pedir perdão e se reconciliando com a Igreja que o acolheu e lhe concedeu o sacerdócio ministerial”, diz o aviso oficial. 

Mesmo sendo parte interessada no processo, padre Beto informou que não teve conhecimento prévio da decisão da Santa Sé antes da divulgação para a imprensa. Ele foi informado da decisão pela reportagem do UOL após realizar mais um casamento, na manhã deste sábado em Bauru.

“Este fato é indiferente para mim, já não tinha mais a intenção de voltar para a Igreja, fosse por Roma ou pela Diocese”, afirmou ele.

Padre Beto afirmou que continua a ter a sua fé, mas que agora ela não está ligada a nenhuma denominação. Atualmente padre Beto dá aulas em uma faculdade de Bauru e tem viajado por todo o País para ministrar palestras e para divulgar um livro lançado recentemente. 

Apesar da decisão da Santa Sé, o sacerdote afirma que o processo movido por ele na Justiça brasileira segue em andamento. Ele argumenta que não teve direito à defesa antes da excomunhão e que o juiz instrutor nomeado pela Diocese de Bauru não tinha competência para julgar.

“A decisão da Santa Sé diz respeito ao ato, mas o processo trata do desrespeito da Diocese à Constituição brasileira que não observou o tratado entre o Vaticano e as leis do Brasil”, afirma.

Apesar de não servir mais à Igreja Católica, ele afirma que, por ser conhecido como padre Beto, não pretende abandonar o título. “Tem vários padres que deixam de exercer a função por esse ou aquele motivo, mas não deixam de o usar o ‘padre’. Nada me impede de continuar assim”, explica.

Entenda o caso

O padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, se envolveu numa polêmica com a Igreja Católica após declarações registradas num vídeo publicado no Youtube chegarem ao conhecimento da Diocese de Bauru.

Na gravação, o religioso questiona dogmas da Igreja Católica e fala com aceitação sobre assuntos como bissexualidade e homossexualidade, além de segunda união entre os casais.

Com a repercussão, o bispo Dom Caetano Ferrari, da Diocese de Bauru, exigiu que padre Beto se retratasse, mas ele preferiu pedir seu desligamento da Igreja que mesmo com o pedido feito pelo padre decidiu por excomungá-lo.

Excomungado, mas casamenteiro

Apesar de estar proibido de realizar sacramentos pela Igreja Católica (batizado, comunhão, crisma e casamento) padre Beto, conta ter celebrações agendadas até 2016 e que novas datas surgem a todo o momento.

“Os casais que me procuram para celebrar o casamento, não são ligados a esta ou aquela religião ou instituição religiosa. São pessoas que tem a sua fé, gostam do jeito como falo em nome de Deus e só querem receber a benção na união”, ressalta.

Somente neste sábado (15), padre Beto realizou dois casamentos. Um no final da manhã e outro no final da tarde, ambos em Bauru. “Você não precisa ser padre ou pastor para abençoar a união de um casal, assim como um casamento não precisa ser realizado numa igreja, apenas é necessário que você fale em nome de Deus e que os noivos estejam de acordo”, afirma.

Em sua página pessoal no Facebook, padre Beto anuncia que está disponível para realizar os casamentos.

“Realizo casamentos não só em Bauru, mas na região, na Capital e em outros estados. Tenho agendado o casamento de um casal heterossexual no Espírito Santo. Esta semana um homem divorciado me procurou o para realizar o casamento com sua nova companheira”, revela.

Ao contrário da Igreja Católica que cobra a taxa de matrimônio dos casais pela realização do sacramento, padre Beto afirma que não cobra. “Apenas quando é preciso sair de Bauru é que o casal se responsabiliza pelos gastos necessários para o meu deslocamento”, diz.