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20 anos da queda do Muro de Berlim

05/11/2009 - 07h00

"Nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS", diz jornalista que cobriu a queda do muro

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo
  • Maurício Paiva/Folha Imagem - 05.dez.2001

    José Arbex Jr., único jornalista brasileiro na coletiva de imprensa em que foi anunciado o fim da barreira entre as Alemanhas


O jornalista José Arbex Jr, 52, era o único brasileiro dentre os mais de 300 correspondentes internacionais que acompanhavam a entrevista coletiva dada por Günter Schabowski, porta-voz do Partido Comunista Alemão, no dia 9 de novembro de 1989, após um congresso que reuniu PCs de toda a Europa.

A coletiva transcorria sem grandes novidades até que, no final, um jornalista, de forma despretensiosa, fez a pergunta que tornou pública uma informação que mudaria o curso da história: o governo da Alemanha Oriental, na resposta de Schabowski, anunciava que a passagem entre as "Alemanhas" através do muro de Berlim estaria liberada imediatamente. Era o princípio do fim da Guerra Fria.

Arbex, então correspondente da Folha de S. Paulo na União Soviética, acompanhou o antes, o durante e o depois da queda do muro nas ruas de Berlim. Vinte anos após o evento, na avaliação do jornalista, hoje docente no departamento de jornalismo da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), a queda do muro representou o fim do stalinismo, e não do socialismo. Aliás, para Arbex, nunca houve socialismo na Alemanha Oriental, nem na URSS.

Antes da queda do muro, Arbex atuou na imprensa clandestina contra o regime militar e em jornais sindicais. Formado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e doutor em História Social também pela USP, nos primeiros anos após a queda do muro o jornalista trabalhou ainda nas revistas "IstoÉ", "Caros Amigos" e no jornal "O Estado de S. Paulo".

Em entrevista ao UOL Notícias, o jornalista falou sobre o impacto da queda do muro entre o povo alemão, as consequências do fato histórico para a humanidade e o fracasso do capitalismo nas últimas duas décadas.
  • Arte UOL

    O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes


UOL Notícias - Pode contar detalhes sobre a cobertura da queda do muro de Berlim?
José Arbex Jr. - No começo do segundo semestre de 1989 começou uma onda de milhares pessoas querendo sair da Alemanha Oriental rumo à Ocidental, saindo via Áustria, Hungria etc. Tudo isso aí evidentemente inserido no contexto da crise do bloco socialista, com a implantação da Perestroika [processo de abertura econômica] na União Soviética e ainda sob o impacto da desmoralização do socialismo após o massacre dos estudantes em Pequim (em 4 de junho de 1989, na Praça da Paz Celestial). Era situação de fim de festa. Sensação de que tudo estava desabando no bloco socialista. Eu fui cobrir a crise de jovens refugiados na União Soviética, cansados do regime de ditadura do partido único e iludidos com a possível chegada do capitalismo. Na época saiu uma nota nos jornais anunciando que o Partido Comunista da Alemanha convocaria um congresso de partidos comunistas em Berlim. Eu saquei que os caras não iriam fazer piquenique. Algo importante iria acontecer.

Aquele regime tinha se esgotado, mas ninguém sabia que poderia acabar ali. A queda do muro não era algo que dava para prever um mês antes. São essas coisas que acontecem na história.


Então mandei um telex para a Folha dizendo que eu queria ir para lá. Depois de muita negociação, fui para Berlim e encontrei uma cidade em plena efervescência. De lá, acompanhei a visita do [Mikhail] Gorbatchov, que claramente apoiava as manifestações de rua contra o regime socialista na Alemanha. Os estudantes foram perguntar ao Gorbatchov o que eles achavam do governo Erich Honecker (secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha), porque havia a possibilidade de o governo responder à agitação com um massacre semelhante ao de Pequim. E só não houve o massacre porque Gorbatchov afirmou que não apoiaria uma possível repressão. Ele disse: "o governo tem que mudar com a vida". Foi um claro recado que o Honecker não poderia governar do jeito que estava fazendo. A partir daí tudo saiu do controle.

UOL Notícias - E como foi o anúncio de que a circulação entre as Alemanhas seria liberada?
Arbex - Quando o Congresso dos partidos comunistas acabou, o Günter [Schabowski, porta-voz do Partido Comunista Alemão] deu uma coletiva, na qual foi dado um informe ameno. No final da coletiva, alguém perguntou se o pessoal que estava no Checkpoint Charlie (posto militar entre a Berlim ocidental e oriental) poderia passar para o outro lado do muro. Ele respondeu: "Como eu não falei isso ainda? A passagem está livre."

Pedaços do muro de Berlim pelo mundo


Lá havia uns 300 correspondentes e só eu do Brasil. Depois da resposta, surpresos, os jornalistas ficaram olhando um para a cara do outro, desconfiados. Até que alguém perguntou novamente, e o Gunther repetiu a resposta. Todos corremos aos telefones e aparelhos de telex para avisar os jornais e depois fomos para o Checkpoint. Lá vimos muita gente passando para o lado ocidental. Começava um verdadeiro carnaval, uma grande festa, mas uma festa alemã, contida.

UOL Notícias - Foi então algo bem inesperado?
Arbex - Surpreendeu todo mundo. Estava claro que não havia outra saída para o bloco socialista. Aquele regime tinha se esgotado, mas ninguém sabia que poderia acabar ali. As pessoas podiam achar que ainda iria durar mil anos. A queda do muro não era algo que dava para prever um mês antes. São essas coisas que acontecem na história.

UOL Notícias - O que você sentiu do povo alemão na época? Como foi o choque entre as culturas?
Arbex - Sempre houve um investimento em transformar Berlim Ocidental em uma vitrine. De um lado [o oriental] havia os Trabant, um carro minúsculo, feio. Do outro lado, várias Mercedes, centros culturais, entre outros. O capitalismo transformou o lado ocidental em uma vitrine, o que despertou uma ilusão na juventude. Vou fazer uma analogia: quando estava em Moscou, em janeiro de 1990, foi inaugurada uma loja do McDonald's em plena praça Vermelha. Milhares de pessoas ficaram uma hora e meia na fila, sob uma temperatura de -20ºC, para comer um lanche. Aquilo era um símbolo. Hoje, o engraçado é que acontece mais ou menos um movimento contrário a isso na Alemanha. Há um grupo chamado "Nostalgie" que idealiza a Alemanha Oriental. Que a vê de forma idealizada. Se esquecem que houve uma ditadura stalinista, com uma polícia política que implantava o terror.
  • Maurício Paiva/Folha Imagem - 05.dez.2001

    Capa da Folha de S. Paulo em 10 de novembro de 1989, dia seguite à queda do Muro de Berlim


UOL Notícias - E nos dias pós-queda? A sensação de euforia passou rápido?
Arbex - A euforia durou muito. Havia um cansaço com o Partido Comunista. A euforia começou a acabar uns seis meses depois, quando começou a se discutir concretamente a reunificação. Havia uma indústria avançada na Alemanha Ocidental e obsoleta na Oriental. Quem iria arcar com os custos da reunificação? Também havia o problema do emprego. Como empregar quem estava acostumado com o padrão estável do socialismo. Como as pessoas que tinham educação e saúde garantidas no regime socialista seriam tratadas em um sistema de mercado que não garante nada, sobretudo emprego? Isso causou uma grande polêmica. Na época, a extrema direita dizia que a Alemanha Ocidental não tinha nada a ver com os alemães orientais e que, portanto, não deveria arcar com os custos. E isso gerou uma discussão de até que ponto havia um povo alemão. Será que os anos de separação não teriam criado dois povos diferentes? São questões que não se resolveram até hoje. Atualmente, no parlamento alemão, grupos de extrema direita culpam gente da Alemanha Oriental pela crise. Os anos 90 foram muito duros para a Alemanha.

Não existe muro capaz de impedir que a revolta popular se manifeste.


UOL Notícias - Qual impacto a queda do muro trouxe no modo de fazer jornalismo?
Arbex - A queda do muro permitiu a conexão eletrônica entre os países, algo que estava incipiente no mundo capitalista e incorporou a esfera socialista. Antes da queda havia um monte de restrições à compra de computadores no Leste Europeu. Se a Polônia quisesse comprar computadores, equipamentos de ponta, essas máquinas não poderiam ser comercializadas porque seria vender tecnologia para o inimigo. Após a queda, o Leste Europeu foi incorporado para o mundo capitalista. A partir daí tudo mudou, a internet se desenvolveu. O jornalismo teve que mudar seus paradigmas, até então presos à fórmula da Guerra Fria, do Ocidente versus Oriente. O jornalismo teve também que formular sua própria linguagem.

As pessoas ficaram com a ideia que o socialismo fracassou, mas o que elas não sabem é que nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS. O que havia era um regime autoritário, controlado pelo Estado, com um retórica marxista, socialista, mas sustentado por ditaduras corruptas, partidos únicos, algo que talvez pudéssemos chamar de "capitalismo de Estado".


UOL Notícias - Resumidamente, qual a melhor e a pior contribuição que a queda trouxe para a humanidade?
Arbex - A melhor foi mostrar que não existe tirania capaz de manter o muro de pé. O regime da Europa oriental era autoritário, forte, com uma polícia política eficiente, mas isso não impediu que o muro fosse para baixo. E isso deveria servir de lição para os Estados Unidos, que construíram um muro na fronteira com o México; para Israel, que colocou um muro para separar a Palestina; assim como o que vêm acontecendo nas favelas do Rio, onde muros segregam as comunidades do resto da cidade. Então eu acho que a maior contribuição foi essa: não existe muro capaz de, no longo prazo, impedir que a revolta popular se manifeste.

Já a pior contribuição da queda do muro foi desmoralizar uma ideia, uma proposta, que é o socialismo. As pessoas, em geral, ficaram com a ideia que o socialismo fracassou, mas o que elas não sabem é que nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS. O que havia era um regime autoritário, controlado pelo Estado, com um retórica marxista, socialista, mas sustentado por ditaduras corruptas, partidos únicos, algo que talvez pudéssemos chamar de "capitalismo de Estado".

Vinte anos depois, está provado que o capitalismo não oferece mais saída. É um sistema que não é capaz de alimentar os seres humanos, que está falido. O capitalismo conduz à miséria, fome, degradação ambiental, desemprego, recessão...


As pessoas acreditaram no capitalismo, mas hoje são um bilhão de famintos. Existe um desejo de o mundo ser transformado, mas a queda do muro e a frustração posterior com os rumos do capitalismo deixaram um legado de desilusão. E isso é a pior coisa que poderia ter acontecido.

UOL Notícias - Então, a queda do muro representou, na sua avaliação, o fim do stalinismo, não do socialismo?
Arbex - Num certo sentido sim. Eu não acho que a esquerda deveria ter defendido o regime da Alemanha Oriental, corrupto, truculento... Eu jamais defenderia um regime desses, mas, por outro lado, querendo ou não, a derrota desse regime acabou sendo a derrota da perspectiva socialista. A imensa maioria da população mundial acha que o socialismo é uma grande porcaria, e isso é uma derrota. Por outro lado, 20 anos depois, está provado que o capitalismo não oferece mais saída. É um sistema que não é capaz de alimentar os seres humanos, que está falido. Nesse sentido a tarefa hoje está mais fácil. O capitalismo conduz à miséria, fome, degradação ambiental, desemprego, recessão... Uma série de dados nos mostram que o capitalismo está num impasse.


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