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20 anos da queda do Muro de Berlim

08/11/2009 - 07h00

Dissidente comunista se diz desiludida com Alemanha atual

Da Lusa
Em Berlim
A mais famosa dissidente da ex-República Democrática Alemã (RDA), Baerbel Bohley, mantém o espírito crítico e 20 anos depois após a queda do Muro de Berlim não esconde o desagrado perante algumas realidades da Alemanha atual.
  • Arte UOL

    O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes



No próprio dia da queda do muro, em 9 de novembro de 1989, a fundadora de vários movimentos contra o regime comunista não hesitou em dizer que as pessoas estavam "doidas", e o governo tinha "perdido o juízo", ao ver a euforia de um povo inteiro que corria para as fronteiras com o ocidente.

"Nós não queríamos necessariamente que o muro caísse, e quando hoje muitos dizem que queriam a reunificação da Alemanha, é porque se esqueceram de que queriam de fato a liberdade", disse à Agência Lusa a artista plástica de 64 anos.

Quando relembra os acontecimentos que aconteceram depois da queda, a fundadora do Neues Forum, primeiro movimento político de oposição legalizado na RDA, lamenta que as coisas não tenham corrido de outra maneira.

"Nós, alemães, temos uma forma de lidar com o passado muito duvidosa: é preciso é esquecer depressa. E é pena, por exemplo, que tenham destruído quase todo o Muro de Berlim. Mandaram os bulldozers antes de os alemães ocidentais poderem ver como era", diz Bohley.

Em retrospectiva, a dissidente preferia também que os ativistas dos direitos cívicos da RDA, após a queda do Muro, tivessem escolhido os seus próprios representantes para negociar com a Alemanha Federal, "em vez de se deixarem representar por alguns oportunistas que surgiram do nada".

As comemorações dos 20 Anos da Queda do Muro de Berlim, cujo ponto alto será, em 9 de novembro, o derrube simbólico de mil "pedras" de um dominó de esferovite fabricadas por alunos das escolas, também não escapam à crítica de Baerbel Bohley, que se diz "avessa a rituais".

"Acho muito estúpida e exagerada a ideia de fazer um muro de esferovite só para alimentar as televisões, mas há opiniões diversas, só lá vai quem quer", comenta.

"Pelo que sabemos do que se passa no mundo, não acho bem que se invista tanto dinheiro nessas festividades", diz a artista, que tem algumas dificuldades em aceitar também outras mudanças que ocorreram em Berlim.

"O meu bairro, Prenzlauer Berg, foi invadido por jovens tecnocratas do sul da Alemanha, que acham chique viver em Berlim, e não se interessam minimamente pela história local", lamenta Bohley.

"Está tudo muito bonito, os prédios já não estão em ruínas, mas quando entro no supermercado as pessoas deixaram de falar umas com as outras e há mendigos à porta", observa ainda.

Estas e outras críticas valeram a Baerbel Bohley a alcunha de "Cassandra", a profeta da desgraça, epíteto que a intelectual recusa liminarmente.

"As pessoas gostam de meter tudo em gavetas, se faço críticas de esquerda, dizem logo que estou com os neocomunistas, embora não queira ter nada a ver com eles", lamenta.

Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Baerbel Bohley aceitou ir tomar chá com o chanceler democrata-cristão Helmut Kohl. Choveram então críticas da esquerda.

"Se calhar, devia ter-me encontrado com ele mais cedo, para lhe dizer que não estava de acordo com muita coisa, também me teria encontrado com (Erich) Honecker (chefe do partido comunista da RDA) se ele me convidasse, acho que as pessoas são demasiado orgulhosas", afirma a artista.

Mesmo sem estar na política ativa, ela continua atenta ao que se passa, e considera "um escândalo" que o governo e o parlamento não tenham libertado ainda cerca de 15 milhões de euros para se poderem reproduzir mais rapidamente, através de um programa informático, 15 mil sacos cheios com fragmentos de atas da STASI, a polícia política leste-alemã, rasgadas pelos seus agentes antes da debandada geral.

"Sempre me senti uma política de base, e acho que as sociedades só mudam quando as pessoas reclamam os seus direitos", diz a pintora, resumindo assim o essencial da sua forma de agir.

A desilusão com muita coisa que vê à sua volta, o consumismo desenfreado, por exemplo, fazem com que já nem sequer se sinta bem na sua cidade natal e pense em voltar a afastar-se para locais mais tranquilos.

"Não fico mais feliz por comprar mais um par de sapatos de que não preciso, acho que vou viver outra vez para o campo", conclui Bohley, que entre 1996 e 2008 trabalhou na Bósnia em projetos de abastecimento de água potável e ajuda a crianças traumatizadas pela guerra, deixando para trás a capital alemã.

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