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24/04/2006 - 21h00

Portador de deficiência mental é boa mão-de-obra para a rede hoteleira

Roque Simas
Especial para o UOL
Diante da diversidade humana, que propõe novos paradigmas e valores, tem-se um conceito mais real para os indivíduos com deficiência mental, que são aqueles que apresentam desenvolvimento intelectual abaixo da média, paralelamente a limitações que se manifestam antes dos 18 anos de idade.

O doente mental é aquele que sofreu uma ruptura em sua estrutura de vida, passando a adquirir uma doença, que muitas vezes se dá por pressões psicológicas que atingem seu lado afetivo, como as psicoses e a esquizofrenia.

Em uma sociedade em que o trabalho representa o exercício pleno da dignidade humana e a via de realização e satisfação do desejo, a atividade profissional é também indispensável ao portador de deficiência mental. É por meio do trabalho que esse indivíduo será reconhecido como "igual" aos demais, capaz, responsável e útil.

A inserção no mercado de trabalho é essencial para a formação de uma identidade fortalecida pela auto-estima, que com certeza derrubará os mitos que se ventilam injustamente quanto às capacidades laborativas dos portadores de deficiência mental.

Uma pessoa com esse problema não alcança o estágio operatório formal do desenvolvimento cognitivo. Este estágio é inerente a qualquer indivíduo e o capacita para a associação de idéias e para o raciocínio abstrato. No caso dos deficientes mentais, o indivíduo tem necessidade do contato com o objeto concreto.

Parcerias
A fim de que as competências possam desenvolver-se na profissionalização e escolarização das pessoas com deficiência mental, é fundamental que tais expectativas ocorram de forma simultânea e colaborativa, em que a primeira é o foco principal e a segunda, o suporte de acessibilidade e permanência no trabalho. Daí a necessidade das parcerias do setor hoteleiro com as instituições envolvidas com deficiência mental e a família. É preciso atuar de modo multidisciplinar, visando dar suporte a esses indivíduos nas empresas empregadoras e durante a sua capacitação, para que de fato possam ser inseridos neste mercado de trabalho.

O que certamente implementará a inclusão social dessas pessoas é a atividade produtiva, e é fato que os portadores de deficiência mental têm no setor de serviços o ambiente de trabalho mais adequado ao exercício de suas habilidades laborativas.

Tanto a rede hoteleira, que é bastante expressiva no Brasil, como as demais empresas prestadores de serviço, não podem se eximir da responsabilidade de promover a capacitação dos portadores de deficiências.

A atuação das empresas, juntamente com a ação da família, é que vai proporcionar a essas pessoas o exercício da cidadania.

A família deve participar diretamente no programa de capacitação, para que de fato se construa um olhar adequado sobre esses indivíduos. É sob esse olhar que se deve buscar aliados no processo de inclusão social, como os profissionais da mídia e o Ministério Público. É preciso sensibilizar e conscientizar a sociedade, e em especial os empregadores, quanto às potencialidades laborativas do portador de deficiência mental, pois somente o apoio de todos, interdisciplinarmente, poderá contribuir para a formação de uma imagem positiva e humanista dessas pessoas.

Pesquisa
Estudo desenvolvido no ano passado pelo Centro de Educação Especial da Bahia (CEEBA) indica que não há projetos (governamentais e não-governamentais) voltados para a inserção de portadores de deficiência na rede hoteleira.

Realizada com hotéis de quatro e cinco estrelas na cidade de Salvador (BA), a pesquisa indicou também uma compreensão equivocada da condição do deficiente por parte dos gerentes. Grande parte dos entrevistas confundem doença mental com deficiência mental, o que acaba afastando as chances reais de inserção do deficiente nesse mercado.

O que leva este segmento empresarial a não conhecer as capacidades laborativas das pessoas com deficiência mental é a falta de informação.

Quando encaminhados (apresentadas, colocadas, indicadas) por entidades especializadas, os deficientes costumam apresentam qualidades pessoais que muitas vezes faltam aos candidatos que não são deficientes. Isso porque esses não passaram por programas de qualificação e capacitação.

Concluiu-se com base nesta pesquisa que o setor hoteleiro pode perfeitamente acolher as pessoas com deficiência mental no seu quadro funcional, desde que existam entidades ou instituições que os capacitem e dêem o suporte necessário até que os mesmos adquiram autonomia.

É preciso que a sociedade seja instruída quanto às diferenças entre um indivíduo com deficiência mental e aquele que é doente mental, para que este não continue sendo injustiçado, deixando de exercer suas capacidades laborativas por ser confundido com o doente mental.

Roque Simas é professor, pisicopedagogo e especialista em deficiência mental pela FDC (Fundação para o Desenvolvimento das Ciências), em Salvador/Ba.