24/10/2005 - 09h56 Oposição culpa Lula pela vitória do "não" em referendo
SÃO PAULO - Dada como improvável no início, a vitória do " não " será a partir de hoje instrumentalizada por duas frentes distintas: a ala da oposição que desembarcou da frente do desarmamento antes do referendo, representada por boa parte do PFL, tentará responsabilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela derrota. E segmentos da chamada " bancada da bala " poderão colocar em questão o texto atual do Estatuto do Desarmamento, argumentando que a votação é um indicativo de que a legislação em vigor - já bastante restritiva -não conta com apoio popular. A discussão já chegou no Judiciário, onde o STF terá que deliberar sobre uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) apresentada por delegados de polícia que pode derrubar todo o Estatuto.
O presidente Lula votou " sim " e rompendo, um hábito, fez declarações após sair do local de votação, em São Bernardo do Campo. " Eu acho que uma pessoa comum ter arma não vai dar segurança, por isso eu votei no sim. A vontade do povo é soberana " , disse.
Os próprios petistas admitiram que houve um componente de voto de protesto contra o governo federal na manifestação popular. " Ficou um plebiscito contra o governo. Queriam atingir o Lula, votaram não, mesmo tendo gente da oposição e do governo representada nas duas frentes " , afirmou o deputado Maurício Rands (PT-PE). " Não descarto que o resultado poderia ter sido outro se a politização do tema não ocorresse em um momento de fragilidade do governo federal " , disse o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ).
Entre os pefelistas, a apropriação do resultado será feita sem disfarces. " Esta vitória será um instrumento de trabalho para nós. Vamos tirar lições para a campanha. Este referendo avaliou o sentimento da população em relação ao governo " , propõe como interpretação do resultado o deputado Pauderney Avelino (PFL-AM). Pelo não, o líder mais expressivo foi o prefeito do Rio, o pefelista Cesar Maia. " O resultado foi uma manifestação clara do eleitor de protesto, e descrença em relação ao atual governo " , disse o líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA).
O governo só não será mais atingido porque o desarmamento envolveu as principais lideranças tucanas e da oposição pemedebista. Mas diante da derrota do " sim " , os tucanos favoráveis ao desarmamento fizeram críticas ao governo e ao referendo. Prefeito de São Paulo e apoiador do " sim " , José Serra (PSDB) disse que a vitória do " não " ocorreu em protesto à suposta inação do governo em relação à área de segurança. O governador mineiro, Aécio Neves, disse que votou pelo " sim " , mas afirmou que os R$ 250 milhões gastos no referendo poderiam ser aplicados em outras coisas. Também opositora de Lula, a governadora do Rio, Rosinha Garotinho (PMDB) marcou sim e criticou: " O governo federal não deveria ter colocado no colo do povo uma decisão como essa. "
Nenhum deles fez ilações sobre o impacto político da decisão. A mudança do tom foi nítida. Conversando com o Valor três dias antes do referendo, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), disse " Se a oposição fosse usar isso contra Lula, então precisariam esclarecer porque estávamos com o " sim " . Não acredito que o PFL vá cair nesta cilada " . Depois do resultado, afirmou: " o grande adversário do " sim " não foi o " não " , foi Lula e o governo " . " Esta vitória, do ponto de vista político, será órfã. Da mesma forma que a vitória do sim teria muitos pais " , aposta outro oposicionista, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ).
Cientistas políticos são céticos sobre a utilidade do resultado do referendo para a oposição a Lula. " O uso do resultado do referendo como uma arma da oposição é certo. O que está longe da confirmação é atribuir a vitória do " não " à situação de crise política em que vive o governo " , afirmou o cientista político Rogério Schmitt, da consultoria Tendências.
A avaliação entre os especialistas é que a vitória do " não " mostra uma insatisfação difusa da população com a política de segurança em geral, distribuindo as culpas entre os governos federal, estadu
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