Uma mesa estreita, com dois cadernos e uma placa auto-explicativa: "Abaixo-assinado para pôr fim à corrupção". Sobre a placa de isopor, uma pequena bandeira do Brasil. Instalada no meio de um dos corredores da Feira do Livro de Brasília, a mesa chamava a atenção e, em boa parte do tempo, era ocupada por alguém disposto a incluir seu nome e número de identidade na lista. Desde que não fosse menor de idade, como alertava um outro aviso ao lado dos cadernos.
A iniciativa foi do engenheiro aposentado e filósofo Donato Epifânio de Oliveira, 74 anos. Seu objetivo: chegar a um milhão de assinaturas e então, apresentá-las ao Congresso Nacional junto com um projeto de lei com idéias de combate à corrupção. "Eu não posso falar muito sobre o projeto ainda, mas posso dizer que não vai ter essa história de primário, porque réu é réu, não importa se é a primeira vez ou não. Vai ser um projeto contundente", promete.
Donato espera concretizar seu plano até as eleições de 2010. "Ou antes", avisa o mineiro de Uberlândia, que mudou para Brasília antes mesmo da capital existir. Ele conta que trabalhou na construção de importantes monumentos da cidade, como o Palácio da Alvorada e o Teatro Nacional. "Mas, quando veio a ditadura, tive a idéia do meu primeiro livro, com projetos e soluções para o Brasil. Só pude lançá-lo 20 anos depois, porque se o fizesse naquela época, iria preso", diz.
Em cerca de dois meses de investidas em busca das assinaturas, em eventos e nas ruas, o engenheiro contabiliza cerca de cinco mil nomes em seus cadernos. Ele diz que sua família não o ajuda a completar o abaixo-assinado contra a corrupção, mas apóia a idéia. Antes de apresentar o projeto aos parlamentares, no entanto, ele pretende buscar o apoio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), "desde que eles estejam de acordo com as minhas idéias", ressalva. Ele quer tentar recolher assinaturas em cidades no entorno de Brasília, em Goiás, Minas Gerais e algumas capitais do país.
O engenheiro conta que resolveu iniciar o abaixo-assinado por estar "cansado de tanta corrupção no Brasil". Em sua opinião, a situação está piorando. "Quando o Judiciário também fica corrupto, acabou o resto. Até o Presidente da República perde a força", acredita.
Um jovem estudante que assinou o livro tem uma opinião mais branda sobre a corrupção no país. "Existem as grandes corrupções, graves, e as pequenas, que não fazem mal nenhum. Se fosse possível combater todas, seria bom, mas acho muito difícil", avalia Bruno Ferreira Albuquerque.
Para ele, a compra de produtos piratas, por exemplo, é um tipo de corrupção "gravíssima, mas difícil de combater". "Eu já furei fila e já falsifiquei um documento uma vez, pra entrar num jogo e sei que não é bom. O problema é que quando se fala em corrupção, a gente já pensa em governo. Precisa que cada um vá mudando aos poucos", diz.