Topo

"Somos invisibilizados": Indígenas denunciam preconceito nas cidades

Silhueta da líder indígena Tereza Arapium no calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 2020 - Mongabay
Silhueta da líder indígena Tereza Arapium no calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 2020 Imagem: Mongabay

Karla Mendes

Da Mongabay, no Rio*

12/04/2021 04h00

Durante uma apresentação para a celebração da Semana do Índio na escola de seu filho, no Rio de Janeiro, o sociólogo José Carlos Matos Pereira mostrou uma foto e perguntou: "O que vocês acham, são indígenas?". As crianças responderam imediatamente em uníssono: "Nãããão". Ele perguntou o porquê, e elas responderam: "Não estão pelados, não estão com arco e flecha e não estão na floresta, então não são indígenas".

O episódio, baseado em uma foto de indígenas do município de Altamira, no Pará, é apenas um relato da realidade enfrentada pelos indígenas que vivem em áreas urbanas no país.

"Isso marca uma percepção desde criança de como se pensa o indígena", diz Pereira, pesquisador do Programa de Memória dos Movimentos Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "O indígena caça, pesca, vive na floresta, tem seu modo de vida, seus rituais. Mas também ele vem para a cidade."

Cidades brasileiras com maior proporção de indígenas - Mongabay - Mongabay
Cidades brasileiras com maior proporção de indígenas
Imagem: Mongabay

Mais de um terço da população indígena do Brasil, ou 315 mil indivíduos, vive em áreas urbanas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano de 2010 (novos dados só estarão disponíveis em 2022).

Enquanto nas zonas rurais e áreas remotas da Amazônia os povos indígenas são ameaçados por invasões de terras, mineração e projetos de infraestrutura, nas cidades eles enfrentam invisibilização e preconceito.

Michael Oliveira Baré Tikuna na praia de Copacabana - Mongabay - Mongabay
Michael Oliveira Baré Tikuna na praia de Copacabana
Imagem: Mongabay

Michael Oliveira Baré Tikuna mora no Rio há 20 anos e relata inúmeras situações em que enfrentou preconceito por ser indígena. "Um rapaz negro falou para mim que meu lugar não era ali na universidade, que meu lugar era lá dentro da floresta", disse Baré, shiatsu terapeuta e professor autônomo de história indígena.

"Esse foi a coisa que mais me chocou porque ele estava reproduzindo em mim o que os brancos fazem com ele, que é para mandá-lo de volta para a África."

Nascido em Manaus, Baré foi o primeiro indígena a ingressar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) pelo sistema de quotas. Seu nome indígena na língua Nheengatu — derivada do Tupi-Guarani — é Anaje Sucurijú Mangará Ibytyra, que significa Gavião Sucurijú Coração de Montanha.

Seu nome em sua certidão de nascimento é Michael Júnior Queiroz de Oliveira, mas ele adotou as etnias indígenas Baré e Tikuna de seus pais após resgatar suas raízes indígenas. "Na universidade nós somos invisibilizados, nos movimentos sociais nós somos invisibilizados, em tudo nós somos invisibilizados."

A historiadora Ana Paula da Silva, doutora em memória social, destaca a importância de um movimento revisionista da história indígena que diversos pesquisadores realizam hoje para dar um lugar de destaque aos povos originários na história brasileira.

Eles são parte da nossa história, da nossa cultura e foram fundamentais no processo de colonização e isso é algo que deve ser ensinado nas escolas, divulgado na mídia e, com certeza, a partir do momento que a sociedade brasileira entender que os indígenas são parte do Brasil, da nossa história, com certeza muitos preconceitos, muita discriminação com relação a essa população, será desconstruída."
Ana Paula da Silva, pesquisadora do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (Pro Índio) da UERJ

Cidades brasileira com o maior número de indígenas - Mongabay - Mongabay
Cidades brasileira com o maior número de indígenas
Imagem: Mongabay

Histórias como a de Baré serão contadas em uma série de reportagens multimídia que a Mongabay começa a publicar hoje, com foco nos seis municípios brasileiros com o maior número absoluto de indígenas em áreas urbanas: São Paulo (SP), São Gabriel da Cachoeira (AM), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Boa Vista (RR) e Brasília (DF).

Para Brasília, o IBGE considera os dados do Distrito Federal. O projeto, que recebeu financiamento do Pulitzer Center on Crisis Reporting, produziu mapas e infográficos inéditos que mostram não só onde moram os indígenas nessas cidades, mas também seu acesso à educação, esgoto e outros serviços, além de sua diversidade étnica.

Pereira, que tem pós-doutorado em antropologia social, destaca a importância do censo de 2010, pois é o primeiro a reconhecer, por meio de um processo de autodeclaração, a presença indígena em terras indígenas, áreas rurais e urbanas, bem como suas 300 etnias e idiomas.

Durante muito tempo, os indígenas foram apagados da contagem populacional. Só vão aparecer nos anos noventa através do quesito cor e raça... Em 2010 nós vamos ter o primeiro Censo Indígena do Brasil. Então é um dado importante que não dá mais pra negar: a presença indígena em cidades brasileiras."
José Carlos Matos Pereira, pesquisador do Programa de Memória dos Movimentos Sociais da UFRJ

Michael Oliveira Baré Tikuna posa para foto em frente a um prédio da UERJ - Mongabay - Mongabay
Michael Oliveira Baré Tikuna posa para foto em frente a um prédio da UERJ
Imagem: Mongabay

Um dos destaques da série é o acesso ao ensino superior. Entre 2010 e 2019, o número de indígenas nas universidades saltou de 10 mil para cerca de 81 mil, segundo o censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

"Desse grupo é que vão sair os cérebros do movimento", comenta o antropólogo João Pacheco de Oliveira, professor titular e curador das coleções etnográficas do Museu Nacional.

Os que vão para a cidade não viram brancos... Eles continuam a ser indígenas e vão ser importantíssimos para aqueles que estão dentro das aldeias."
João Pacheco de Oliveira, curador do Museu Nacional

Os indígenas reivindicam seus direitos ancestrais deste edifício, localizado ao lado do Maracanã - Mongabay - Mongabay
Os indígenas reivindicam seus direitos ancestrais deste edifício, localizado ao lado do Maracanã
Imagem: Mongabay

Para Baré, entrar na UERJ pelo sistema de cotas foi a maior conquista de sua vida. "A educação, além de ser uma arma, um escudo para me defender dos preconceitos e do racismo, ela também é a única arma que a gente pode usar, nós indígenas, que não vai gerar reação genocida".

Ele afirma que seu maior sonho é libertar o povo brasileiro do discurso ideológico colonizador de escravista, que mantém os índios subjugados: "No momento em que os brasileiros, em vez de falar 'Ah, são os índios'", eles falem: 'são os nossos ancestrais'".

*Este projeto recebeu financiamento do programa de jornalismo de dados e direitos fundiários do Pulitzer Center on Crisis Reporting. Leia a íntegra da reportagem originalmente publicada no site da Mongabay.