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Motorista de aplicativo faz 'Big Brother' com passageiros e conta histórias em blog

Os noivos Sérgio e Mayara foram fotografados durante uma corrida com o motorista Sivonaldo de Souza - Reprodução/Papo de Asfalto - Reprodução/Papo de Asfalto
Os noivos Sérgio e Mayara foram fotografados durante uma corrida com o motorista
Imagem: Reprodução/Papo de Asfalto

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

22/04/2017 04h00

Até poderia ser um reality show, mas não tem prêmio milionário nem pegadinha dentro do carro. Quando fotografa e grava vídeos com os passageiros, a vontade do motorista de aplicativos Sivonaldo Giglio de Souza, 42, é registrar as histórias curiosas que aparecem durante as corridas.

As imagens e depoimentos são depois publicados, com autorização dos participantes, no blog que ele criou para compartilhar o que acontece enquanto roda pela cidade de São Paulo.

“Há muitas histórias que valem a pena serem contadas. Algumas de conhecimento, de entretenimento, pessoas que têm vidas interessantes ou realizam feitos interessantes, e eu pensei: se eu não contar isso, vai morrer, essa história vai cair no esquecimento em algum momento”, ele diz --e dá para conhecer algumas no vídeo acima. “É um desperdício ficar em silêncio.”

Sharon Rosa, médica de Honduras, conta sua história para o motorista de aplicativo durante corrida em São Paulo - Reprodução/Papo de Asfalto - Reprodução/Papo de Asfalto
Sharon Rosa, médica de Honduras, conta sua história para o motorista de aplicativo
Imagem: Reprodução/Papo de Asfalto

Formado em administração de empresas, Souza começou a trabalhar como motorista de aplicativo em julho de 2016. Casado e pai de um menino de 4 anos, ele foi obrigado a desativar suas lojas virtuais de artigos de cama, mesa e banho quando as vendas caíram, afetadas pela crise brasileira, principalmente depois da Copa do Mundo.

No mercado de comércio online há dez anos, ele chegou a pegar empréstimo em banco, mas não houve solução definitiva. Hoje, a maior parte de sua renda vem do transporte de passageiros, onde ele encontrou também um “mundo” de gente interessante.

“Tem passageiro que entra e fica no celular. Pelo horário, se a pessoa está indo para o trabalho, é o que eu chamo de 'passageiro comercial'. Esse, normalmente, não tem muita disponibilidade de conversar. Agora, se a pessoa está mais avulsa ali atrás, olhando para a paisagem, cantarolando, eu percebo que essa tem uma propensão a conversar, e a partir daí é meu gancho. Se a pessoa corresponder, a gente inicia a conversa.”

O famoso que não foi reconhecido

Com uma certa tristeza, Souza conta sobre o encontro com o tenista número 1 do Brasil, o paulista Thomaz Bellucci. A corrida durou 50 minutos e foi encerrada no aeroporto internacional de Guarulhos. Só quando finalizou a sessão no aplicativo e viu o nome do passageiro, o motorista entendeu que tinha acabado de tirar do porta-malas as raquetes que já deram tantos títulos ao atleta.

O tenista brasileiro Thomaz Bellucci, em sua estreia em Wimbledon (Londres, Inglaterra) - Julian Finney/Getty Images - Julian Finney/Getty Images
O tenista brasileiro Thomaz Bellucci, em sua estreia em Wimbledon, Inglaterra
Imagem: Julian Finney/Getty Images

Ainda chegou a perguntar, tentando puxar papo:
-- Que legal, você gosta de jogar tênis, né?
-- É, eu gosto um pouco, né, disse o tenista, sem nada revelar.

“Lembro que eu peguei na mão dele, quando ele se despediu de mim, e ele tinha uma pegada firme. É o único passageiro de quem não preservo a identidade”, afirma, lamentando não ter feito nem mesmo uma foto.

Mas não vai ser perdida. Esta história ainda vai ser transformada em um conto para o blog.

Câmera sempre ligada

O equipamento que grava imagens e entrevistas é bem pequeno, fica instalado abaixo do retrovisor, no vidro dianteiro. Assim que a chave aciona o veículo, a câmera é ligada. Para preservar a privacidade do passageiro, a lente fica sempre para fora, registrando o que acontece pelo caminho. Quando o papo é bom, Souza explica sobre o blog e pede autorização para gravar a conversa.

“Teve uma passageira, em uma corrida compartilhada, que não topou que eu registrasse a história dela. Ela era psicóloga e trabalhava com crianças autistas. Na época, eu ainda não tinha câmera de vídeo no carro, só fazia fotos. Eu perguntei se ela queria participar do meu blog, e ela disse que sim. Mas aí ela preferiu não aparecer em fotos”, afirma, sobre a única pessoa, até hoje, que não aceitou o convite.

“Se há algum fato que comprometa a imagem do passageiro, alguma situação que não tenha relevância para a história, eu não publico.”

É preciso fazer um certo malabarismo, às vezes, para coordenar tudo ao mesmo tempo. A entrevista para o UOL foi feita em trânsito, como é o padrão na rotina do motorista. “A gente está falando de um assunto que é novidade, que a gente não entende, tem que prestar atenção no caminho, no que vai perguntar para a pessoa..., mas eu dou conta.”

A gravação é feita por até 12 horas seguidas. Quando a memória da câmera enche, os arquivos mais antigos são automaticamente apagados. Por isso, no dia em que as corridas rendem boas conversas, o material é copiado assim que ele retorna para casa.

Enquanto não pode rodar por conta do dia de rodízio municipal no trânsito, ele edita o blog.

Mas nem tudo são flores

Apesar do entusiasmo pela possibilidade de, a cada dia, descobrir um novo personagem para seus vídeos e textos, Souza relata o que ele considera “a parte complicada” na vida do motorista de aplicativo. Situações envolvendo a segurança e lidar com passageiros “vulneráveis” são principalmente o que ele considera difícil.

“Levar gente alcoolizada, levar menores de idade, já me pediram para transportar criança sozinha, volumes sem passageiro, e isso é um risco grande que você corre.”