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15/05/2007 - 08h38

Análise: sob ataque, BC vacila e deixa o dólar afundar

SÃO PAULO - Sob persistente e vigoroso ataque especulativo às avessas, o Banco Central (BC) deu ontem mostras de fraqueza. Sua intervenção cambial, limitada a um leilão de compra de dólares no mercado à vista, foi tímida e vacilante.

Às 15h40, aceitou somente duas propostas, pela cotação de R$ 2,0147, e adquiriu apenas US$ 616 milhões, abaixo da média de US$ 1 bilhão da semana passada. A falta de vontade do BC em segurar o dólar pegou de surpresa as mesas.

Foi entendida como sinal de que a autoridade permitiria que a moeda caísse para aquém da barreira dos R$ 2. Com isso, nos quinze minutos finais do dia, o mercado de câmbio foi inundado por ofertas de venda. E o dólar fechou com desvalorização de 0,49%, cotado a R$ 2,009, menor preço desde 19 de fevereiro de 2001.

Em maio até sexta-feira, durante, portanto, oito dias úteis, o BC adquiriu US$ 7,09 bilhões, ou uma média diária de US$ 886 milhões. Com o leilão restrito feito ontem --as operações que de fato interferem na cotação são pulverizadas pela maior parte dos "dealers", envolvem preços acima dos praticados e quantias em torno de US$ 1,3 bilhão--, a média do mês caiu para US$ 856 milhões.

A autoridade evidencia sinais de cansaço em sua tarefa de enxugar gelo cambial. No acumulado do ano até ontem, o BC já comprou, apenas no mercado à vista, US$ 42,303 bilhões. No mesmo período, o dólar caiu 5,99%.

A autoridade monetária parece também ter desistido de contra-atacar a sobrevalorização cambial por meio da venda dos contratos de "swaps" reversos. Ontem foi o quarto pregão consecutivo sem a oferta desses instrumentos que equivalem a compra de dólares no mercado futuro. Depois da megaoperação de venda de contratos no valor de US$ 3,1 bilhões, realizada no dia 3 de maio, fez somente mais um leilão, no dia 8, bem mais modesto, de US$ 800 milhões.

Os analistas estão com a impressão de que o BC finalmente se convenceu de que as duas modalidades de intervenção --compra à vista direta por meio de leilões e compra a termo através dos "swaps" reversos-- são, na verdade, pró-especulação.

No primeiro caso, fornece liquidez aos investidores que entram no Brasil atrás da Selic. E permite que o início da aplicação não seja feita com o dólar muito aviltado, já que se o fundo de hedge ingressar com moeda muito abaixo de R$ 2,00 corre o risco de a variação cambial engolir a maior parte da Selic. No segundo caso, o "swap" reverso acaba estimulando manobras destinadas a derrubar ainda mais a cotação à vista, um dos fatores que integram a remuneração do BC.

Ao comprar "swap" reverso, o banco ganha a Selic menos o cupom cambial e a variação cambial. Interessa a ele derrubar o dólar durante a vigência do contrato em pelo menos 5% para que a apreciação do real anule o cupom (5%) de forma a proporcionar uma Selic cheia.

"O BC teria um Plano B para inibir a apreciação do real?", pergunta o economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Câmbio.

Há duas possibilidades de Plano B. A primeira, mais óbvia e usual entre os bancos centrais do mundo, é a derrubada da taxa básica de juros. Com a queda, atuaria para dissuadir a vasta série de aplicações especulativas lastreadas na Selic, responsáveis pela exacerbação da valorização do real originada no superávit comercial, esta facilmente controlável pelas compras de moeda. São essas operações especulativas --carry-trade, arbitragens puras, contratos internacionais a termo de venda de dólar e compra de real (os NDFs) e as posições combinadas nos mercados de derivativos de câmbio da BM&F-- que formam as armas do ataque especulativo à avessas.

O ataque tradicional, que ocorre em regimes de câmbio fixo, consiste na venda de real e compra de dólar. O atual, que o professor de economia da PUC-Rio, Márcio Garcia, prefere chamar de "ataque especulativo reverso", ocorre no sentido oposto, por meio da compra de real e da venda da moeda americana. Os danos do primeiro acontecem pelo lado da inflação e da dívida: o dólar explode, a inflação acompanha e o BC é obrigado a elevar os juros às alturas, agravando a situação fiscal. Os malefícios do segundo se dão na atividade econômica (fechamento de indústrias e perda de empregos) e na dívida pública, pois o BC é constrangido a esterilizar as compras de dólares por meio de emissões de títulos.

O outro Plano B, bem mais complicado pois envolve a adesão de Ministérios mais desenvolvimentistas, é a redução das tarifas e das barreiras não-tarifárias às importações. Essa solução é defendida pelo BC e pela ampla maioria do mercado.

O grande teste da disposição do BC em continuar segurando, como pode, a derrocada do dólar ocorrerá hoje. Será divulgado nos EUA o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) referente a abril. Se o indicador surpreender positivamente (um núcleo abaixo de 0,20%), os "hedge funds" irão vender títulos do Tesouro americano e tomar mais empréstimos ainda para aplicações em países emergentes. Perderão de vez o medo do pouso brusco da economia americana e ampliarão o risco em emergentes. Nessa hipótese, se o BC mantiver a apatia de ontem, o dólar transporá tranqüilamente a fronteira dos R$ 2,00.

A queda do dólar e as projeções cada vez mais otimistas de inflação colhidas pelo Boletim Focus - o IPCA previsto para os próximos 12 meses cedeu de 3,45% para 3,41% - alimentaram o declínio dos juros futuros. O CDI para janeiro de 2010, o mais negociado na BM&F, recuou 0,02 ponto, para 10,50%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
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