Depois de um agosto de fortes emoções, o mês de setembro trouxe mais alegrias aos investidores da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), que ultrapassou a barreira dos 61 mil pontos pela primeira vez. "Fomos do inferno ao céu", resume o diretor da Fator Corretora Antonio Milano.
Na avaliação dos analistas, a recuperação da Bolsa foi reflexo da forte atuação dos bancos centrais norte-americano e europeu para conter os reflexos da crise no segmento imobiliário americano.
O agressivo corte dos juros nos Estados Unidos promovido pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) que baixou a taxa para 4,75% ao ano, foi, para Milano, o catalisador que trouxe os investidores de volta à Bolsa. "Por trás de tudo isso existe um claro desinteresse pela moeda americana e uma corrida aos ativos reais como bolsa e ouro", diz Milano.
Na avaliação de Francisco Barbosa, economista-chefe da Magliano Corretora, a recuperação extraordinária da Bolsa mostra que não há nem nunca houve crise.
| TERMÔMETRO DA CRISE |
|---|
 Gráfico mostra os principais momentos da turbulência no mercado mundial. Veja aqui |
"Se os fundamentos da economia fossem ruins, não haveria recuperação." Segundo Barbosa, o setor imobiliário representa apenas 10% da economia norte-americana, e não teria potencial para contaminar os 90% restantes que estão saudáveis.
"Toda recessão decorre de um desequilíbrio geral na economia. Se a liquidez é alta, como agora, não pode haver um processo recessivo."
Outro indicador que mostraria que não há indício consistente de crise, para o economista, é o fato de que o segmento de commodities continua aquecido. "Quando há recessão, as commodities são as primeiras a sofrer. O que se vê, no entanto, é uma forte alta dos preços dos insumos básicos."
Para a maioria dos analistas, porém, a crise ainda não mostrou até onde pode chegar. "A crise existe, sem dúvida, e não sabemos ainda com certeza quais bancos estão afetados, qual o volume do crédito envolvido e quantos investidores de outros países colocaram dinheiro nos papéis do subprime imobiliário americano", argumenta Milton Milioni, diretor da Geração Futuro.
"Por isso, é cedo para dizer que a crise acabou". O executivo acredita, porém, que a tendência da Bolsa continua sendo de alta, enquanto as empresas continuarem mostrando bons resultados e a economia, a crescer.
Para Walter Maciel, membro do comitê de investimentos da Quest Investimentos, a grande questão agora é se a economia mundial conseguirá crescer mesmo se os Estados Unidos experimentarem uma recessão por conta do problema no seu segmento imobiliário. "O cenário com que trabalhamos agora é o da economia americana crescendo abaixo do esperado e a China liderando a puxada do crescimento", diz.
A falta de consenso sobre a crise, porém, não se estende à sugestão de continuar a investir na Bolsa. "Sugerimos os papéis de empresas com base na economia real, como minério e outras commodities, que devem continuar fortes por um bom tempo", avalia Maciel.