O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu nesta terça-feira medidas para incentivar o barateamento do crédito. O cliente de bancos terá mais facilidade para transferir o salário e as dívidas de uma instituição para outra, o que pode aumentar a concorrência e reduzir tarifas pagas pelo consumidor.
Entre as ações, estão a criação obrigatória de conta-salário pelos bancos a partir de 1º de janeiro do ano que vem, a facilitação da portabilidade do crédito entre bancos (possibilidade de mudar de uma instituição para outra) e a redução pela metade da alíquota de contribuição para o Fundo Garantidor de Crédito (usado para garantir depósitos em caso de quebra do banco), para 0,0125%.
O valor da cobertura garantida por esse fundo subirá de R$ 20 mil para R$ 60 mil.
O governo também decidiu que o Banco Central ampliará gradualmente a abrangência da Central de Risco, que atualmente leva em conta operações a partir de R$ 5.000.
Esse limite será reduzido para R$ 3.000 a partir de março de 2007 e deve chegar a R$ 1.000 reais até o final do ano que vem.
"Com essa medida, as instituições financeiras terão acesso a um número maior de informações qualificadas, reduzindo os custos de avaliação de riscos. Os principais favorecidos serão os clientes bancários de renda mais baixa", apontou o Ministério da Fazenda em nota divulgada à imprensa.
Além disso, o governo encaminhará nos próximos dias ao Congresso uma medida provisória que cria o chamado cadastro positivo (cadastro para clientes usarem se quiserem mudar de banco).
Para o próprio governo e representantes dos bancos, os efeitos não devem ser imediatos.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o CMN continuará a trabalhar de forma gradual para incentivar a redução do spread bancário —a diferença entre o custo de captação dos bancos e o juro cobrado do cliente.
"É muito importante para o Brasil a elevação do volume de crédito para viabilizar os investimentos, viabilizar o consumo, viabilizar a aceleração do crescimento econômico. Mas achamos importante também que esse aumento de crédito se dê ao custo descendente, a um custo cada vez menor", afirmou o ministro.
"Não é um efeito imediato, porque são medidas com as quais o mercado (bancos e correntistas) têm que se acostumar."
De acordo com dados do BC, as operações de crédito no Brasil representavam 32,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho. Mantega acredita que essa relação pode chegar a 50% nos próximos anos.
A possibilidade de mudar as contas-salários não se aplica aos convênios firmados entre bancos e empresas ou prefeituras para administração de folhas de pagamentos. Nesses casos, segundo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, haverá uma transição a ser definida pelo CMN.
O governo quer respeitar direitos jurídicos. Itaú e Santander Banespa, por exemplo, pagaram pelo direito de administrar as folhas de pagamento das Prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente.
A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) afirmou que, em princípio, as medidas do CMN "contribuirão para estimular ainda mais a já acirrada concorrência entre as instituições financeiras pela preferência dos clientes". A entidade alertou, porém, que a efetivação de algumas das regras dependerá de resoluções e circulares do BC.
Crédito consignadoSobre a portabilidade do crédito consignado, uma medida que chegou a ser considerada pelo governo mas ficou de fora do anúncio, Mantega disse que o CMN ainda analisa "detalhes jurídicos e técnicos".
"Queremos ser cautelosos de modo a não cometer nenhuma irregularidade ou dar margem a questionamentos de ordem jurídica. O crédito consignado para habitação será anunciado na próxima semana. Agora, a portabilidade do crédito habitacional é, na escala que estamos vendo aqui, a parte mais complexa."
Para o economista do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) Carlos Cavalcanti, "as medidas do governo são absolutamente inócuas, não vão nem arranhar o spread".
"O que faria efeito seria uma redução do depósito compulsório", acrescentou, lembrando de um antigo pleito dos bancos.
Conforme dados do BC, o spread bancário médio no sistema financeiro nacional em julho caiu 0,5 ponto na comparação com o mês anterior, para 27,5 pontos percentuais.
Veja a seguir, as principais medidas implementadas pelo CMN:
Portabilidade da conta-salárioO consumidor passa a escolher livremente o banco onde terá a conta-salário. Pelas regras atuais, a oferta da conta-salário é prerrogativa da instituição financeira.
A partir de agora, será obrigatória, sempre que a instituição financeira prestar serviço de pagamento de folha salarial.
Com essa medida, o trabalhador terá à sua disposição uma conta-salário na instituição que sua empresa deposita o seu salário, podendo resgatar ou mesmo transferir seus recursos para qualquer instituição financeira de sua escolha, sem custos.
Em tese, pode haver mais concorrência e redução de tarifas e de custo de empréstimos. A medida vale a partir de janeiro do ano que vem.
Portabilidade do créditoA segunda medida está relacionada à portabilidade do crédito. Permite a transferência, por solicitação do próprio cliente, da operação de crédito que detém junto a uma instituição financeira para outra.
Isso também permitiria ao consumidor melhores condições, seja em termos de juros, volume ou mesmo de prazo.
Segundo o Ministério da Fazenda, embora permitida, a portabilidade do crédito no Brasil ainda está muito aquém do seu potencial, por vários motivos, inclusive a falta de conhecimento dos clientes bancários quanto à sua possibilidade, mas principalmente pela burocracia e custos envolvidos na operação.
Não haverá custos nas operações de portabilidade do crédito no que diz respeito a CPMF e IOF.
Portabilidade cadastralA partir de agora, as instituições financeiras, quando autorizadas, deverão fornecer diretamente a terceiros informações referentes ao cadastro / histórico de relacionamento do respectivo cliente.
Com essa medida, bancos diferentes, quando autorizados, passarão a ter acesso de forma mais fácil ao cadastro do cliente, tendo com isso informações concisas e fidedignas para fins de avaliação de risco, o que pode se traduzir em vantagens em termos de tarifas bancárias ou mesmo melhores condições de crédito.
Cadastro positivoO governo irá encaminhar nos próximos dias ao Congresso Nacional uma Medida Provisória para regular atividades de empresas que têm cadastros de proteção ao crédito (nos quais são listados os devedores).
A medida vai permitir que as empresas que prestam o serviço de proteção ao crédito possam coletar informações "positivas" dos respectivos consumidores. Pelas regras atuais, as empresas só podem coletar informações de inadimplência
A coleta de informação positiva possibilita haver um histórico completo do consumidor, impedindo, dessa forma, que inadimplências pontuais manchem a sua reputação de bom pagador.
Central de Risco do Banco CentralSerá ampliada a abrangência da Central de Risco do Banco Central. Atualmente, a Central de Risco registra apenas as operações de crédito superiores a R$ 5.000,00. A partir de março de 2007, esse referencial será reduzido para R$ 3.000,00, e, ao final de 2007, para R$ 1.000,00.
Com essa medida, as instituições financeiras terão acesso a um número maior de informações qualificadas, reduzindo os custos de avaliação de risco, e minimizando os efeitos prejudiciais da informação incompleta.
Segundo o governo, os principais favorecidos serão os clientes bancários de renda mais baixa. Eles tendem a obter créditos em volumes menores, que não eram registrados na Central de Risco. Isso dificultava e encarecia as operações das instituições financeiras com esses clientes.
Agora esse público tende a obter créditos em volumes maiores e com custos menores.
Fundo garantidor de créditoO CMN reduziu pela metade (de 0,025% para 0,0125%) a alíquota de contribuição do Fundo garantidor de crédito (usado para garantir depósitos em caso de quebra do banco). O valor garantido para saque também foi ampliado de R$ 20 mil para R$ 60 mil.
Essas medidas foram adotadas porque o governo considera que o fundo já tem recursos suficientes.
Segundo o governo, a redução da alíquota terá um impacto nas taxas bancárias, e a expectativa é que haja uma redução do custo do crédito para o usuário final.
(Com informações da Reuters)
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