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20 anos da queda do Muro de Berlim

09/11/2009 - 06h55

Potência econômica, Alemanha emerge da crise, mas ainda enfrenta desafios

Anne Dias
Do UOL Economia
Em São Paulo
A unificação da Alemanha foi -e ainda está sendo- uma grande prova de fogo. Unir os dois lados do país não significou apenas derrubar um muro de concreto em 1989. De acordo com o governo alemão, juntar duas Alemanhas tão diferentes custou cerca de € 1,56 trilhão (cerca de R$ 4 trilhões pelo câmbio atual) ao povo alemão.
  • Arte UOL

    O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes



Todo este dinheiro foi destinado à reconstrução da infraestrutura do país, principalmente da parte leste. Foi preciso reconstruir o sistema de saneamento básico, refazer calçadas e até ajudar financeiramente pequenas e médias empresas a abrir as portas.

"E esse custo ainda representa um peso para toda a economia alemã", diz o economista Antony Mueller, professor de macroeconomia na Universidade Federal de Sergipe.

O economista de 60 anos e que mora no Brasil há dez afirma que muitos alemães subestimaram a unificação, achando que seria mais fácil -e barato- conceber o novo país que estava surgindo a partir dali.

"Quando o muro caiu, a população tomou um susto com o que viu. A estrutura industrial do leste deixava a desejar e seria incapaz de acompanhar a modernidade que vinha do outro lado", diz Mueller.

E ainda hoje, 20 anos depois desse susto, a Alemanha vive duas realidades. O leste ainda padece principalmente com a falta de mão-de-obra qualificada e a consequente alta taxa de desemprego, que chega a ser duas vezes e meia maior do que em outras partes do país.

Um caminho encontrado pelo governo alemão foi diminuir os benefícios dos trabalhadores, como aumentar a idade para a aposentadoria de 65 para 67 anos. Por outro lado, em 20 anos, de 1988 (um ano antes da queda do muro) até 2008, os salários médios dos alemães subiram 85% (veja gráfico com valores já convertidos - o euro passou a valer em 1999).



Crise global
Outra prova de fogo, agora com a Alemanha unificada, é a crise econômica mundial.

A atual situação da economia alemã gera preocupação na sua população. A taxa média de desemprego em outubro deste ano atingiu 7,7% dos 82,3 milhões de alemães. Antes da crise mundial, chegava a 7,4%. Mas em 2005 bateu na casa dos 11%, segundo a empresa de comunicação Deutsche Welle.

O governo alemão tomou algumas medidas de emergência para conter a fúria da crise.

Claudio Struck, diretor de relações governamentais da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, diz que as empresas tiveram de reduzir a jornada de trabalho de 40 horas por semana para 30, porque não havia motivo para produzir se o consumo tinha diminuído.

O governo, então, pagou as 10 horas trabalhadas que faltavam, mesmo com os operários indo para casa mais cedo.

De acordo com o Banco Mundial, o PIB alemão chegou no ano passado a US$ 3,7 trilhões (veja tabela).

COMPARE O DESEMPENHO DOS PAÍSES DO G7

PAÍS PIB em 2008
(em US$ tri)
IDH em 2008 Desemprego em 2009
Estados Unidos 14,204 0.950 9,8% (outubro)
Japão 4,909 0.942 5,5% (agosto)
Alemanha 3,652 0.940 7,7% (outubro)
Reino Unido 2,645 0.942 7,9% (agosto)
França 2,853 0.955 9,5% (junho)
Itália 2,293 0.945 7,4% (junho)
Canadá 1,400 0.967 8,6% (julho)

A Alemanha, junto com a França, foi uma das primeiras grandes economias a retomar o crescimento econômico. No segundo trimestre deste ano, ela voltou a crescer -uma expansão modesta, de 0,3%, mas que deu fim à mais profunda recessão do país desde a Segunda Guerra Mundial.

Uma das definições de recessão é que ela ocorre quando o PIB do país encolhe por dois trimestres seguidos. Se houver uma elevação, mesmo que pequena, considera-se que a recessão acabou.

A projeção mais recente do governo da Alemanha é de que haverá contração de 5% de sua economia neste ano e um crescimento de 1,2% em 2010, melhorando assim as previsões anteriores.

A crise global afetou a Alemanha, principalmente com relação ao comércio exterior. Boa parte da força de sua economia vem das exportações. Com o comércio internacional parado, os alemães se viram numa situação difícil e que deve atingir o desempenho do produto interno bruto deste ano.

Com este novo cenário, as exportações passaram a responder por 14% do PIB só nos seis primeiros meses deste ano. Segundo o consulado alemão, no ano todo de 2007 as exportações responderam por 30% do PIB.

Com a crise, a Alemanha perdeu o posto de maior exportador mundial para a China. Foram US$ 521,7 bilhões exportados pela China contra US$ 521,6 bilhões vendidos pela Alemanha, no primeiro semestre deste ano, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC).

O problema é que a Alemanha vende para o mundo produtos caros, como carros, autopeças e remédios. E a China foi para uma linha mais popular e que exige mão-de-obra menos qualificada, exportando brinquedo, roupa, óculos escuros.

Apesar disso, especialistas afirmam que a Alemanha não perdeu sua importância para a economia mundial. "Ela ainda é o principal motor europeu", diz Kurt Otto Franz Lambert, diretor de operações do Banco WestLB do Brasil. "Os benefícios sociais e o PIB diminuíram neste ano e a tendência é que o desemprego suba no ano que vem. Mas o país ainda é muito forte e o mais importante da Europa."

Para ele, a Alemanha de hoje está melhor do que na época do Muro de Berlim. Lambert lembra que, naquele tempo, o leste manipulava as estatísticas e ninguém sabia direito o que iria encontrar. "Até a qualidade do ar melhorou."


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