26/09/2007 - 08h31
Análise: BC sanciona viés de queda para o dólar

SÃO PAULO - O dólar acelerou ontem seu movimento de queda depois que o Banco Central promoveu, com êxito, a rolagem integral dos contratos de "swaps" cambiais reversos que irão vencer no dia 1º.
Vendeu, às 13 horas, 46,6 mil contratos, no valor de US$ 2,194 bilhões. A operação de rolagem, não realizada no final do mês passado por causa da crise externa, emite ao mercado em geral dois sinais: o primeiro é que, ao se mostrar interessado em continuar comprado em dólar e vendido em Selic, o BC acredita ser necessárias intervenções destinadas a evitar desvalorização maior da moeda no mercado à vista; o segundo é que, ao se mostrarem propensos em continuar vendidos em dólar e comprados em Selic, os bancos credores apostam que o dólar persistirá em baixa no segmento à vista.
Se o "swap" for plenamente bem-sucedido, o credor recebe, além da Selic, a variação cambial negativa. É por esta preciosa razão que o estoque de "swaps" reversos detido pelos bancos é significativo, de US$ 22,6 bilhões. Se o cenário desenhado pelo leilão de ontem é de continuidade da baixa do dólar, nada mais natural a moeda ter intensificado sua queda depois dele. Foi o que aconteceu, e o dólar fechou o dia cotado a R$ 1,8610, em retrocesso de 0,42%, apesar do leve desconforto externo.
Se a tendência é esta, a grande dúvida do momento é se o BC voltará a comprar moeda no mercado à vista e quando. Ele não faz intervenção compradora desde o dia 13 de agosto, quando recolheu US$ 350 milhões pelos quais pagou taxa de R$ 1,9435.
E, se ele voltar, qual a tendência para o dólar? Para uma fatia de importantes "players", a atuação do BC tem efeito contrário ao imaginado: o seu retorno dará a senha para a ampliação do viés de baixa. Será a ratificação oficial de que há fluxo físico a exigir enxugamento. Isso fornece outra senha: a de que estão liberadas as arbitragens financeiras destinadas a se apropriar da diferença de juros e a usufruir do segundo maior juro real do mundo.
Alguns operadores esfregam as mãos diante da perspectiva de volta do BC, mas a julgar pelo diagnóstico feito ontem por Henrique Meirelles no Congresso - "existe risco de a economia americana entrar em recessão" - ele pode esperar mais um pouco, até conhecer o impacto da desaceleração americana sobre a balança comercial brasileira. Há outro fator de peso a mantê-lo afastado do câmbio. Como o BC se mostrou muito assustado na última ata do Copom com as pressões inflacionárias advindas do consumo aquecido, pode permitir que o dólar escorregue mais a ponto de acalmar as expectativas. Com isso, garantirá mais uma queda de 0,25 ponto na Selic. É para isso que se encaminha o mercado futuro de juros da BM&F.
A fraqueza do dólar emite um sinal verde para o declínio dos DIs. Os contratos longos foram os que mais caíram. O CDI para a virada do ano caiu 0,01 ponto, a 11,02%, enquanto a taxa prevista para janeiro de 2010 cedeu 0,07 ponto, a 11,34%. As taxas podem cair mais ainda - e por um motivo endógeno, e não como mero reflexo da apreciação cambial - dependendo do conteúdo do Relatório de Inflação do BC referente ao terceiro trimestre. O documento, peça fundamental do sistema de metas de inflação, sairá entre hoje e sexta-feira.
Alguns analistas não estão muito esperançosos de que o relatório possa sinalizar algo diferente da estabilidade da Selic indicada na última ata do Copom. Embora traga projeções valiosas - expectativas de inflação tanto do BC, no cenário de referência, quanto do mercado para 2007 e 2008 -, o documento, também como a ata, irá se referir a período anterior ao acontecimento de eventos positivos sobre a inflação.
Para Adriano Fontes Alves dos Santos, gestor da Mercatto Investimentos, a ata é escrita com base no relatório, no sentido de que, para tomar a decisão sobre juros, os sete integrantes do Comitê levam em conta os dados e projeções nele contidos. "O relatório mostrará em detalhes qual o cenário que os membros do Copom se basearam para tomar a decisão da última reunião", lembra Santos.
Externamente, há sinais de que a liquidez vai se desempoçando devagar a despeito dos indicadores ruins americanos, sugerindo um desaquecimento mais intenso que o previsto. Houve apenas um aumento não muito expressivo da aversão ao risco (a taxa do T-10 caiu de 4,63% para 4,59%) em resposta a informes negativos do setor imobiliário e do consumo.
A venda de imóveis usados caiu 4,3% no mês passado em relação a julho e 12,8% comparativamente a agosto de 2006, alcançando o patamar mais baixo em cinco anos. E os preços dos imóveis recuaram 4,5% em 12 meses, a maior desvalorização em 16 anos. A confiança do consumidor, apurada pelo Conference Board, caiu mais que o estimado. O mercado previa queda de 105,6 para 104,5, mas o índice relativo a setembro veio a 99,8.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)