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Melo x Manu: fosso geracional marca reta final da campanha em Porto Alegre

Manuela D"Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB) concorrem à prefeitura de Porto Alegre - André Lisbôa/Agência ALRS/Divulgação/Danilo Christidis/Divulgação/Arte-UOL
Manuela D'Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB) concorrem à prefeitura de Porto Alegre Imagem: André Lisbôa/Agência ALRS/Divulgação/Danilo Christidis/Divulgação/Arte-UOL

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00Atualizada em 26/11/2020 17h42

A disputa pela Prefeitura em Porto Alegre neste ano tem todos os elementos de um embate geracional. É o que um eleitor que acompanha a propaganda dos candidatos na TV pode concluir.

Sebastião Melo, 62, não é só o candidato do MDB. É o representante boomer da competição.

Manuela D'Ávila (PCdoB) é a geração millennial que, perto dos 40, ainda luta por espaço e pelas ideias difundidas desde o Fórum de Porto Alegre. Esta é a terceira vez que a candidata de 39 anos tenta se eleger prefeita da capital do Rio Grande do Sul.

Desta vez, ela uniu as manas e os manos que compõem atualmente a nata das forças progressistas no Brasil. O tom avermelhado de outras campanhas se diluiu, alternando agora entre o tom rosé, o branco e o roxo. Como Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo, a ideia é rejeitar a associação a um certo fundamentalismo de esquerda explorado pelos rivais.

Manuela, ou Manu, como insiste a propaganda, tem trazido ao baile a ideia de diálogo e diversidade. Ela conseguiu o apoio das duas outras candidatas que disputaram o primeiro turno, Juliana Brizola (PDT) e Fernanda Melchionna (PSOL), que conclamou na TV o eleitorado a derrotar a velha direita porto-alegrense.

A velha esquerda está com Manu. Em sua propaganda já apareceram os ex-prefeitos Olívio Dutra e Alceu Collares. Ela tem também o apoio da ex-ministra e ex-senadora Marina Silva (Rede). E de personalidades como Caetano Veloso, Antonio Pitanga, Roger Machado e a galera do Porta dos Fundos.

Melo, por sua vez, apresenta uma lista menos pop e mais, digamos, bairrista em suas redes. Um dos depoimentos ostentados pelo emedebista é o do músico Elton Saldanha, que gravou vídeo de apoio estilizado com lenço, chapéu e guaiaca — além do bigode espesso, claro.

Apesar do tom de celebração, a preocupação com os ataques e fake news relacionados à candidata tem tomado amplo espaço em sua propaganda. Segundo a campanha, ela já foi alvo de mais de meio milhão de notícias falsas desde o primeiro dia da corrida eleitoral.

Uma delas chegou em forma de apelido: Maconhela. Outro afirma que ela pretende derrubar igrejas caso seja eleita.

No programa de quarta-feira (25) Manuela fez questão de citar, e rebater, as correntes sobre o apelido e os falsos planos anti-clero. Os ataques, segundo ela, partem de quem não quer falar sobre a cidade.

"Se não falarem que sou uma pessoa horrível, vão ter que falar que não entregaram as creches, que as pessoas não têm água na torneira até hoje", afirmou.

A candidata do PC do B à Prefeitura de Porto Alegre, Manuela D'Ávila - José Carlos Daves/Agência F8/Estadão Conteúdo - José Carlos Daves/Agência F8/Estadão Conteúdo
A candidata do PC do B à Prefeitura de Porto Alegre, Manuela D'Ávila
Imagem: José Carlos Daves/Agência F8/Estadão Conteúdo

Nos últimos dias, ambos os candidatos se posicionaram e condenaram o racismo escancarado no assassinato, por dois seguranças brancos, de um homem negro, Beto Freitas, em um Carrefour da cidade. O espancamento repercutiu no mundo todo e colocou Porto Alegre no centro das atenções.

Menos de uma semana depois, o assunto parece ter se dissipado do horário eleitoral —a principal referência à luta antirracista na cidade estava contida em depoimento do senador Paulo Paim (PT) em defesa da candidata.

Na reta final deste segundo turno, a campanha de Manuela tem explorado uma certa indefinição no posicionamento do adversário no jogo político. "Ninguém nunca me perguntou de que lado eu tô. Desde os 23 anos as pessoas sabem o lado que eu tô", afirma ela, séria. "Estou do lado do diálogo."

Porto Alegre nunca elegeu uma prefeita mulher e esta é uma tecla que a candidata tem batido frequentemente em sua propaganda. Uma de suas propostas é a criação de centros de proteção à mulher.

Do outro lado está um candidato com mais de 60 anos que leva ao ar uma campanha que poderia ser exibida tanto agora como em 1992. Ninguém notaria a diferença. Em termos genéricos, o candidato fala sobre qualidade de vida, valorização de parques, praças, atenção a idosos, exames e procedimentos médicos.

Na última propaganda na TV, ele levou ao ar o depoimento do ex-prefeito José Fortunati, de quem foi vice e por quem foi amplamente favorecido após o candidato do PTB desistir de concorrer ao cargo novamente.

Melo cresceu desde então e se tornou o principal oponente da candidata que liderava as pesquisas com boa margem. Hoje é o favorito para se eleger no domingo (29). No Ibope, Melo tem 49% das intenções de voto e Manuela, 42%.

Em sua participação na propaganda do ex-vice, Fortunati assegurou que o candidato gosta de gente, gosta de estar com gente e gosta de ver os porto-alegrenses felizes. E, como se indicasse um motorista para um visitante, disse que o aliado conhece a cidade como ninguém.

Uma marca da campanha de Sebastião Melo até aqui é um punho fechado que bate no lado esquerdo do peito enquanto olha sério para a câmera.

O candidato do MDB à Prefeitura de Porto Alegre (RS), Sebastião Melo - Alexandre Adais/Futura Press/Estadão Conteúdo - Alexandre Adais/Futura Press/Estadão Conteúdo
O candidato do MDB à Prefeitura de Porto Alegre (RS), Sebastião Melo
Imagem: Alexandre Adais/Futura Press/Estadão Conteúdo

A mensagem do emedebista está subentendida: colocar de um lado a experiência, a força, a virilidade, e blablabla. E, de outro, essa juventude aí que diz que quer tomar o poder com esse papo sobre diversidade e combate à desigualdade.

Uma típica briga geracional de qualquer almoço em família. Só que em público e pelo comando da 10ª maior cidade do Brasil. Uma cidade que historicamente é a ponta de lança das tendências e experiências, à esquerda e à direita, das disputas nacionais.

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