09/10/2007 - 14h19
Banco do Sul tentará conciliar finanças com projetos sociais

Rio de Janeiro, 9 out (EFE).- Começou hoje no Rio de Janeiro a
nova rodada de discussões para a criação do Banco do Sul, a
organização de fomento regional instituída por consenso na última
segunda-feira.
Até esta quarta-feira, os técnicos de Brasil, Argentina, Bolívia,
Equador, Uruguai, Paraguai e Venezuela na nona rodada deverão dar
forma e conteúdo à entidade que, segundo seus promotores, já pode
começar a funcionar em 2008.
A ata de fundação foi aprovada por ministros e vice-ministros da
Economia dos países-membros e agora será submetida aos presidentes
de cada país. Caso seja aprovada sem objeções, a ata será assinada
no dia 3 de novembro em um ato oficial em Caracas, capital da
Venezuela.
Depois desta etapa, em dois meses o "convênio constitutivo" que
será assinado pelos membros deve estar concluído.
A instituição pretende aliar a rentabilidade de um banco regional
de fomento e investimento com o incentivo a projetos sociais
prioritários, especialmente em países pobres e com grave déficit de
infra-estrutura.
O fato de a sede principal ficar em Caracas (onde surgiu a idéia)
e as subsedes em La Paz e Buenos Aires evidencia um projeto
idealizado à sombra do integracionismo promovido pelo presidente
venezuelano, Hugo Chávez, com a ajuda de seus petrodólares.
Nesse contexto, o grande contrapeso do projeto é o Brasil, cuja
política econômica austera e controle dos gastos públicos contrasta
com os investimentos pesados em infra-estrutura e área social dos
aliados de Chávez.
No entanto, após as objeções iniciais, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva acabou entrando em acordo com os Governos dos países
vizinhos e deu apoio político e institucional ao projeto.
"A instituição reforçará a redução de nossa vulnerabilidade,
ajudará a fortalecer os países sul-americanos, dará maior autonomia
financeira e nos colocará em condições de enfrentar melhor as crises
internacionais", disse na segunda-feira o ministro da Fazenda, Guido
Mantega.
Uma das conquistas de Lula nesta operação foi fazer com que o
futuro banco se limite a financiar apenas países da América do Sul,
segundo observadores.
"Estamos apoiando um projeto que vai beneficiar nossos parceiros
comerciais e políticos, e empresas brasileiras que atuam nesses
países", acrescentou Mantega.
A posição do Brasil era a de criar uma instituição séria,
eficiente, com classificação financeira e rentabilidade, afirmou.
Segundo os críticos da iniciativa venezuelana, Chávez queria que
a entidade servisse também para ajudar outros aliados de fora do
continente, como Cuba e Nicarágua, em programas assistencialistas de
caráter ideológico e político que poderiam acabar distorcendo o
papel da futura instituição.
Uma minuta do documento à qual a Efe teve acesso afirma que o
Banco do Sul é mais um passo em busca de "um sistema monetário
regional".
"A integração sul-americana" deve ser "um espaço consagrado à
promoção do desenvolvimento econômico e social, à redução das
assimetrias, da pobreza e da exclusão social", diz a ata.
O projeto avançou desde fevereiro de 2007, quando foi assinado um
memorando de entendimento entre os presidentes de Argentina, Bolívia
e Venezuela.
Posteriores reuniões ministeriais e técnicas, como esta no Rio,
avançaram o suficiente para levar os ministros a assinar a ata sem
que tenham sido decididos ainda aspectos essenciais, como o capital
total do banco, o montante de sua capitalização e as cotas de cada
país.
Uma das chaves do Banco do Sul é que o "controle soberano seja
exercido de maneira genuína pelos países sul-americanos". Este é um
ponto fundamental da posição venezuelana.
Para o ministro das Finanças venezuelano, Rodrigo Cabezas, os
empréstimos das "declinantes" instituições tradicionais, como o
Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM), são
concedidos em troca de condições estabelecidas segundo uma receita
neoliberal que provou seu fracasso no passado.
Cabezas era o ministro mais abertamente contente e otimista na
reunião, no Palácio do Itamaraty. Ele disse que seu Governo está
muito satisfeito com o modelo nascido da vontade política e da
"urgente necessidade da integração".