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Viúva ocultou patrimônio de Capitão Adriano após morte do ex-PM, diz MP

Julia Lotufo e o ex-PM conhecido como Capitão Adriano - Reprodução
Julia Lotufo e o ex-PM conhecido como Capitão Adriano Imagem: Reprodução

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

22/03/2021 14h43Atualizada em 23/03/2021 11h35

Julia Emilio Mello Lotufo, viúva do ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como o chefe de uma milícia na zona oeste do Rio e morto em uma operação policial em fevereiro de 2020 na Bahia, é acusada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio) de ocultar o patrimônio da quadrilha até mesmo após a morte do miliciano, conhecido como Capitão Adriano.

Considerada foragida pela Justiça, ela foi um dos alvos de mandado de prisão preventiva na manhã de hoje no âmbito da Operação Gárcula, que investiga suposta organização criminosa responsável por movimentação financeira, lavagem de dinheiro e agiotagem do grupo chefiado pelo miliciano.

Era a ela [Julia Lotufo], também, que os denunciados (...) se reportavam para prestar contas sobre os valores pertencentes a Adriano

Trecho da denúncia do MP-RJ

A ação de hoje resultou na prisão do policial militar Rodrigo Bitencourt Fernandes Pereira do Rego, sócio da Cred Tech Negócios Financeiros, uma das empresas de fachada do Capitão Adriano segundo o MP. Ainda de acordo com a investigação, a empresa movimentou mais de R$ 3,6 milhões entre 1º de agosto de 2019 e 28 de abril de 2020 —o equivalente a mais de R$ 400 mil por mês.

Na decisão da Justiça à qual o UOL teve acesso, a investigação obteve dados telemáticos de Julia que indicam que ela tinha o controle da movimentação financeira da organização criminosa, segundo o MP.

De acordo com o MP, Rodrigo prestava contas de valores de empréstimos movimentados pela quadrilha à Julia, "evidenciando, desta forma, que a denunciada detinha controle sobre parte dos valores movimentados de Adriano", diz um dos trechos do documento assinado pelo juiz Bruno Monteiro Rulière, da 1ª Vara Criminal Especializada da Capital.

Em conversa telefônica interceptada pela Justiça em 1º de outubro de 2019, Rodrigo diz que Julia seria sua "sócia". Em outro diálogo em 26 de janeiro de 2020, ele afirma que trabalha há quatro anos com empréstimo e que teria "um cara por trás dele que injetaria dinheiro". Segundo o MP, ele se referia a Adriano. Na ocasião desses grampos, o miliciano já era foragido.

Dilapidação do patrimônio

A investigação constatou também que Julia, assim como Luiz Carlos Felipe —sargento da PM morto no sábado (20)—, atuaram na dilapidação do patrimônio de Adriano com a venda imediata de ativos de alta liquidez após a morte dele.

Segundo a denúncia, o patrimônio da quadrilha chefiada por Adriano, também tido como o chefe do grupo de matadores Escritório do Crime, era investido para a prática de agiotagem, com empréstimos a juros de até 22%.

Transferência do patrimônio após a morte

Julia teve participação na transferência do capital da Lucho Comércio de Bebidas após a morte de Adriano —segundo o MP, a empresa de fachada era usada para lavagem de dinheiro do grupo.

Segundo a investigação, Rodrigo e Carla Fontan —também alvo da ação de hoje— eram os sócios da empresa antes da morte de Adriano. Depois, a titularidade foi transferida para David e Lucas Lotufo, irmãos de Julia. Segundo a denúncia, isso é mais um indício da atuação da viúva para ocultar o patrimônio de Adriano.

Além de Julia e Rodrigo, Daniel Haddad Bittencourt Fernandes Leal, apontado como um dos laranjas do grupo, foi alvo de mandado de prisão.

R$ 75 mil encontrados com Carla Chaves Fontan durante Operação Gárgula do Ministério Público do Rio - Divulgação/MPRJ - Divulgação/MPRJ
R$ 75 mil encontrados com Carla Chaves Fontan durante Operação Gárgula do Ministério Público do Rio
Imagem: Divulgação/MPRJ

Bens de R$ 8,4 milhões apreendidos

Além de prender o soldado Bittencourt, a operação apreendeu com ele uma Mercedes-Benz Ago e um Toyota Corolla sem placa. Na casa de Carla Fontan, foram encontrados R$ 75 mil em espécie.

Carro apreendido na Operação Gárgula, que o Ministério Público do Rio faz contra a milícia de Adriano da Nóbrega - Divulgação/MPRJ - Divulgação/MPRJ
Carro apreendido na Operação Gárgula, que o Ministério Público do Rio faz contra a milícia de Adriano da Nóbrega
Imagem: Divulgação/MPRJ

A Justiça autorizou o sequestro do haras Fazenda Modelo, em Guapimirim, região metropolitana do Rio, automóveis e bloqueio de bens que equivalem a R$ 8,4 milhões, correspondentes ao valor mínimo constatado em movimentações pelos criminosos.

A ação é um desdobramento da Operação Intocáveis, de janeiro de 2019, que resultou na prisão de cinco pessoas suspeitas de envolvimento com o grupo paramilitar.

Alvos dos mandados de prisão

  • Rodrigo Bitencourt Fernandes Pereira do Rego: Soldado da PM preso hoje
  • Julia Emilia Mello Lotufo: foragida
  • Daniel Haddad Bittencourt Fernandes: foragido
  • Leal Luiz Carlos Felipe Martins (conhecido como Orelha): sargento da PM morto no sábado (20)
  • Outros investigados, com pedidos de medidas cautelares de prisão aceitas pela Justiça: Carla Chaves Fontan, Carolina Mandin Nicolau, Jefferson Renato Candido da Conceição (o Sapo), David de Mello Lotufo e Lucas Mello Lotufo
A reportagem tenta contato com os acusados pelo MP-RJ citados na reportagem.