23/02/2006 - 16h08 Franceses lançam campanha contra a expansão da soja na América do Sul
Por Beatriz Lecumberri PARIS, 23 fev (AFP) - Organizações francesas lançaram nesta quinta-feira uma campanha para denunciar a exploração de milhares de camponeses latino-americanos e a destruição do solo em países como Brasil e Argentina devido às grandes plantações de soja que se espalham pela região.
"A soja contra a vida" é o nome desta campanha de conscientização que vai até setembro, com o objetivo de criticar o modelo agrícola atual.
"A soja é um bom exemplo de uma política agrícola feita em detrimento dos povos e do meio ambiente nos países da América Latina, onde as multinacionais do setor de alimentos deixam as comunidades locais na miséria para poder alimentar o gado europeu", lamentou Catherine Gaudard, diretora da campanha.
Segundo os organizadores, a produção mundial de soja aumentou 495% em 35 anos, chegando a 216 milhões de toneladas em 2005. Calcula-se que em 2020, a produção anual chegará a 303 milhões de toneladas.
"Estes cultivos, intensivos, mecanizados e com o uso cada vez maior de sementes geneticamente modificadas, ocupam cada vez mais as propriedades de terras familiares, aumentam o desmatamento, deixam as comunidades locais na miséria e estimulam violações dos direitos humanos", acrescentaram.
Apenas no Brasil, 47% das áreas cultivadas são dedicadas à soja, enquanto mais de 16 milhões de pessoas passam fome no país. Além do Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai são exemplos de países que continuam colocando seus recursos naturais a serviço dos grandes produtores e das multinacionais, uma política favorecida por seus governos.
"Estamos passando a ser exportadores de soja. Na minha região, os camponeses lutam contra escavadoras que arrasam tudo por onde passam, contra os proprietários de terra e os policiais que os protegem. Estão tentando deslegitimar nossa luta, mas não somos nós os criminosos", criticou Verónica Maldonado, do Movimento Camponês de Santiago del Estero (Mocase), na Argentina.
Para Isidoro Revers, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Brasil, entre 1975 e 1985, 40 milhões de brasileiros foram expulsos de suas terras por grandes multinacionais.
"Cerca de 80% dos produtos agrícolas importados do Brasil pela Europa são controlados por cerca de 10 multinacionais. Quando nosso governo pede a eliminação de subsídios agrícolas, esta tentando aprovar uma medida que beneficiará estas empresas e não os produtores locais", denunciou o representante brasileiro.
A campanha lançada quinta-feira tem apoio de várias associações francesas de defesa dos direitos dos camponeses, o meio ambiente e o desenvolvimento justo dos povos.
Estas organizações trabalham em colaboração com várias entidades latino-americanas como a CPT e o Movimento dos Sem Terra (MST) do Brasil, o Instituto de Cultura Popular (Incupo), o Mocase da Argentina, o programa boliviano Nina de formação de líderes camponeses indígenas e a Federação nacional camponesa do Paraguai.
A campanha tem como meta alertar o público para os riscos deste modelo agrícola que fomenta a pobreza e a fome, assim como incentivar os cidadãos a questionar aqueles que tomam as decisões.
Deste modo, os alvos desta iniciativa serão dois: o ministério das Finanças da França, que aprova via Banco Mundial (Bird) créditos para empresas responsáveis para a exploração da soja na América Latina, e duas empresas, a americana Cargill e a francesa Louis Dreyfus, responsável por 15% do comércio mundial de grãos.
Durante meses, cidadãos de todo o mundo poderão assinar e enviar cartões postais aos responsáveis destas instituições para pedir o fim de suas políticas de expansão das áreas de cultivo de soja.