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23/01/2007 - 11h33

Morales celebra dados da economia, mas Bolívia vive sob tensão política

SÃO PAULO - Evo Morales completou um ano de governo na Bolívia com bom números na economia, mas sob clima político tenso. A oposição o acusa de minar a democracia.

O presidente é popular. Segundo o jornal boliviano " La Razón " , tem aprovação de 59%. Boa parte disso se deve ao resultado da economia. Para Mark Weisbrot, do Centro para Pesquisa Política e Econômica (CEPR), de Washington, o primeiro ano de Morales foi muito positivo: " O governo equilibrou o orçamento e conseguiu, pela primeira vez em muitos anos, acabar o ano com superávit fiscal. "

O ajuste foi conseguido graças à de 3,4% do PIB na receita com impostos e royalties de hidrocarbonetos. Apesar de não haver dados fechados, estimativa do FMI vê expansão de 4,1% do PIB (de US$ 9,6 bilhões). A dívida pública caiu de 71% do PIB para 51%, principalmente pelo perdão de dívidas com o próprio FMI e o Banco Mundial.

Para Weisbrot, o grande feito de Morales, que permitiu ajustar as contas do país, foi a nacionalização dos hidrocarbonetos, com alta de impostos sobre gás e petróleo.

Mas a tensão política persiste e não dá sinais de trégua, tanto com a oposição, que quer mais autonomia regional e defende uma economia mais voltada para o mercado, quanto com alas mais radicais de grupos que apóiam o governo.

Ontem, protestos em El Alto isolaram o aeroporto internacional e bloquearam estradas importantes, como a que liga La Paz ao Peru. Os protestos foram convocados pela Fejuve, movimento popular que apóia Morales e exige a renúncia do governador da Província de La Paz, de oposição ao governo. Mas o discurso oficial mudou um pouco. As manifestações " são legítimas, mas não são legais " , disse Alex Contreras, porta-voz de Morales.

Na semana passada, manifestantes tomaram o palácio de governo da Província de Cochabamba e criaram um " governo revolucionário " provisório, que não foi reconhecido pelo governo central. O vice-presidente Garcia Linera disse então que o governo respeitava os governadores eleitos pelo voto, " gostando deles ou não " .

A oposição diz que esses movimentos são manipulados por Morales, que os estimularia. Os movimentos mais radicais criticam o presidente por não ser mais célere nas mudanças institucionais. O governo diz que não tem nada a ver com os bloqueios de estradas e com as tentativas de derrubar os governadores oposicionistas.

Para o cientista político Antonio Miranda, da Universidade de Miami, a figura de Morales, o seu personalismo, suplanta qualquer tipo de análise sobre o governo. " O Estado na América Latina normalmente se apresenta como uma instituição fraca, pela qual não transitam as decisões importantes, tomadas fora de seu controle " , diz Miranda. Por isso, aparecem figuras personalistas, e delas depende o rumo desses governos.

Num texto publicado antes da eleição de Morales, o sociólogo brasileiro Emir Sader dizia que desde " 2000, a Bolívia entrou em um processo que pode ser caracterizado como ? sublevação permanente ? , em que o Estado perdeu capacidade de governar com legitimidade e o movimento popular gera e desenvolve formas cada vez mais amplas de disputa de hegemonia política " . Para Sader, que teria influenciado o vice-presidente Garcia Linera, " essa etapa sucede a de hegemonia neoliberal " .

" Resta saber se a estabilidade do Estado boliviano vai continuar dependendo apenas da figura de Morales ou vai se tornar uma instituição capaz de mediar e representar os diversos interesses da sociedade " , questiona Miranda.

O Morales de 2002 dizia: " não importam as eleições. Se não fizerem o que queremos, voltaremos às ruas e bloquearemos as estradas " . Foi assim que ele definiu sua derrota na eleição presidencial para o neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada. Não era brincadeira. Sánchez de Lozada ficou no poder pouco mais de um ano, renunciando em meio a uma convulsão social na esteira da qual mais de 50 pessoas foram mortas durante a repressão de manifestações.

(Rodrigo Uchoa | Valor Econômico)

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