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16/08/2010 - 10h00

Pode me considerar um head hunter. Do governo.

William Douglas

Sim, minha função aqui é informar, esclarecer... Mas confesso que, na verdade, estou aqui também para conseguir contratar você para trabalhar em minha empresa: o governo. Estamos querendo os melhores. Pode me considerar não apenas um Juiz Federal e professor, mas também um head hunter a serviço do governo brasileiro.

Como já disse no artigo anterior, na prática você pode nos considerar (o governo), como a maior empresa desse país. E direi a razão.

O Brasil tem algumas empresas entre as listadas no ranking das 500 maiores do mundo, elaborado pela revista americana Fortune, tais como Petrobras, Vale do Rio Doce, Itaúsa (holding de participações do Itaú), Bradesco, Banco do Brasil e Gerdau.

A Petrobras está em 34º no ranking, com receita de US$ 118,257 bilhões e a Gerdau está na 400ª posição, com faturamento de US$ 22,86 bilhões. A líder do ranking das 500 maiores empresas é a petrolífera anglo-holandesa Royal Dutch Shell, que, com faturamento de US$ 458,361 bilhões no ano passado, superou o Wal-Mart.

Enquanto isso, a arrecadação tributária do país para este ano está projetada para um total de R$ 1,27 trilhões, 180 bilhões a mais que a arrecadação de 2009. Convertendo reais em dólares, você pode conferir que Petrobrás, Vale, Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Gerdau não conseguem, juntas, chegar nem perto do faturamento do governo através de tributos. O Brasil, se fosse uma empresa, estaria em 1º lugar nesse ranking.

Mesmo comparando país com país, estamos entre as dez maiores economias do mundo, com previsão de sermos a 5ª maior em pouco tempo. Na verdade, a “empresa” Brasil é a única de todas estas citadas que tem o poder de aumentar sozinha seu faturamento: basta aumentar os tributos. Isso pode aumentar a sonegação, prejudicar a economia, a competitividade... Mas tem sido a solução nos últimos anos.

Na verdade, e infelizmente, todo o país trabalha cinco meses do ano para pagar os inúmeros tributos existentes, ou seja, para pagar a conta dessa enorme empresa chamada Brasil. Algo a ser corrigido, é claro.
Apesar das críticas, o fato é que o Brasil está crescendo e esta empresa precisa desesperadamente de bons funcionários. Há no Brasil 10 milhões de servidores públicos, algo incomparável, por exemplo, com a Petrobras, que tem cerca de 60 mil funcionários e 170 mil terceirizados. O Bradesco tem cerca de 54 mil funcionários. E por aí vai.

Aliás, o Bradesco chegou a fazer uma campanha para dizer que está em todos os municípios do país. O governo já estava lá há muito mais tempo! E por estar em tantos lugares e ter tantas funções, e por estar em crescimento, e com seus funcionários se aposentando em grande número, o governo está contratando em ritmo acelerado.

Só para citar um exemplo, a Petrobras, que faz concursos para contratação, está crescendo em ritmo intenso, ainda mais agora com o Pre-Sal. Em números recentes, o lucro da petroleira brasileira só foi inferior ao da Exxon Mobil. Empresas como Microsoft, Walmart, IBM, Goldman Sachs, GE e Chevron ficaram atrás da Petrobrás. E ela é apenas uma das várias empresas ligadas ao governo e que contratam através de concursos.

Entre os cargos que estão disponíveis, temos alguns existentes apenas no governo, como fiscal da receita e policial, por exemplo. E outros que existem tanto no governo quanto na iniciativa privada, como professor, médico e enfermeiro. Eu já fui professor da UFF (Universidade Federal Fluminense). Tinha as garantias e status de professor efetivo de uma universidade do governo e acumulava este cargo com aulas em instituições privadas, aumentando minha remuneração e contatos.

Tecnicamente falando, nem o governo, nem o país, é uma “empresa”, pelo menos, não uma empresa comercial. Mas não deixa de ser uma “empresa” no sentido de empreendimento, de projeto. E é também, reconheça-se, uma organização dedicada à prestação de serviços. Todos os serviços: saúde, segurança, justiça, saneamento básico, educação, lazer, previdência.

Por outro lado, a partir do momento em que contrata pessoas, o governo passa a ser uma das opções disponíveis para quem está procurando seu lugar ao sol, um projeto de vida ou, quando menos (e não menos importante), uma fonte de renda para sustento e conforto para si mesmo e para a família.

Por muito tempo, as contratações do governo foram atreladas a critérios políticos, alguns não muito meritórios. Atualmente, contudo, a forma básica e amplamente dominante de acesso aos cargos públicos é a realização de concursos públicos.

Anteriormente, a sociedade, o mercado e os profissionais de vários segmentos percebiam a carreira pública como secundária, como carente de méritos e como opção menor.

Contudo, a percepção da importância do Estado, as sucessivas crises no mercado e as consideráveis vantagens e prerrogativas dos servidores públicos vem fazendo com que esse quadro seja percebido de forma diferente por pessoas, empresas, imprensa etc.

O “concurso público” realmente “pegou”. Entrou na pauta e no imaginário da sociedade. Atualmente, consegue rivalizar com as empresas privadas na sedução pelos mais qualificados. Ainda que exista um nicho de pessoas que não se interessa pelo serviço público ou que aspira remunerações estratosféricas, no geral, ele é o mais atraente. Até porque, em muitos casos, os riscos, o estresse e quedas dos CEOs e executivos também são estratosféricos.

O serviço público, além de sedutor pela remuneração e estabilidade, pelo conjunto gerador de uma maior qualidade de vida, ainda tem um elemento extremamente signigicativo, que é o seu fim : o serviço ao próximo e à coletividade.

Eu, como cristão, tenho um dever de serviço ao próximo e ao pobre. As demais religiões também impõem estes deveres e servir ao outro também é nobre e louvável, mesmo que não se pense em religião. A filosofia também nos indica esse caminho. Enfim, quando estou servindo ao país e ao povo como juiz, além da satisfação como cidadão, ainda tenho a alegria de estar cumprindo meus deveres religiosos... e sendo remunerado pelo governo para fazer isso.

Qualquer que seja o motivo e qualquer que seja o objetivo para seu alvo profissional, o fato é que o serviço público passou a ser tema do cotidiano. É claro que existem vantagens e desvantagens entre o mercado público e o privado. Certamente, você não pode deixar de considerar a carreira pública antes de tomar sua decisão sobre para onde ir.

Entao, camarada, estou aqui para, aos poucos, ir mostrando o que temos de bom e de ruim nessa empresa chamada Brasil. Quero ajudar você a refletir sobre sua escolha e.... claro, se for o serviço público, auxiliá-lo sobre como ser aprovado. Afinal, um head hunter existe para isso, não?

William Douglas

William Douglas é juiz federal, professor universitário, escritor e conferencista.
Foi primeiro colocado em diversas seleções.

Site: www.williamdouglas.com.br/

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