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PCC entra em guerra para expandir o tráfico em Santa Catarina, diz promotor

Presídio de São Pedro de Alcântara, berço da facção PGC - Marcelo Bittencourt/Futura Press
Presídio de São Pedro de Alcântara, berço da facção PGC Imagem: Marcelo Bittencourt/Futura Press

Aline Torres

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

11/01/2017 15h57

As mortes nos presídios do Amazonas e Roraima são a consequência da disputa pela expansão do tráfico entre as facções do crime organizado, intensificada pela ruptura de parceria entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), afirma o promotor do Ministério Público de São Paulo Lincoln Gakiya. 

Se o Norte do país é visado pela tríplice fronteira – Peru, Colômbia e Venezuela -, Santa Catarina é cobiçada pelos seus portos, principalmente, o de Itajaí, diz o promotor. Com subornos aos funcionários portuários, seria possível enviar largas remessas de drogas para Europa nos contêineres.

Disputas entre o PCC e a facção catarinense PGC (Primeiro Grupo da Capital), afilhada do Comando Vermelho, teriam deixado um rastro de mortes no Estado ano passado.

No bairro Monte Cristo, a disputa entre as facções foi responsável por 13 assassinatos. No Maciço do Morro da Cruz, no Centro, há cinco comunidades em confronto: Horácio, 25, Mocotó, Queimada e Caieira. No Norte da Ilha, há a Vila União e a Favela do Siri. Em Joinville, houve 130 mortes violentas em 2016. A Secretaria de Segurança Pública não sabe precisar quantas dessas mortes têm relação direta com as facções, mas informa que nos três anos últimos anos, a cidade já atingiu o mesmo número de homicídios que uma década inteira somada, 351.

Promotor há 25 anos, Gakiya trabalha no principal núcleo de monitoramento do PCC, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) de Presidente Prudente (SP). No ano passado, veio diversas vezes a Santa Catarina e mantém constantes trocas de informações com os investigadores do Estado. Para ele, o convite para entrada do PCC em Santa Catarina foram as duas ondas de atentados orquestradas pela facção catarinense PGC.

O PGC foi criado no dia 3 de março de 2003 no Presídio de São Pedro de Alcântara por Nelson Lima, o 70, e seus comparsas. A organização baseou seu estatuto no atual rival PCC, nascido dez anos antes no anexo da Casa de Custódia de Taubaté, o Piranhão.

De acordo com a Diretoria Estadual de Investigação Criminal, o PGC foi organizado para garantir a sobrevivência dos presos diante das opressões do cárcere, mas rapidamente expandiu suas ações para o tráfico. Cresceu à sombra da omissão do Estado. Sua existência só veio a público após 38 dias de ataques a prédios públicos, ônibus e agentes entre novembro de 2012 e março do ano seguinte. Na ocasião, o governador Raimundo Colombo (PSD) assumiu que nenhuma medida efetiva tinha sido implantada para enfraquecer a facção até o momento.

Na época, a organização criminosa tinha em torno de 40 lideranças e 1.400 afiliados, segundo o delegado Rodrigo Green, que atuava na delegacia de Investigação Criminal.

A questão é que a visibilidade desencadeou a repressão. Centenas de integrantes do PGC foram presos e muitas das lideranças isoladas nos presídios federais.

“Com as lideranças presas, os postos de comando das ruas foram assumidos por criminosos mais jovens, mais inexperientes e também mais violentos, digamos, inconsequentes. Eles também disputam internamente o poder e isso enfraquece a facção. Essa desorganização abriu a brecha para o PCC entrar”, disse o promotor.

O PCC, de acordo com o Gaeco paulista, tem em torno de 22 mil integrantes. Aproximadamente, 200 estão em Santa Catarina com objetivo de expandir os negócios. Não há lideranças, são soldados que atuam principalmente em comunidades empobrecidas de Florianópolis,em Joinville, no Norte do Estado, e em Itajaí e Navegantes, na região do Vale.

“A tentativa do PCC para entrar em Santa Catarina é nas ruas, com cooptação de novos membros e combates”, disse o promotor.

A intenção seria comercializar os narcóticos em Florianópolis, onde há grande procura por entorpecentes por ser uma cidade turística, e dominar as zonas portuárias.

“O PCC quer entrar em Santa Catarina por causa dos portos. Tivemos prisões de integrantes em Itajaí. Esse é o canal para mandar drogas para Europa. Basta subornar alguns funcionários para que eles insiram as drogas nos contêineres, já que no Brasil não são todos vistoriados, apenas uma porcentagem”, explicou Gakiya.

Ano passado, no porto de Navegantes (município que fica a menos de 2 km de Itajaí), a Polícia Federal aprendeu quase 4 toneladas de cocaína, um volume considerado recorde do Estado.