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Policial flagra festa em propriedade dele e dá tiros para encerrar evento

Marca de um dos tiros dados por um policial civil para encerrar festa clandestina no interior de São Paulo - Reprodução
Marca de um dos tiros dados por um policial civil para encerrar festa clandestina no interior de São Paulo Imagem: Reprodução

Daniel César

Colaboração ao UOL, em Pereira Barreto (SP)

08/02/2021 14h51

Um policial civil encerrou uma festa clandestina numa chácara em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, atirando em direção aos carros que estavam presentes no evento, na madrugada de ontem, segundo Boletim de Ocorrência.

A curiosidade é que o imóvel pertence ao próprio policial, que alegou não ter sido informado sobre a realização da festa pelo inquilino da chácara. Ele teria sido avisado por vizinhos sobre o barulho no local e decidiu ir até lá para verificar o que estava acontecendo.

Segundo o registro, ele constatou que se tratava de uma festa clandestina e rapidamente procurou o inquilino para cobrar explicações. Os dois acabaram discutindo e o policial teria tentado retirar o equipamento de som da tomada, sendo impedido por participantes do evento.

Segundo a PM (Polícia Militar), o próprio policial confessou em depoimento que sacou sua arma e disparou tiros na direção dos automóveis estacionados para dispersar as pessoas. A confusão foi tanta que houve até quem fugisse abandonando seu veículo no local, mas a festa terminou imediatamente. Um dos veículos atingidos era da filha de outro policial civil, que compareceu ao local ao ser informado pela jovem, contou o dono do local.

A Polícia Militar foi acionada e abordou o dono da chácara. Segundo os policiais, ele teria brigado com os PMs e tentado impedir que peritos trabalhassem nas marcas deixadas pelos tiros nos veículos da festa. O policial civil deixou o local depois que a confusão terminou e não foi preso, mas o caso foi registrado pela Central de Flagrantes e será encaminhado para a delegacia da área. Embora não tenha tido voz de prisão, os PMs que atenderam a ocorrência apreenderam a arma.

Policial não é afastado

Por se tratar de um caso envolvendo um policial civil, o delegado que atendeu o caso, Allan Soares, convocou o delegado corregedor Fernando Campanelli. Ao UOL, a autoridade confirmou as informações, mas explicou que não poderia dar muito detalhe. "Há a orientação de manter o sigilo, não para preservar a identidade do policial, mas para preservar a investigação".

Questionado sobre a identidade do policial civil, o delegado da Corregedoria apontou que "há testemunhas que não sabem que ele é policial e que podem dar informações para ajudar nas investigações. [Por isso, elas podem] Se sentir temerosas ao saber da identidade do policial e até tentar mudar o depoimento."

Em compensação, sobre o fato do dono da chácara não ter sido afastado de suas funções, Fernando conta que "não cabe à Corregedoria ver isso porque a Corregedoria é disciplinar. Isso cabe ao superior. Mas imagina se qualquer policial civil que se envolve em casos que geram investigação [for afastado?]. Se for afastar o policial, você vai ter um déficit de profissionais. Reclamações contra a conduta de funcionários públicos têm em várias áreas e só ao final da investigação é que se sabe. Não cabe afastamento em todo caso."

O delegado lembra ainda que apenas ao final das investigações será possível saber exatamente o que aconteceu, mas não deu um prazo para o encerramento do inquérito. Como não foi informada a identidade do policial civil, não há como entrar em contato com o superior direto dele.

Festa na pandemia

.A festa realizada na chácara era clandestina e estava proibida, já que a região de São José do Rio Preto está na fase laranja do Plano SP, e aglomerações são barradas. A Guarda Civil, responsável por averiguar esse tipo de evento, chegou a acabar com quatro eventos semelhantes, mas não compareceu a esta chácara. A Polícia Militar deverá encaminhar o Boletim de Ocorrências também para a GCM punir o organizador do evento.

O delegado da Delegacia Seccional de São José do Rio Preto, Alexandre Del Nero, contou ao UOL que o responsável pela festa deverá responder. "Toda festa que promove aglomeração que vai contra o decreto vira caso a averiguar no Código Penal", afirma.