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14/07/2008 - 10h51

Ex-morador de rua toma posse de cargo no Banco do Brasil nesta segunda

Juliana Doretto
Em São Paulo
Ao meio-dia desta segunda (14), Ubirajara Gomes da Silva, 27, assume o posto de escriturário do Banco do Brasil no Recife (PE) com o salário de R$ 954. Ele foi aprovado em concurso do Banco em 2007, em 136º lugar, entre 171 classificados.

SUPERAÇÃO
Arquivo pessoal
Ex-morador de rua, Ubirajara Gomes da Silva, 27, assume cargo de escriturário no Banco do Brasil hoje
O que chama a atenção na história de Silva é o fato de, até pouco tempo atrás, ele morar nas ruas da capital pernambucana. Depois de passar neste concurso público, o rapaz virou celebridade. Agora, tem até um telefone celular dado por um amigo, que também o abrigou em casa, para poder atender os pedidos de entrevista da imprensa. E, sem timidez, aparenta já estar se acostumando aos holofotes.

Ele parece preferir falar mais do presente que do passado. Conta, sempre com jeito calmo, que conheceu os pais, mas foi criado pela avó. As brigas que tinha com ela o fizeram sair de casa, aos 15, e passar a viver das ruas do Recife. Vivia de trocados que "o pessoal dava", usava banheiros públicos e, às vezes, vestia a roupa molhada, que tinha acabado de lavar, por falta de outra.

Na rua, agressões poderiam surgir de outro mendigo ou de "algum filhinho de papai, que podia tentar algo", mas, sem se estender, ele diz que não passou por nada sério. "Estou aqui, inteiro."

Açúcar e prova anterior para se preparar
A merenda foi um dos atrativos para voltar a estudar, na sexta série, aos 20 anos. Chegou até o fim do segundo grau, com supletivo, em 2006. Um amigo que conheceu em uma biblioteca pública, onde lia jornais com voracidade, sugeriu que ele fizesse concursos. E foram quatro, antes da seleção no Banco do Brasil.

Para enfrentar a rua e os estudos, Silva enganava a fome com açúcar: "De manhã, eu comia bolo-de-rolo com um copo de Coca. Durante o dia tomava muito café, com dez quilos de açúcar em cada xícara e, à noite, comia a merenda da escola".

Diz que nunca estudou muito: "Eu sou mesmo um camicase", em referência aos pilotos suicidas japoneses. Usava apenas algum material, que achava na Internet, acessada em locais públicos.

Na seleção do Lapefe (Laboratório Farmacêutico de Pernambuco), afirma que ficou na 176ª posição, das 150 vagas abertas, mas reclama que, se a entidade chamasse mais aprovados, ele já teria entrado, com as desistências. E aproveita a entrevista para fazer a mesma reclamação em relação à seleção da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), em nome dos amigos aprovados.

Para o concurso do BB, diz que sua única preparação foi imprimir uma prova anterior do banco, três dias antes do exame, e resolver as questões. E nada mais."Já tinha feito quatro concursos.Você faz muita prova e acaba tirando alguma coisa disso." A leitura habitual de jornais também ajudou, conta.

Faculdade
Como gosta muito de números, Silva pensa em fazer faculdade, "algo na área de ciências contábeis, economia, administração ou marketing". Mas não demonstra muita confiança na aprovação em uma faculdade pública federal. Ele já fez o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) duas vezes, para tentar o Prouni, mas conta que tem problemas com a redação.

"O aluno que vem de escola pública não tem condição de passar. Quem faz escola particular vai para a universidade pública. E quem faz escola pública vai para a universidade privada", diz. Mas diz que vai prestar o vestibular mesmo assim. Afinal, ele gosta de ser camicase.

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