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PORTUGUÊS > DICAS DE PORTUGUÊS, por Paulo Ramos

A Arte que Liberta

Nascido em 1964 em Salvador, BA, Francisco José Maia, mais conhecido como Chico Maia, sempre esteve envolvido com artes plásticas. Convidado para um evento na Penitenciária Lemos Brito, na sua cidade natal, ao entrar no espaço ele descobriu que era ali que deveria traçar seu futuro.

Anos depois, em 1999, o projeto de Chico Maia se concretizou com a criação da ONG Arte que Liberta. Após autorização do Estado, a ONG, então constituída por cinco pessoas, começou um trabalho na penitenciária, num galpão abandonado de 500 metros, junto com os presos. O objetivo era oferecer oportunidades de capacitação a eles, para reintegrá-los à sociedade.

Em 2001, Maytê Lopes, também artista plástica, juntou-se ao projeto, trabalhando com os presos na fabricação de velas, vendidas em um shopping. Em 2004, o projeto ganhou o patrocínio da Petrobras. Através de outro incentivo da Petrobras, em 2005 foi aberta uma loja em São Paulo, SP, para vender os artigos produzidos pelos presos baianos. Ao mesmo tempo, o projeto passou a atuar também na Penitenciária Parada Neto, de Guarulhos, SP.

Em seguida, com o apoio do Wal-Mart, a ONG Arte que Liberta começou a planejar o projeto para a Penitenciária Feminina do bairro de Santana, na capital paulista. Ali está sendo organizado um projeto de tecelagem.

Segundo a diretora do Instituto Wal-Mart, Daniela Di Fiori, "É muito difícil uma empresa investir numa causa pioneira". Com apenas dois anos, o Instituto já tem 25 projetos em andamento em Estados como Pernambuco, São Paulo, Bahia, Paraná, entre outros. Já para a Petrobras, "se a sociedade não participar efetivamente na solução dos problemas, eles nunca serão resolvidos".

A ONG desenvolve cursos profissionalizantes e atividades contínuas nas áreas de serralharia artística (móveis e objetos), velas e objetos de parafina (vasos, luminárias etc.), fibra de vidro (cúpulas para luminárias, apliques etc.), pinturas especiais (pátina, automotiva, confecção de moldes (resina, gesso e silicone), trançado com piaçava e palha da costa, fabricação de papel artesanal e papel machê, marcenaria, macramé e outros.

Sob a direção artística dos fundadores, os presos fabricam móveis e objetos decorativos com ferro (mesas de jantar, cadeiras, castiçal), lustres, aparadores, mesas de centro, estantes, adegas, banquetas, camas, sofás, pufes, revisteiros, bandejas, floreiras, cabideiros, molduras para espelhos, vasos, colunas.

Todas as peças levam pinturas especiais como pátina, automotiva, decorativa, decapé, envelhecida etc. A produção gera uma renda de 75% de um salário mínimo para cada preso, além da remissão da pena, sendo que três dias de trabalho correspondem a um dia a menos de prisão.

Segundo Chico Maia, "o tratamento artístico dado aos produtos se funde com a construção dos novos valores que procuramos desenvolver junto ao preso. Não apenas a questão de geração de renda, mas a valorização do 'ser'. De um modo geral eles são muito criativos, perspicazes e predispostos a criar novos valores, como expressão do desejo de mudança. Vive-se de esperança dentro de uma penitenciária. A arte contribui para alimentar esta esperança com criatividade, companheirismo e propostas realizáveis. O resgate da auto-estima faz com que o interno, mesmo atrás das grades experimente a 'liberdade de criar' um novo plano para sua vida futura. Isto melhora o relacionamento dos presos com todos: companheiros de cárcere, direção penitenciária, família e sociedade".

O crescimento da ONG Arte que Liberta foi feito aos poucos. Em 1999 e 2000, foram beneficiados 20 presos por ano. Depois, começou a aumentar: 23 (2001), 28 (2002), 30 (2003), 38 (2004), 45 (2005), chegando a 155 em 2006. Mas não são apenas os presos que se beneficiam: há também os beneficiados indiretos, que passaram de 66, em 1999, a 465, em 2006. Há ainda os beneficiados entre a população de rua: de 40, em 1999, a 120 em 2006. No total, foram 2.470 beneficiados até o final do ano passado.

A ONG tem vários projetos em andamento e em busca de investidores, como "Para Liberdade com Cidadania", de formação da primeira Cooperativa de Egressos da Bahia, em Salvador; e "Liberdade para Criar: Mulheres Artesãs", de formação de oficinas de trabalho na Penitenciária Feminina de São Paulo, SP, com 60 internas em regime fechado. Estes já têm apoiadores. Mas o "Porta Aberta: um Caminho a Seguir", de inclusão de moradores de rua entre 14 e 26 anos de idade no mercado de trabalho, está sem patrocínio.

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